Homilias dos Domingos - Ano C e Ano A

 

DOMINGO X TEMPO COMUM - SANTÍSSIMA TRINDADE 04.06.2017

 

LEITURA I: Ex. 34, 4b-6. 8-9
LEITURA II: 2 Cor. 13, 11-13
EVANGELHO: Jo. 3, 16-18

Hoje é o dia da Santíssima Trindade. Celebramos, como todos os anos, no Domingo a seguir ao Pentecostes o mistério da Santíssima Trindade. Já repararam que nós benzemo-nos em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo e a saudação que eu vos dirigi é, ela também, marcada pelas três pessoas divinas, é pelo amor do Pai, a comunhão do Espírito Santo, a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. É este o mistério que vivemos, que celebramos particularmente no dia de hoje.

Em primeiro lugar gostaria de dizer que, para quem tem fé, este facto de que o Deus único é Deus em três Pessoas é indiscutível. Na realidade nós podemos afirmar que é um dado da revelação, encontramos muitas passagens, particularmente no Novo Testamento, em que as três Pessoas são mencionadas como colaborando entre si para a realização do projeto de Salvação do Mundo. Ouvíamos há pouco as palavras de S. Paulo que repete (força de expressão), a saudação do princípio da Missa com uma pequenina diferença "A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco", nós não dizemos o Amor de Deus mas o Amor do Pai, esta é a conclusão da segunda Epístola de S. Paulo aos Coríntios.

Faz parte da Revelação, mas não de uma forma direta, de uma forma talvez subalterna. Deus na verdade falou muito mais do Seu projeto de Salvação para o Mundo, do que propriamente de Si mesmo. É nas entrelinhas que nós descobrimos estas relações de um Deus Pai, de um Filho que Ele enviou ao Mundo, que encarnou, que sofreu, que ressuscitou e que está na Glória e do Espírito Santo que o Filho enviou do Pai àqueles que n’Ele acreditam. Isto é indiscutível, do ponto de vista da fé, não há volta a dar.

Por outro lado, este facto, esta realidade de um Deus que é uno e três Pessoas, não tem explicação e não pode ter explicação, é uma coisa que ultrapassa a nossa capacidade de entendimento. Os grandes génios do pensamento cristão debruçaram-se sobre esta realidade e tentaram encontrar comparações, imagens que facilitassem a compreensão de tudo isto, mas não tem mesmo compreensão, não vale a pena estarmos a torturar a inteligência com isto, ultrapassa a nossa inteligência. Eu penso que isso talvez tenha alguma coisa a ver com o facto de que, para o Povo de Deus, esta realidade do nosso Deus em três Pessoas, um só Deus em três Pessoas, esta realidade de que Ele é uma comunhão, se assim se pode dizer, uma família até, consoante virmos as coisas. Esta realidade diz muito pouco, repito, para o Povo de Deus em geral. Conhecem muitas igrejas dedicadas à Santíssima Trindade? Não, não conhecem de certeza porque não há, pouquíssimas, talvez haja. Não o Povo de Deus não se sente tocado por este mistério. E é pena, realmente pena, por que de uma forma ainda muito incipiente nesta vida, a verdade da felicidade está em nos deixarmos guiar por esta Santíssima Trindade para Ela mesma. Toda a liturgia da Igreja está orientada, com brevíssimas exceções, orientada para o Pai e a oração da Igreja é, na maioria dos casos, dirigida ao Pai pelo Filho ao qual nos une o Espírito Santo. Portanto, este para o Pai, pelo Filho na unidade do Espírito Santo marca toda a oração da Igreja. E se marca a oração da Igreja, marca também a Vida da Igreja.

Nós estamos a caminho de um mistério que nos ultrapassa, que não sabemos explicar, mas esse mistério é desde já a possibilidade da nossa felicidade, da nossa paz, no meio das tormentas do Mundo. É Deus em nós que nos guia, nos esclarece, nos fortalece, e que nos fortalece para isso mesmo, para nos conduzir a Ele, a entrada nesse mistério, partilharmos essa comunhão.

Eu peço a Deus neste dia, que o Povo de Deus se sinta inspirado a procurar mais, a aprofundar um pouco o facto de que estamos situados face a esse mistério que é para nós um grande desafio, a grande atração. Grandes profetas viveram esta atração de uma forma muito profunda. Moisés na primeira Leitura é aquele que pede a Deus que lhe diga o nome e o nome significa muito mais do que uma denominação, o nome é a própria personalidade e Deus diz o que é naquela bela oração, "… lento para a cólera, misericordioso e compassivo…” ouvimo-la na primeira Leitura.

Paulo viveu também apaixonadamente esta tendência. E lembremos a figura de Elias, que não parece nos textos da missa de hoje, mas que também ele caminhou ao encontro do mistério de Deus, subiu ao monte considerado a morada de Deus, e veio de lá reconfortado e fortalecido para a sua missão. E muitos outros ao longo da História.

Este mistério é aquilo que nos dá força e que nos orienta e é para ele que caminhamos para entrarmos naquilo que não sabemos o que é, mas que será a vivência desta comunhão.

Portanto, peço a Deus por todos nós, eu o primeiro, para que o Senhor neste dia ou neste tempo nos converta a esta atração, nos torne apaixonados deste mistério. Nós vivemos isto de uma forma muito indiferente, muito desinteressada, faz parte de um rol, não vai mais longe que isto, é pena.

Deus tenha piedade da nossa indiferença, do nosso desinteresse, e nos dê pela força do Espírito Santo, realmente um olhar embevecido, maravilhado, pelo mistério desta comunhão.

Frei Mateus o.p.

 

DOMINGO DE PENTECOSTES 04.06.2017

LEITURA I: Ac.t 2, 1-11
LEITURA II: 1 Cor. 12, 3b-7. 12-13
EVANGELHO: Jo. 20, 19-23

Irmãos e Irmãs

Estamos a celebrar a Festa do Pentecostes, como sabem.

Nestes textos que foram lidos temos duas versões diferentes, a de S. Lucas no início dos Atos dos Apóstolos diz que o Espírito Santo desceu sobre eles, os Apóstolos, no dia de Pentecostes e narra o milagre das línguas, etc., que consta da primeira leitura. Depois em S. João temos uma versão um pouco diferente, foi na tarde do primeiro dia da semana, também domingo, portanto o dia da ressurreição do Senhor, que Ele lhes apareceu, quando estavam com as portas fechadas por causa do medo, soprou sobre eles e lhes deu o Espírito Santo. De facto não há contradição entre uma coisa e outra, nós não podemos dizer que uma é verdadeira e outra não é, podemos perfeitamente aceitar as duas, e aceitamos. Possivelmente houve uma primeira manifestação do Pentecostes no próprio dia da ressurreição. A intenção reveladora do Evangelho segundo S. João é de que isso está ligado à ressurreição do Senhor, mas a outra não contradiz nada isso. Nós temos muito medo de encontrar disparidades entre as várias revelações do mistério de Deus e, por causa disso, caímos facilmente em exclusões, "isto não serve”, "isto não presta”, "aquilo é que é”. Mas a gente pode aceitar tudo. Assim como o facto, esta primeira lição do Pentecostes é exatamente isso, é aceitar.

O Pentecostes o que era? Era o dia quinquagésimo, fazia 50 dias de passagem sobre a Páscoa e a palavra lembra aquilo que aconteceu depois da primeira Páscoa, a saída do Egipto no tempo de Moisés, no quinquagésimo dia, no dia de Pentecostes, o povo já está junto do Sinai e recebe da mão de Deus, da mão de Moisés mais exatamente, a Lei de Deus. Portanto a Lei faz parte da Aliança com Deus, foi recebida no Pentecostes. Assim também o dom do Espírito Santo tem um certo paralelismo com o dom de Deus no tempo de Moisés porque o Espírito vem ser a Lei da Igreja é Ele o seu amor, a sua ligação, o seu entendimento, o seu dinamismo, é a Lei da Igreja. Passamos de uma Lei escrita com todos os perigos que isso representa (Paulo tem muita consciência disso) para uma Lei que não é escrita se não nos corações que o Espírito Santo nos dá, que Ele próprio é.

Já na versão de S. João nós vemos que a presença do Espírito Santo muda as coisas. O Senhor deseja-lhes a paz. Depois vemos os Apóstolos que estavam cheios de medo, passam a estar de alegria e depois o Senhor, ao soprar sobre eles, concede-lhes o dom de propagar o perdão de Deus, a paz, a alegria, o perdão. E isso é aquilo que realmente conta, esta presença do Espírito Santo, porque a palavra espirito significa sopro, sopro faz mover as velas dos barcos e dos moinhos, sopro, é uma força que mexe as coisas e isso vê-se exatamente em tudo o que está dito a respeito do Espírito Santo, é uma força que mexe as coisas, mexe o coração das pessoas, transtorna-nos, faz-nos ser santos.

Este problema da diversidade dentro da Igreja que é apontada tanto na primeira como na segunda leitura, encontra a sua explicação assim mais cabal, no Espírito Santo evidentemente, mas o Espírito é ao mesmo tempo um Espírito de unidade como o Senhor disse aos Apóstolos. Eles estão em paz uns com os outros, constituem um só corpo, a imagem, a comparação é a do corpo humano com toda a diversidade dos órgãos e dos sistemas que funcionam no corpo humano, com toda essa diversidade o corpo é uno, nós sabemos que todas as coisas contribuem para essa unidade, na diversidade há entendimento entre todos. Assim seja a Igreja, que tem uma grande dificuldade em lidar com a diversidade às vezes, mas que realmente tem que encontrar processo de aproximação e de diálogo, de paz e de perdão, para que realmente esta diversidade seja uma unidade.

Sem o Espírito Santo a Igreja não está comprometida, não está no projeto de fazer uma Igreja que testemunhe através dos tempos e das diferentes culturas o mistério das maravilhas de Deus, isto é, a ressurreição do Senhor Jesus Cristo, a aprovação da Sua Vida e da Sua Palavra pelo Pai, pois bem isso não está concluído sem o Espírito Santo. E tudo começa a ser dinamizado quando Ele chega. A primeira leitura não o diz, mas nós sabemos que apelos feitos de fora da casa onde estavam os dez Apóstolos, e falam ao povo e há gente que diz aquilo que ouviram, "Como é possível? São todos galileus e ouvimo-los falar nas nossas próprias línguas, como é isso?”, mas há outros que não dizem isso, "eles estão é cheios de mosto" e Pedro teve uma resposta muito correta, muito iluminadora ao dizer "Não! São nove horas da manhã” como quem diz, a esta hora nunca ninguém viu alguém cheio de mosto. Não é isso, e aqui começa a anunciar com coragem, com desassombro, com inteligência, começa a anunciar a ressurreição do Senhor Jesus e o Livro dos Atos dos Apóstolos mostra quantas vezes eles são confrontados ou por multidões por causa de um milagre operado no Templo, ou pelo Sinédrio quando são chamados "à pedra” por estarem a anunciar o nome de Jesus e como Pedro, sempre ele, consegue responder cabalmente e com argumentos que não são capazes de rebater, pois a inteligência, a força, a lucidez dessa declaração e a coragem dessa pregação, vem do Espírito Santo.

Nós pedimos que Ele encha os nossos corações e que acenda o fogo do seu amor; somos um bocado ousados em pedir que Ele venha por o fogo naquilo que não tem fogo, está morto, está esquecido, não tem vida. O Espírito Santo vem trazer a vida, a Vida de Deus, o dinamismo de Deus. É por isso que é associado ao amor, o amor é atribuído ao Espírito Santo primordialmente, e nós sabemos bem isso através destes textos da Liturgia, estamos realmente a celebrar a Sua presença, uma presença do amor.

Pois bem, vamos pedir isso mesmo através de toda a celebração, que Ele venha, que esteja connosco, que nos elucide e comande, se mantenha amigo como é, através de toda a nossa vida levando-nos onde nós queremos chegar.

Frei Mateus o.p.

 

VII Domingo da Páscoa Ascensão do Senhor - 28.05.2017

LEITURA I: Act. 1, 1-11
LEITURA II: Ef. 1, 17-23
EVANGELHO: Mt. 28, 16-20

Meus Irmãos, Minhas Irmãs

Antes de mais nada, nós não deveríamos entender a Ascensão de uma forma espacial digamos, como uma coisa materialista. As frases como: "subiu aos céus”, "desapareceu por trás de uma nuvem” e fazem-nos sentir inclinados a pensar em termos de distância, de que está mais longe ou mais perto. Nós hoje temos um conhecimento do universo muito mais rico do que aquele que tinham no século primeiro e podíamos começar a por perguntas, mas saiu do sistema solar? Da galáxia? Como é que é? Como é que evitou todos os aviões que se cruzam no nosso céu? Não! Não é uma questão de distância, é uma questão de diferença. Porque Deus está em toda a parte e Ele foi para Deus, subiu aos Céus isto é foi para Deus. Ele próprio disse "vou para o Meu Pai, vosso Pai, Meu Deus e vosso Deus”. É isso, dado que Deus está em toda a parte, prova de que não é uma questão de mais longe ou mais perto, é uma questão de diferença, é um outro Universo, o Universo no qual Jesus entra de pleno direito e ao qual Deus O associa completamente. Sentá-Lo à Sua direita significa passou a partilhar o Seu poder de Deus com este Homem nascido da Virgem Maria.

É isso que é importante, Jesus é glorificado, entra na Sua própria glória que o Pai Lhe concede plenamente e é pelo poder do Pai que Ele o faz porque, como ouviram na Epístola aos Efésios, o Pai é que O ressuscitou dos mortos e O sentou à Sua direita, há uma continuidade perfeita entre a ressurreição e a ascensão e isso é importante perceber que, de facto, a mesma glorificação que se processa em duas etapas aos nossos olhos. Mas também é verdade que a Ascensão faz um todo com o Pentecostes, isso aparece nas duas narrativas, tanto nos Atos dos Apóstolos, primeiro capítulo, como no final do Evangelho de Mateus. O Senhor é cheio do Seu espírito e é nessa qualidade que Ele envia os Apóstolos a anunciar tudo o que Ele disse, testemunhar o que Ele fez, ensinar os povos a cumprir aquilo que o Senhor nos ensinou.

Há na Ascensão estes dois aspetos, por um lado a glorificação de Jesus, por outro o início da missão da Igreja. Não é como se Jesus desaparecesse de cena e agora fosse a Igreja que assumisse o seu protagonismo na evangelização do mundo, na salvação do mundo. Não! Jesus passou a estar presente ao Mundo como Salvador, através da Igreja. É a Igreja que, de certa maneira, realiza esta presença, ao mesmo tempo que está junto do Pai, Ele está junto dos discípulos, "Estou sempre convosco até ao fim dos tempos” e o Espírito que Ele lhes deu foi o Seu Espírito que recebeu do Pai e isso é muito importante para se pensar que é a Santíssima Trindade na sua totalidade que atua. A Igreja tem, evidentemente, limites muito visíveis, muito concretos, muito pesados muitas vezes, mas é essa presença de salvação de Deus, de Jesus salvador junto de nós, como apoio, como força, como esclarecimento. É muito bonita a oração que nós ouvíamos na Epístola aos Efésios, "O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, nos conceda um espírito de sabedoria e de luz para O conhecerdes plenamente", conhecer plenamente a Deus e saber que Ele está, realmente, tão perto de nós; "ilumine os olhos do vosso coração, para compreenderdes a esperança a que fostes chamados", isto é, Jesus glorificado chama-nos para junto d’Ele "… os tesouros de glória da sua herança…" a nossa herança é essa, os céus, os céus quer dizer Deus, "a incomensurável grandeza que representa o seu poder”.

Nós pensamos que a Ascensão nos afasta do Senhor, afasta o Senhor de nós, mas não é verdade. Desaparece um tipo de presença que podemos lamentar nunca ter conhecido, Ah! Se nós estivéssemos lá naquela altura, se O tivéssemos conhecido, se tivéssemos conversado com Ele, se tivéssemos visto o poder da Sua palavra e a gentileza e a força com que Ele dava testemunho do mistério e prometia a todos nós a salvação, seríamos melhores cristãos com certeza.

Deixem-me que lhes diga, se nós nascemos neste século é porque este século era o melhor para nós. Se nós tivéssemos nascido naquela altura, se calhar tínhamos alinhado com os fariseus impenitentes que se agarravam à prática que eles faziam da Lei, ou com os saduceus, oportunistas e políticos ligados ao Império Romano, não sabemos o que faríamos, mas certeza se nós nascemos neste século, este século era o mais apropriado ao nosso encontro com Cristo, ao encontro que nos revela quem somos e que nos dá a possibilidade de O acolher, de aderir na Fé, para podermos ser salvos. Ele está acima de todos os poderes e portanto na mentalidade do Novo Testamento é muito importante isso, Ele supera tudo o que é principado, poder, virtudes, soberania, acima de todo o nome que é pronunciado, não só neste mundo, mas até no mundo que há-de vir, há uma situação de superioridade e não há nenhum poder que se Lhe possa opor. Aquelas tentações do ocidente cristão que tantas vezes fizeram tanto mal, de pensar no poder do mal oposto a Deus Criador, ou então de um Deus Criador como sendo o mal, as várias formas de maniqueísmo, não têm razão de ser. Jesus é glorificado acima de todo o poder, o Pai partilha com Ele tudo o que é, tudo que faz. E este Jesus está muito perto de nós. Não está longe, está connosco até ao fim dos tempos e isso significa que é Ele que fala e que santifica. Ele é a fonte da palavra, é a fonte da santidade, é Ele que guia e compreende, que acompanha cada um de nós na sua caminhada. Subiu aos Céus, mas está connosco.

Este movimento para Deus devia despertar em nós um certo interesse pelo Céu, também nós vamos para lá. Ele disse aos discípulos que amava, que ia preparar um lugar para eles e depois vinha buscá-los e, de certa maneira, esta palavra, que a Igreja repetiu ao longo dos séculos, aplica-se a todos aqueles que, realmente, O acolhem na fé e no amor. O Senhor prepara-nos um lugar, Ele que tem todo o poder no céu e na terra, não há nada que fique excluído, prepara-nos um lugar junto de Deus e encontramo-lo a Ele, as pessoas que amámos e que já partiram e todos os outros virão ao nosso encontro.

A Ascensão é de facto qualquer coisa de muito sério (de muito profundo) e percebe-se que se nós tivéssemos um espírito de sabedoria e de luz, veríamos como tudo isto está certo e é tão bonito e nos diz respeito de uma forma tão elevada.

Louvamos a Deus por ter feito todas estas coisas e Seu Filho Jesus Cristo e n’Ele encontramos de facto o amor que Deus tem para salvar o mundo.

 

Frei Mateus o.p.

 

VI DOMINGO DA PÁSCOA – 21.05.2017

LEITURA I: Act. 8, 5-8. 14-17
LEITURA II: 1 Pedro 3, 15-18
EVANGELHO: Jo. 14, 15-21

 

Meus Irmãos, Minhas Irmãs

Refletindo sobre aquele episódio narrado por este Evangelho de S. João, o do golpe de lança dado ao lado de Jesus de onde saiu sangue e água, já tinha Ele morrido, refletindo sobre isso. Padres da Igreja faziam a comparação com o aparecimento de Eva, a primeira mulher, também ela tirada do lado de Adão que estava adormecido do poder de Deus. Num caso ou noutro, a figura que nasce é feminina, de certa maneira, é o Espírito Santo, é Eva no primeiro caso e depois é a Igreja. A Igreja simbolizada nos dois grandes sacramentos da água e do sangue, do batismo e da eucaristia. E é isso que nós estamos a ver nestes textos todos deste tempo pascal. É a Igreja a nascer, a afirmar-se, a ganhar forma, até que, depois de celebrarmos o Pentecostes, ela é definitivamente dinamizada pelo Espírito de Deus.

Mas este Evangelho tem uma grande importância porque acrescenta às notas sobre a Igreja das outras Leituras, uma nota essencial.

A primeira Leitura tinha qualquer coisa também de verdadeiramente essencial que era que a Igreja cresce pela pregação sobre Jesus. Aquilo que Filipe foi fazer a Samaria, foi pregar o Messias àquela gente e fez essa pregação acompanhada de sinais, tal como Jesus fez no Seu tempo do Evangelho. Teve um resultado bastante forte, aderiam unanimemente às palavras de Filipe, criou-se logo ali uma comunidade de fé, batizou, etc. E depois vêm os Apóstolos de Jerusalém impor as mãos para que recebam o Espírito Santo. Assim cresce a Igreja e assim tem crescido ao longo de todos os tempos.

Na segunda Leitura é um outro tipo de pregação que está presente. É uma pregação muito vulgar, muito habitual, é a pregação da vizinhança. No contacto que os cristãos têm com as outras pessoas é natural que surjam perguntas da parte dos não cristãos perguntando, "porque é que vocês fazem isto? Porquê que vocês acreditam nisto?”. E é isso que Pedro diz, "nós temos que estar prontos para dar a resposta sobre a razão da nossa esperança” e acrescenta (o que está escrito é importante) "Mas com brandura e respeito, conservando uma boa consciência…” etc. Essa pregação é feita pelo povo de Deus que constitui a Igreja e nasce das relações de vizinhança, como eu dizia, mas é talvez a pregação mais eficaz do crescimento da Igreja, são leigos que falando com outros poderão a vir a ser leigos também, dão testemunho da sua esperança desta forma, com brandura e com respeito e com coerência evidentemente.

Mas no Evangelho vai mais longe, de certa maneira dá-nos a razão de tudo isto. Dizia o Evangelho, "Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro defensor”, o Paráclito, o Espírito Santo, "O Espírito da Verdade que o mundo não pode receber, …, mas que vós conheceis…” e depois diz assim "Não vos deixarei órfãos: voltarei para junto de vós". Isto quer dizer que quem acolhe o Espírito Santo, acolhe Jesus. Como em paralelo se pode dizer, como Jesus disse neste mesmo Evangelho, um pouco antes, a Filipe, "Filipe, quem me vê, vê o Pai”. Se quem vê Jesus vê o Pai, assim também quem acolhe o Espírito santo, acolhe Jesus. É Ele que está nos sacramentos da igreja, é Ele que está na palavra dos Apóstolos e dos missionários, é Ele que dá a coerência a este corpo muito grande que é hoje a Igreja. Nós vivemos muitas coisas que não têm a ver com a figura de Jesus e às vezes é difícil redescobrir o Mestre naquilo que os seus representantes fazem. Nós somos muito falíveis e todos nós que temos responsabilidades no testemunho de Cristo, muitas vezes falhamos e claro que os que estão de fora, nós próprios sofremos com isso, não passa a mensagem. Mas no entanto há uma eficácia dessa presença de Jesus que vem do Espírito Santo, naquilo que a Igreja faz. A Eucaristia que eu celebro convosco é Cristo que a celebra, é Ele que consagra o Pão e o Vinho, é Ele que Se dá em alimento. E quem batiza? Não é nem A, nem B, nem C, é Cristo que batiza, todos os que são batizados, são batizados em nome do Senhor. A eficácia dos sacramentos depende toda d’Ele, a veracidade da Palavra depende d’Ele e está garantida nesse sentido. Ele é Aquele que está sempre connosco. Habita connosco e está em nós, como eu disse. Não nos deixa órfãos. No Evangelho segundo S. Mateus, no final diz "estarei convosco até ao fim dos tempos”, está com o Pai e está connosco. E estando connosco é Ele que anima tudo em todos nós e dá eficácia às nossas próprias palavras. De facto não sabemos, por mais miseráveis que sejamos, a Graça de Deus passa através daquilo que fazemos. Não deveria ser assim, mas não depende da santidade do ministro a eficácia dos sacramentos, um padre pecador perdoa pecados dos outros, eficazmente isto é assim, porque Cristo está com a Igreja. O Espírito Santo que veio é a Sua presença no meio de nós e Ele está connosco para dar realmente acompanhamento, apoio, direção a todo o movimento da Igreja.

O fundamental é, ao fim e ao cabo, que nós amemos Jesus Cristo. "Se Me amardes, guardareis os Meus mandamentos e Eu pedirei ao Pai que vos enviará…” etc. Se o amarmos guardamos os Seus mandamentos. Como que é possível amar alguém e não ter em conta aquilo que essa pessoa deseja, pede e ensina? Não é discípulo, não. Amar alguém é identificar-se com alguém e portanto, nestes casos, fazemos nossos os projetos e as palavras de Jesus Cristo e está garantida, se nós O amarmos, esta presença do Defensor, do Paráclito e d’Ele mesmo, é aquilo que nós tentamos fazer. Pentecostes é fundamental porque veio dar como que o nó de toda esta construção vem tornar-nos isto efetivo e dinâmico, é como a ficha que entra na tomada e ilumina as coisas. O Espírito dá a vida a tudo isto e é, para nossa consolação, é Jesus Cristo connosco, o Deus connosco.

Preparemos, vamos viver a Festa do Pentecostes dentro de quinze dias e realmente é importante que sejamos capazes de acolher esta manifestação de Deus que vem até nós. "Quem Me ama será amado por Meu Pai e eu amá-lo-ei, manifestar-me-ei a ele”. É isso, Ele manifesta-se em nós e nós podemos dar um testemunho autêntico, garantia daqui que é Jesus Cristo que está em nós.

Frei Mateus o.p.

 

V DOMINGO DA PÁSCOA – 14.05.2017

 

LEITURA I: Act. 6, 1-7

LEITURA II: 1 Pedro 2, 4-9
EVANGELHO: Jo. 14, 1-12

 

Durante este tempo pascal, as primeiras leituras das celebrações eucarísticas são sempre tiradas do Livro dos Atos dos Apóstolos. De certa maneira fazem-nos assistir à estruturação e crescimento da jovem Igreja. Hoje tínhamos aqui um momento de quase crise nessa jovem Igreja com murmurações e críticas a propósito do tratamento dado às viúvas dos helenistas, com desprezo por elas, em favor das viúvas dos hebreus. E a Igreja resolveu criando uma categoria de ministros, servidores, diáconos (diácono quer dizer exatamente isso, servidor). A Igreja estruturou-se e cresceu na sua estrutura com a criação dos diáconos como passo importante e realizou-se pela mão dos Apóstolos como ouvimos, mas não perguntou se tinham consciência de que o fundamento dessa decisão, como no fundamento do trabalho de cada um, estava a figura de Jesus. O Senhor é que era o fundamento de toda essa construção e a referência absoluta para tudo aquilo que a Igreja ia fazendo, ia descobrindo, ia criando.

É por isso que tem muito interesse a Epístola de S. Pedro, de que foi lida a passagem, e que nos diz "Aproximai-vos do Senhor que é a Pedra Viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida, preciosa aos olhos de Deus.” Este conselho, como outros que Pedro dá aos seus interlocutores, como aliás a própria conversa entre Jesus e os Apóstolos na narrativa do Evangelho de S. João é também para nós. Temos um bocado a tendência de pensar que é uma coisa que aconteceu, uma conversa que eles lá tiveram entre eles, mas se estas coisas são mandadas ler pela Igreja, é por que dizem respeito também a nós. Não tenhamos dúvidas este aproximar do Senhor que é a Pedra Viva, é também para nós, S. Pedro está através destes séculos todos a dizer a todos nós, "o Senhor é a Pedra Viva e devemos aproximarmo-nos d’Ele”. A vida escolhida e preciosa aos olhos de Deus é Ele, é n’Ele que se constrói o templo espiritual que é a Igreja. E nós somos parte desse templo, nós temos como pedras também vivas, de entregar a nossa vida para essa construção. Por isso se diz na Escritura: "Vou pôr em Sião uma pedra angular escolhida e preciosa” e essa pedra preciosa é o Senhor Jesus Cristo. Quem puser n’Ele a sua confiança não será confundido. É isso que nós ouvimos da boca de S. Pedro e é muito importante pensar exatamente isso: nós somos membros dessa Igreja contruída sobre Cristo, e é por isso que somos uma geração eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, o povo querido por Deus para anunciar os Seus louvores. Sim, nós também somos um sacerdócio real, todos nós, pelo batismo nos fizemos membros deste povo sacerdotal que é o povo de Deus e por isso mesmo temos um sacerdócio a que se chama sacerdócio da vida santa, da fé, do batismo e que é distinto do outro, o sacerdócio dos ministros da Igreja. Portanto é para nós de facto o que está aqui escrito: "o Senhor chamou-nos das trevas para a Sua luz admirável”.

E depois temos a conversa do Evangelho segundo S. João. E há aqui várias coisas que me parece deveriam de ser fixadas. A primeira coisa é manter essa ideia, esta conversa chegou até nós para nossa construção, para nossa educação como cristãos. E o Senhor diz-nos que nos vai criar uma morada, vamos a caminho dessa nossa morada celeste, Deus chama-nos para lá, acreditamos nisso, para ficarmos juntos com Ele e esse estar junto com Ele, de certa maneira começa já nesta vida, há um aproximar-se de Cristo, como diz S. Pedro, que já se pode fazer através da oração durante todo este tempo em que estamos ainda a caminho, somos viajantes para lá, mas não há dúvida nenhuma que é qualquer coisa que atingirá o máximo da consolação quando O Senhor realmente nos puser ao pé d’Ele na vida Eterna, na alegria de Deus. E depois isto que é para nós, aprofunda-se muito com a afirmação de que isso realiza-se por Cristo, Ele é o caminho para lá, caminho e também a verdade e a vida. É neste Jesus que nós encontramos a nossa verdade, é n’Ele que nós encontramos aquela vida que não tem fim, que não tem defeito, perfeita, e é n’Ele que nós de facto nos realizamos totalmente, o povo santo que se oferece por louvor a Deus. Depois há para concluir, para reforçar, esta afirmação de que n’Ele nós vemos o Pai, que Ele nos diz vem de Deus Pai, que as obras que Ele faz são obras que Ele faz por causa da presença do Pai n’Ele mesmo. É muito importante pensar que n’Aquele Homem que andou no meio do povo da Galileia e da Judeia, Aquele Homem que eles atraiçoaram e mataram, era a presença viva de Deus. E n’Ele nós sabemos que lhe pomos confiança, essa confiança não será deturpada

Eu penso que é isto que convém realmente pensarmos, esta Igreja que somos, esta Igreja que é uma nação, uma nação santa, um povo sacerdotal, uma geração eleita, um povo adquirido por Deus, tem como fundamento Jesus e é esse fundamento que nós devemos aprofundar, devemos viver, aproximarmo-nos do Senhor. A nossa verdade, o nosso caminho, o nosso caminho para a verdade, a nossa vida em plenitude, tudo isso nos vem por Jesus Cristo. É por isso que nós não podemos fazer uma abstração da figura do Senhor, fixando o nosso olhar apenas no aparente, na Igreja com as suas cerimónias e com as suas doutrinas e com as suas pessoas, não, nós temos que ir mais longe e sentir que tudo isso tem valor na medida em que está fundamentado em Jesus Cristo e é operado pela força e pela sabedoria do Senhor.

É isso que se nós vivermos assim, se nós vivermos vivamente, nós aproximamo-nos das celebrações que se preparam, a Ascensão primeiro, mas depois o Pentecostes. O Pentecostes é a vinda até nós deste poder salvador, desta união a Deus.

Vamos pedir a Graça de um espírito de conversão e de oração para estarmos perto do Senhor, para nos aproximarmos d’Ele, porque nós não temos realmente outra luz, outro caminho, outra realização possível se não Ele mesmo. E é isso que Ele quer fazer de nós, por isso nos concedeu o dom da fé que nós nunca agradecemos suficientemente. Vamos pedir essa Graça de realmente crescermos na fé a Cristo, aproximarmo-nos d’Ele. É isso, estarmos mais atentos à Sua presença, ao Seu ensino, à Sua verdade, à Sua vida em nós.

Frei Mateus o.p.

IV DOMINGO DA PÁSCOA – 07.05.2017

LEITURA I: Act. 2, 14a. 36-41

LEITURA II: 1 Pedro 2, 20b-25
EVANGELHO: Jo. 10, 1-10

Meus Irmãos, Minhas Irmãs

Que o Senhor nos ajude com a Sua Graça a celebrarmos este dia. É um dia especial, todos os dias são especiais mas este por ser o 1º domingo de Maio é o Dia da Mãe e por ser o 4º Domingo do Tempo Pascal é o Domingo do Bom Pastor. Portanto temos vários temas para orientar a nossa oração, a nossa ação de graças.

Neste dia da Mãe, gostaria de deixar aqui um pensamento de reconhecimento e de apreço especialmente dirigido às mães que estão aqui presentes, mas também às mães de todos aqueles que estão aqui presentes. Todos nós tivemos mãe, muitos de nós já não têm a alegria de a ter presente, mas guardamos com certeza no coração um lugar muito especial, único para as nossas mães e para agradecer a Deus o que elas foram para nós. É uma função humana de imensa importância, talvez a mais alta vocação humana será esta: dar a vida e formar as pessoas.

É também o Domingo do Bom Pastor e os textos da liturgia falam bastante disso, nomeadamente na Oração, nos Responsórios, o versículo do Aleluia e o Evangelho. Eu acho que é importante assumirmos com alegria, com muita paz, que somos as ovelhas do Senhor que é o Bom Pastor. Nós somos as Suas ovelhas, Ele cuida de nós, guia-nos, protege-nos e dá-nos alimento, esse alimento é a Sua Palavra, mas é também o Seu Corpo e Sangue na Eucaristia. O Senhor exerceu e exerce esta função de Bom Pastor através dos tempos e temos que reconhecer que Jesus é, nessa função, insubstituível. Não se pense que Ele foi o Bom Pastor até ir para o Pai na glorificação da Ascensão, não, Ele continua a ser através dos tempos o Bom Pastor e nós vemos que Ele está presente no grupo dos discípulos, na Igreja, Ele está presente para conduzir, para proteger, para alimentar essas ovelhas. Jesus exerce a função de Pastor através de irmãos nossos que escolhe do rebanho e envia para isso. Vemos isso na Primeira Leitura. Pedro no dia de Pentecostes, pela força do Espírito Santo recebida de Jesus, assume uma atitude pastoral, guia aquelas pessoas a quem anuncia o facto da ressurreição de Jesus, que se convertem, guia-os para a Paz e para a Vida, dizendo-lhes que se devem converter, ser batizados e depois orienta-os nos primeiros passos da sua caminhada de cristãos. De facto, a partir do momento em que o Senhor deixou de estar fisicamente connosco, Ele exerce a Sua acção de Pastor através de instrumentos humanos, por isso é que se associa muito claramente este dia do Bom Pastor às vocações de consagração nomeadamente as vocações para o ministério pastoral, aqueles que entregam as suas vidas nas mãos do Senhor para serem os instrumentos da acção do Pastor Eterno que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mas há um grande perigo nisto, confiar nos homens uma missão desta importância, é correr um grande risco. Mas, foi o Senhor que assim fez, que assim escolheu. Ele chega a todas as gerações e a todas as culturas, através de pessoas humanas e limitadas como somos. O perigo está em esquecer que não são mais que instrumentos. Santo Agostinho tem uma reflexão muito profunda sobre a dualidade da sua situação. Dizia, "convosco sou cristão, para vós sou bispo, ai de mim se não for um bom cristão como posso ser para vós um bispo?” E isso é abordado de certa maneira, na leitura tirada da Epístola de S. Pedro, Pedro diz que o Senhor deixou-nos um exemplo, para que nós sigamos os Seus passos. Cristo sofreu por nós, deixando o exemplo para que sigais os Seus passos. E o exemplo que aqui S. Pedro evoca é o do sofrimento, da paixão e da morte do Senhor. E é ao mesmo tempo a evocação da Sua mansidão, como viveu tudo isso sem entrar na agressividade de que era vítima, sem se deixar corromper, não cometeu pecado algum, na Sua boca não se encontra mentira, insultado não pagava com ameaças, entregava-Se Àquele que julga com justiça e por todos os nossos pecados no Seu corpo no madeiro da Cruz. É por isso que esta imagem é muito importante, porque aqueles que são chamados a exercerem um ministério pastoral, nunca se esqueçam desta figura de mansidão e de simplicidade e de poder à maneira de Deus, que é completamente diferente da violência da agressividade do poder humano.

Por causa disso devíamos também dar atenção àquilo que o Senhor diz, Ele é a Porta das ovelhas, é por Ele que se deve entrar e quando se diz que é por Ele que se deve entrar, estamos a chamar a atenção para a atitude de mansidão, de entrega ao serviço, de entrega até à morte ao serviço dos irmãos é dessa atitude que é a Porta, Ele é a Porta das ovelhas. E se vamos para outro lado, para outras portas, somos ladrões e salteadores. É realmente um grande risco e por isso devemos rezar pelos nossos pastores e fazemo-lo em todas as eucaristias pois rezamos pelo Papa, pelo bispo da diocese e por todos os outros que participam nesta função.

Vamos pedir a Deus nesta eucaristia por isso mesmo: que a Igreja se mantenha muito perto, no Seu coração, no coração de todos nós, que somos as ovelhas do Seu rebanho, que esteja muito viva esta figura de mansidão, de doação total até à morte e de competência, Deus sabe para onde nos há-de levar, Ele sabe o que nos alimenta, Ele sabe o que nos pode pedir.

E isso é que é viver o Domingo do Bom Pastor e pedirmos pelas vocações. É evidentemente um grande problema em aberto na Igreja que nós somos hoje, este problema das vocações sacerdotais, há quem pense que poderia abrir muito mais a escolha dos sacerdotes, pensámos em todas aquelas pessoas que são bons pais de família, reconhecidos como exemplo de vida cristã, gente experiente, não crianças, a quem se poderia conceder o sacerdócio na realidade para que eles possam animar, ou que animam mesmo já, a outros títulos para que pudessem dar-lhes a plenitude da vida através da Eucaristia. Mas enfim, esses são problemas que não são para se debater numa homilia, mas temos que saber que há uma angustiosa preocupação com o futuro deste ministério pastoral. Talvez se ponha a fasquia tão alta que todos passam por baixo e não por cima. Talvez seja preciso abrir o caminho a outro tipo de preparação.

Mas o que interessa e isso é que nos toca muito profundamente nesta figura, repito, de mansidão, de paz, de entrega indiscutível à Sua missão, essa figura que é a Porta das Ovelhas, é por aí que se entra e não há outra e isso está connosco, nós somos ovelhas desse Pastor. Agradecemos vivamente isso mesmo.

Penso que neste tempo pascal a relação que temos com o Senhor Ressuscitado vai ao encontro disto mesmo. Ele é Aquele que dá a Vida, a Vida que Ele recupera partilha-a connosco e isso significa que nós temos confiança n’Ele, confiança n’Ele e em mais ninguém. Confiança naqueles que são a imagem e a presença d’Ele.

Damos Graças a Deus por isto mesmo e peçamos ao Senhor que não desampare o Seu pequenino rebanho, como diz a oração, e que nos traga até nós pastores que sejam capazes de ser expressão da Sua palavra, do Seu cuidado, da Sua ternura, da Sua preocupação e que não se ponham acima do rebanho quando deveriam ser apenas os servidores do rebanho. Todos nós sabemos da nossa fragilidade e portanto não podemos atirar pedras a ninguém, mas podemos, em vez disso, pedir que o Senhor fortaleça, esclareça e anime todos aqueles que se entregaram ao ministério, que o façam como Ele, à maneira d’Ele, sigam os Seus passos e que entrem pela porta das ovelhas que é Jesus Cristo.

Frei Mateus o.p.

 

III DOMINGO DA PÁSCOA – 30.04.2017

 

LEITURA I: Act. 2, 14. 22-33

LEITURA II: 1 Pedro 1, 17-21
EVANGELHO: Lc. 24, 13-35

Meus Irmãos, Minhas Irmãs

Estamos em pleno Tempo Pascal. Este é o terceiro Domingo do Tempo Pascal que vai desde a Festa da Ressurreição do Senhor, a Páscoa de Jesus, até ao Domingo de Pentecostes (são sete semanas, Pentecostes significa quinquagésimo dia, portanto são sete semanas, quarenta e nove dias, o dia a seguir é já um outro tempo).

Este Tempo é caracterizado fundamentalmente pelo impacto da Ressurreição do Senhor. Jesus aparece várias vezes a alguns escolhidos e a Sua grande tarefa é esta, que nós vemos aqui assim exemplificada no caso dos discípulos de Emaús. Porque escreveu São lucas este episódio? Sem dúvida, por ser verdadeiro. Lucas afirma que investigou com cuidado junto das melhores testemunhas a verdade das narrativas que integram os seus textos. Mas também porque lhe pareceu útil mostrar como, no tempo em que os destinatários do seu evangelho estão a viver, os cristãos encontram o Senhor na leitura dos livros santos e na fração do pão. Na mesa da Palavra e na mesa do Pão e do Vinho, que em conjunto constituem a Eucaristia, de que o Senhor disse: "Fazei isto em memória de Mim”. Além disso, como em todas as outras aparições depois da Ressurreição, fá-lo para vencer aquela resistência que eles tinham em acreditar na Boa Nova da Ressurreição. Até utiliza uma linguagem um bocado forte, não é? "Homens sem inteligência e lentos de espírito para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram!”. E aos discípulos censurou largamente o terem resistido ao testemunho das mulheres que afirmavam que Jesus estava vivo, a eles parecia-lhes que era simplesmente uma história de mulheres, não se podia dar crédito a uma coisa dessas, é a impressão que dá, e Jesus censurou-os por causa disso.

E a história de Tomé é o mesmo, Tomé não queria acreditar por não ter estado com os outros na primeira aparição do Senhor e no outro Domingo a seguir, Jesus aparece e chama Tomé "à pedra”, digamos assim, e fá-lo acreditar naquilo que não tinha acreditado até aí. Ah! A preocupação de Jesus é realmente sacudir estes teimosos que não queriam acreditar na ressurreição, abaná-los para que acreditassem, acreditassem e portanto saíssem da atitude de prostração e de desespero que nós encontramos muito claramente aqui na linguagem dos discípulos de Emaús e entrassem na alegria Pascal. É isso, aqueles que iam tão pesarosos a caminho de Emaús, assim que descobriram o Senhor vieram a correr a Jerusalém, (são dez quilómetros, já tinham feito dez para lá, mais dez de retorno, não é?), mostra que realmente mudaram, mudaram profundamente. Este tempo é o tempo dos Apóstolos crescerem na fé na ressurreição do Senhor. A comunidade reúne-se em oração, com a presença da Mãe do Senhor, Maria, e está a preparar-se para a vinda do Espírito Santo, pois o Senhor havia dito que haveria de vir uma força do Alto, e veio. O discurso de S. Pedro, que nós tínhamos como primeira leitura, é atribuído ao dia de Pentecostes. A partir daí as coisas já são diferentes, aquela comunidade que acaba finalmente por acreditar que Jesus ressuscitou, esperou na oração, esperou em companhia de Maria, a vinda do Espírito Santo. Quando o Espírito Santo vem tudo muda, a comunidade é dinamizada, é projetada para o exterior e começa a grande missão da Igreja que durará até, àquilo a que chamamos, fim dos tempos.

É este tempo que estamos aqui assim a celebrar, é ainda o antes do Pentecostes. Mas para nós é elucidativo, importante. Eu penso que tudo está presente, o essencial está presente neste tempo já. É uma pequena semente ainda e a doutrina da Igreja, o discurso da Igreja ao Mundo vai crescendo imensamente. Mas o essencial é isto, Jesus ressuscitou, está vivo e isso salva-nos da morte e do castigo. E isso é o dom de Deus à humanidade, o Deus querer reconciliar-nos consigo.

No texto da segunda leitura, (muito posterior, como referência, ao sermão do dia de Pentecostes), Pedro insiste nessa ideia que nós vivemos na fé, na esperança, porque fomos resgatados no Sangue Precioso de Cristo, não por essas coisas corrutíveis como ouro e prata, mas fomos resgatados da maneira vã de viver que herdámos dos nossos Pais, pelo Sangue Precioso de Cristo, Cordeiro sem mancha, sem defeito e destinado à salvação do Mundo”.

Nós acreditamos em Deus que O ressuscitou dos mortos e Lhe deu a glória, para que a nossa fé e a nossa esperança estejam em Deus.

É esta a nossa situação e é importante talvez sublinhar o facto de que, embora a Igreja tenha mudado em muitos aspetos como a mutação de uma semente numa árvore, para utilizarmos a linguagem das parábolas, nós temos aqui assim o essencial, o essencial é isto. Não digo que a Igreja não tenha todo o direito de desenvolver a sua doutrina e de se ocupar de muitas outras coisas além daquilo que era vivido naquele tempo. Mas o essencial continua a ser o essencial, seja grande seja pequena o corpo doutrinal da Igreja, o essencial é o essencial, é acreditarmos que Deus ressuscitou o Seu Filho, que n’Ele temos a Vida e o Espírito Santo vem ajudar a Igreja a dizer a todos, vem trazer a todo a salvação.

O Tempo pascal é portanto, de certa maneira um tempo muito especial e nós nele aprendemos a ver o que é essencial, aquilo que não pode ser posto de lado, não pode desaparecer debaixo de todas as outras coisas que nos são transmitidas. Não, o essencial é isto.

Nós acreditamos porque os Apóstolos disseram que Jesus ressuscitou. Disseram e testemunharam disso perante aqueles que não queriam acreditar, e morreram por isso. Não é uma frase qualquer que se afirma, não é um "slogan” publicitário, é uma afirmação de fé aquela que estrutura a própria Igreja. Nós pensamos muitas vezes noutras coisas, damos prioridade a muitas outras coisas e é uma boa ocasião neste Tempo Pascal para nos reencontrarmos com o que chamei o essencial e que é a semente da nossa vida cristã, em Cristo pela força do Espírito.

É isso que está na base da alegria de que os textos do Tempo Pascal falam tantas vezes e da Esperança, porque na ressurreição de Jesus há uma promessa de ressurreição para todos nós e para a vida que há-de vir a seguir.

Demos graças a Deus por isso e saibamos aproveitar e entender o que tem de específico, de diferente: Jesus ressuscitou, como dizemos tantas vezes nos cânticos e nos textos desta época e n’Ele nós de certa maneira ressuscitamos também.

Frei Mateus o.p.

 

 II DOMINGO DA PÁSCOA – 16.04.2017

 

LEITURA I: Act. 2, 42-47

LEITURA II: 1 Pedro 1, 3-9
EVANGELHO: Jo. 20, 19-31

 

 

Não é por acaso que estas duas aparições do Senhor são relatadas como tendo sido realizadas no primeiro dia da semana, há aqui uma indicação da importância que na Igreja primitiva tinha o Domingo, manifestamente. As coisas não são por acaso, são bem escolhidas, pensadas, meditadas, portanto há aqui de facto uma afirmação da importância da reunião dos discípulos para reconhecerem o Senhor quando estão juntos "para a fração do pão”.

A ressurreição de Jesus abriu a porta para o mundo novo e esse mundo caracteriza-se um bocado através daquilo que nós encontramos nas duas primeiras leituras.

Mas antes de falar-vos disso, pensemos um pouco em S. Tomé. A sua resistência provavelmente não veio de não acreditar que os outros discípulos tinham visto Jesus, veio de identificar Aquele que eles teriam visto com o Crucificado, por isso a insistência, do lugar dos cravos, do lado aberto com a lança, da parte de Tomé. Teriam visto qualquer coisa, mas seria o mesmo que foi crucificado? Por isso é que a insistência de Jesus se dirigiu exatamente a essa dúvida, "vê as Minhas mãos, vê o Meu lado”. Isso foi realmente importante para Tomé, a partir daí cai de joelhos perante a evidência e diz "Meu Senhor e meu Deus”. Tomé não é assim uma figura tão vazia de sentido como poderia ser um resistente qualquer à afirmação da ressurreição, não, ele põe o dedo num aspeto muito importante, é preciso uma experiência de Jesus para acreditar n’Ele. Porque acreditar não é só saber o que aconteceu, acreditar na ressurreição de Jesus não é apenas saber que aconteceu isso, é empenhar a sua vida nisso. Acreditar é muito mais do que saber que aconteceu, é pautar a sua vida por essa luz nova que aconteceu.

E isso é o que as duas primeiras leituras exemplificam de uma forma muito clara e muito complementar. S. Pedro fala de um novo nascimento, provavelmente está a pensar no batismo que era administrado na Páscoa. Fez-nos renascer este Deus de quem ele bem diz, "na sua ressurreição de entre os mortos, Deus nos fez renascer”, renascer para uma esperança viva, quer dizer, a nossa vida passa a ser marcada pela vivência de uma esperança, a esperança da salvação, a esperança do Céu, a esperança da felicidade plena de que fala o texto, e isso é vivido na fé. Uma fé que terá que ser submetida a algumas provas, mas nada disso estraga o valor desta descoberta, porque como ele diz é por pouco tempo. Passamos por diversas provações: alguns deles, muitos deles, passaram pela provação do martírio, mas isso na perspetiva de Pedro não tem grande importância, são coisas de passagem, e isso é a nossa fé a ser posta à prova, para ser mais autêntica, mais verdadeira. E depois diz esta frase importante "A Fé vive no Amor”, "sem O teres vós O amais”, "e isto é para vós a fonte da uma alegria, inefável e gloriosa”, dá a impressão que a nossa vida, acreditando na ressurreição, está toda marcada com estes parâmetros, a fé que nos ilumina, aquilo que faz viver a nossa esperança e depois a alegria, a alegria imensa porque nós O amamos, tudo isso está aqui.

Esta perspetiva é uma perspetiva muito pessoal e incompleta, como eu dizia. Portanto é normal que a gente olhe para a primeira leitura e tenha um quadro mais comunitário. A Vida dos que acreditaram na ressurreição é descrita, sumariamente, chama-se a isto os sumários, dos Atos dos Apóstolos, pelo menos duas vezes no fim do Capítulo segundo e no fim do Capítulo quarto, e é um quadro um pouco idealizado não é? Parece que as coisas estão todas a correr bem e é uma vida perfeita, exemplar, etc., mas de facto Lucas, o autor dos Atos, vai demonstrar que há dificuldades no meio deles e como é que a Igreja vai vencer essas dificuldades. Curiosamente, e isso sublinho, o facto de que os discípulos, os que acreditavam na ressurreição, frequentavam todos os dias o templo, iam ao Templo de Jerusalém, não se separaram da comunidade crente de Israel, de Judá, não se separaram, estavam ligados a ela e só muito mais tarde, na altura da guerra contra os romanos, é que vieram a separar-se dos judeus e até foram os judeus que expulsaram os cristãos dessa comunidade. Isto é importante para pensar realmente que o que é normal no cristianismo, por muito que se tenha feito o contrário, é a inclusão, não é a exclusão. Não foram os judeus que foram expulsos pelos cristãos, foram os cristãos que foram expulsos pelos judeus quando não aderiram à revolta contra os romanos. Foi um motivo político.

Mas aqui há de facto uma visão comunitária que aponta, se a primeira apontava para o batismo, a primeira a pessoal, esta aponta para a eucaristia, é na comunidade cristã que se encontra Jesus Cristo e aí a comunidade vive desta forma a mesma fé, viviam unidos, punham tudo em comum, etc.

Esta dupla dimensão é um desafio para nós. Nós ou damos muita importância a uma e quase não ligamos muito ao quadro geral, ou estamos de tal maneira absorvidos pela perspetiva comunitária que nos esquecemos de que temos que nos empenhar pessoalmente.

Eu penso que este tempo Pascal devia ser exatamente para isso, para nós renascermos para esta dimensão da Igreja. A Igreja é uma comunidade, não é uma comunidade apenas universal (isto é muito vago, muito genérico, não é?), mas tem um significado profundo que nós aderimos pessoalmente, empenhamos pessoalmente, naquilo que é o projeto de Deus para a humanidade.

Vamos pedir isso, que o Senhor nos ajude neste tempo Pascal, a darmos atenção aos dois aspetos equilibrados um com o outro e vivê-los nessa intensa alegria de que S. Pedro fala aos seus interlocutores. Tudo isto nos ajude a caminhar na fé, na alegria e na comunhão. É verdade que a Igreja hoje é uma comunidade mundial e por isso mesmo muito difícil de haver laços de afeto e de entreajuda a esse nível. Mas tudo o que se possa fazer no sentido de nos aproximarmos uns dos outros em atividades e trabalhos, tudo isso é realmente a construção dessa comunidade universal. A lei desta comunidade, como disse o Vaticano II, é o amor, é o serviço, é doação e isso é também qualquer coisa que decorre do tal empenhamento face ao projeto de Deus a nosso respeito, empenhamento pessoal insubstituível.

Que o Senhor nos ajude a crescer nesta dupla dimensão, nos ajude a descobrir o segredo de uma coisa e de outra, que é a alegria de amar a Cristo, da alegria de amar Jesus Cristo.

Frei Mateus o.p.

DOMINGO DE PÁSCOA – 16.04.2017

LEITURA I: Act. 10, 34a. 37-43

LEITURA II: Col. 3, 1-4 ou 1 Cor. 5, 6b-8
EVANGELHO: Jo. 20, 1-9

 

Celebramos hoje a Festa da Ressurreição do Senhor e esta Festa é, de facto, o centro da nossa Esperança. Se Jesus não tivesse ressuscitado tinha sido um grande homem do passado, com uma doutrina muito cativante e muito profunda, mas tudo teria ficado aí. Mas não, Ele está sentado à direita do Pai porque ressuscitou e foi glorificado na Ascensão e, de certa maneira, é isso que permite que Paulo diga que nós estamos com Ele e Ele está connosco; através do batismo nós ligámos o nosso destino ao d’Ele e portanto também essa ressurreição está nas nossas vidas, como uma semente, a semente do Reino, que trabalha no nosso coração e em profundidade e a nossa vida se transforma.

Jesus está glorificado, está com o Pai. De lá mandou o Espírito Santo que impulsionou o grupo dos discípulos. De facto a Igreja nasce do Pentecostes e Pentecostes é a assimilação pelos discípulos do mistério da Páscoa, da vitória Pascal. Mas há um outro aspeto, estes todos são muito conhecidos, há outro aspeto que me parece que deveríamos considerar também, Jesus não foi derrotado no Seu propósito, não se pode dizer que tinha um projeto, e esse projeto implicou com os poderosos do seu tempo, do seu País, que se vingaram matando-O, mas Deus, o Pai, ressuscitou-O. Portanto o projeto que é feito dele? Jesus passou da morte à vida, está na glória do Pai, e o projeto? Essa ideia de transformar o Mundo e o coração dos homens, criar uma nova Criação. Paulo diz claramente, nós esquecemos muito isso, "quem está em Cristo é uma nova criatura”. E sabemos também, segundo o Apocalipse, que a última Palavra da História é, diz Deus, "faço nova todas as coisas”. Não podemos portanto pensar que Jesus se desinteressou, uma vez atingida a Sua própria glória como Filho, se desinteressou do Seu projeto. De certa maneira reassumiu aquilo para que estava no mundo, aquilo para que tinha vindo ao mundo, que era para proclamar a proximidade do Reino e que todos nós podíamos participar nesse Reino se nos convertêssemos e acreditássemos. Eu penso que a transformação do Mundo, para um Mundo de justiça e de paz, de fraternidade, era aquilo que Jesus dizia, para não pagar o mal com o bem, mas vencer o mal com o bem que fazemos àquele que nos persegue, esse mundo está ainda a ser feito, não perdeu o norte do Senhor, o Senhor continua a trabalhar nesse sentido através da Sua Igreja, mas não só. Esta preocupação com a sorte do mundo aparece nas parábolas e nós devíamos dar atenção a isso. O Senhor está a fazer e a provocar o crescimento do trigo na seara. Claro nós somos manobrados para ver sobretudo o crescimento do joio, do mal que habita o mundo, em nós e há nossa volta e todos os dias nos aparecem relatos completos desse mal. Mas, temos que acreditar que as coisas não são assim tão simples, há uma energia de Deus que Jesus assume, e provoca o crescimento do trigo, da coisa boa, da paz e da fraternidade entre os homens, da justiça, da dignificação de toda e qualquer vida humana. Isso não está perdido, não está esquecido, parece-nos que não faz parte deste quadro do mundo, mas não podemos acreditar que Jesus Se tenha desinteressado disso. Ele assumiu a profecia que falava dos novos Céus e da nova Terra e nós dizemos no Credo que acreditamos não só na ressurreição dos mortos, mas na vida do mundo que há-de vir. Essa vida somos nós que a construímos com Ele. Nós não somos pessoas que devemos chorar o mal do mundo e lamentarmo-nos e termos saudades dos tempos anteriores em que tudo era correto e bom como dizem os pessimistas. Não, nós somos os construtores de futuro, nós temos saudades do futuro e trabalhamos para isso. Todos nós, porque o Senhor ressuscitou e a Sua energia de ressuscitado, de glorificado, sentado à direita do Pai, está com o mundo nesse sentido de renovar a face da Terra. É pelo Espírito Santo que isso se faz, é o espírito que o Senhor enviou para isso. Não é apenas para santificar as almas, é para fazer de facto, que cheguem os novos Céus e a nova Terra. Se nós formos santificados no Espírito Santo, como no dia de Pentecostes, e esse Pentecostes aconteceu para nós, para cada um de nós no dia do seu batismo, se nós somos santificados pelo Espírito Santo, é para isso mesmo, para sermos colaboradores de Deus na construção de um mundo fraterno e justo,

Eu acho que este quadro da energia de Deus a trabalhar o mundo no sentido da justiça é qualquer coisa que dá sentido, de facto, à ressurreição do Senhor. Não, não se pode pensar que Cristo uma vez ressuscitado se desinteressou do projeto global e se ficou apenas ligado à ressurreição. Acreditamos na ressurreição dos mortos não é? Nós próprios havemos de participar nisso se Deus quiser e quer, se nós quisermos e queremos, mas é mais do que isso, é esta transformação em profundidade, que fará que a certa altura, tudo seja renovado. Pode-se começar a ser relativamente renovado e vai crescendo nesse sentido.

Isto parece uma grande utopia, e é, é uma grande utopia. Mas não há dúvida nenhuma que se as coisas têm sentido, não há possibilidade de acreditar que Jesus se desinteressou, uma vez ressuscitado, da sorte do mundo. Ele é o nosso chefe. Ele é a origem da nossa caminhada, para nós é caminho, a verdade, a vida. Ressuscitado e glorificado, Ele está connosco e comunica-nos tudo isso.

Essa energia é para nós, por isso vivemos na construção da comunhão que é a Igreja e na construção da comunhão que é a Paz no Mundo. Há muita coisa a fazer, mas façamo-la com alegria e com entusiasmo, porque o Senhor ressuscitou e isso é a garantia para nós de que todo o Mundo pode ressuscitar.

Frei Mateus o.p.

DOMINGO DE RAMOS – 09.04.2017

LEITURA I: Is. 50, 4-7

LEITURA II: Filip. 2, 6-11
EVANGELHO: Mt. 26, 14 – 27, 66

 

A Paixão do Senhor desde há muito conhecida de todos nós, não deixa de impressionar e levanta em nós perguntas angustiantes, porque é que isto aconteceu? Porquê que isto teve que acontecer? É uma pergunta, de facto, daquelas que não se podem contornar, temos que assumi-la. Porque é que isto aconteceu? Tinha que acontecer?

Ao longo dos séculos os cristãos disseram muitas coisas em resposta a esta pergunta, lembrando-se daquelas profecias do Antigo Testamento que falam de um dia da cólera de Deus, da ira de Deus, disseram de facto que esse dia chegou e Deus descarregou sobre a humanidade a sua cólera, punindo-o, castigando-a do seu pecado. E isso caiu sobre Jesus como representante e chefe da humanidade.

A segunda leitura falava de uma obediência até á morte, morte de cruz. Portanto Jesus teria sido Aquele que o Pai mandou morrer para salvar o Mundo e teria obedecido a essa ordem. O Pai destinou o Filho a este Mundo e a morrer para salvar o Mundo.

Mas penso que isto ainda nos escapa de certa maneira. Essa obediência está lá, é evidente, na Palavra da Escritura, "Ele obedeceu até à morte e por isso Ele é glorificado pelo Pai”. Mas essa obediência é a expressão de qualquer coisa, é a expressão de um Amor que nos escapa, de um Amor absoluto, de um Amor sem limites, que Ele teve em si, que o viveu profundamente por todos nós. Foi isso que o Pai lhe deu oportunidade de realizar. Esse Amor teria sido para nós completamente desconhecido se Ele não tivesse sofrido. Só o Amor é que nos salva é certo, mas nós temos que, para nossa salvação, acreditar no Seu Amor. Deus amou-nos e entregou-Se por nós, Paulo disse-o claramente, exatamente com estas palavras. E para nós acreditarmos tinha que ser assim. De outra forma não teríamos tido a perceção da motivação de Jesus em tudo isto. Se a maldade do mundo se apossava d’Ele, porque é que Ele aceitou este quadro se não para que nós víssemos até onde ia o Seu Amor por nós, a Sua capacidade de entrega por nós.

É nesse Amor que nós encontramos a justificação da nossa fé. Nós acreditamos porque não há hipótese de alguém fazer isto que Ele fez voluntariamente, livremente, se não porque realmente nos ama a todos nós. Desde o princípio do Mundo até ao último momento, nós sabemos que amou todos aqueles que o Pai lhe entregou nas mãos, isto é, todos os homens, toda a gente, todas as mulheres, todas as crianças, todos os velhos, todos os pecadores, todos os santos. Tudo isso Ele amou, entregou-se totalmente, não podia dar mais do que aquilo que deu. Submeteu-se ao escárnio, ao sofrimento, à tortura, à crucificação e à morte, porque nos amou. E isso é (se nós nos deixássemos impregnar por essa verdade) isso é que muda tudo. Nós não temos grande valor aos nossos próprios olhos, bem sabemos que não, mas Ele amou-nos assim. Estamos aqui porque Ele nos amou. Pomos a nossa esperança em Jesus e no Seu sacrifício por todos nós, porque esse sacrifício é expressão do Seu Amor. Podemos dizer que "Sim”, da Cruz vem a vitória sobre o mal, porque o amor vence a violência, o amor vence a morte, o amor vence o pecado.

É nesse sentido que nós celebramos esta derrota que é uma vitória. Celebramos esta morte que é, de facto, para nós a porta aberta para a Misericórdia do Pai. Não vamos admitir, nem por um segundo, que o Pai condenou o Filho à morte, não é isso, não se trata disso. Não há condenação de Jesus, há sim a entrega de Jesus a um projeto de Amor por todos nós, que de outra forma nos escaparia, não daríamos por isso, só assim cruente, barulhenta, cheia de ataques de todo o género, desde a condenação até à rejeição, à tortura, tudo isso é bem a prova de que Ele, com imensa coragem, aguentou tudo por causa de nós, tudo por causa de nós. É isso que a primeira leitura dizia e é também isso que, de certa maneira, a segunda leitura dizia, porque não há possibilidade de ser assim se não porque se ama Aquele que manda e obedecer assim, também, porque se ama aqueles por quem Se oferece a Deus.

Nós temos esta marca connosco, nós somos aqueles que acreditamos no Amor que Deus tem por nós, em Cristo. Pode haver algumas coisas no credo que nos faça confusão, mas o fundamental é isto, Ele amou-nos até à morte e nós não podemos esquecer isso.

Está connosco. Fica connosco para sempre.

Frei Mateus o.p.

V DOMINGO DA QUARESMA – 02.04.2017

LEITURA I: Ez 37, 12-14

LEITURA II: Rom 8, 8-11
EVANGELHO: Jo 11, 1-45

Meus Irmãos, estamos perto da Páscoa, de hoje a oito dias é Domingo de Ramos, de hoje a quinze dias é o Domingo de Páscoa. A liturgia da Igreja concentra-se mais no essencial deste Mistério, da Morte e da Ressurreição. Todos nós vivemos essa dimensão da morte e da ressurreição de muitas maneiras. Peçamos ao Senhor que nos liberte da morte que é o pecado.

Há um tema central nestas três leituras que é, evidentemente, o tema da Ressurreição. A Ressurreição é a resposta de Deus ao maior inimigo da vida humana, a morte. E, de certa maneira, essa vontade de dar a vida da parte de Deus está presente em muitas outras ocasiões e de muitas outras formas para além daquelas de que fala o Evangelho. Todos os anos, no fim do Inverno, aquelas acácias que estão em frente da porta da capela têm um assomo de energia e florescem e cobrem-se destas lindas flores lilases, é uma ressurreição, a Primavera é uma ressurreição da natureza à Ordem de Deus.

Pois também é uma ressurreição a promessa que Deus faz de libertar o Seu Povo do exílio na Babilónia de que nos fala o Profeta Ezequiel. Isso é uma ressurreição, "vou ressuscitar o Meu Povo e dar-lhe-ei o Meu Espírito”, e depois é a reconstituição do Povo na Sua Terra, a Terra Santa, uma ressurreição.

Há na palavra de S. Paulo também esta dimensão de que aqueles que acreditam em Cristo serão objeto de uma ressurreição com Cristo que foi Ressuscitado pelo Espírito Santo, assim esse mesmo Espírito que habita nos crentes é esse mesmo Espírito que nos há-de garantir a ressurreição.

Que a ressurreição é a Vida, é a recuperação de tudo aquilo que é bom, muito para lá da nossa experiência atual. A ressurreição é o reencontro com aquilo que nos trouxe alegria e felicidade, reencontro com as nossas pessoas que amámos e que vimos partir às vezes de forma tão difícil, é a ressurreição que supera tudo isso.

Depois há o caso da ressurreição de Lázaro que me parece, para além de tudo o mais, é uma iluminação muito direta, muito especial, sobre o mistério do Coração de Cristo: Jesus chorou, Jesus que iria ressuscitar Lázaro daí a momentos é comovido pela comoção do povo e de Maria. Não fica indiferente. O facto de saber melhor do que ninguém, já tinha previsto, já tinha dito aos discípulos que iria acordar Lázaro, isso não O impediu de vibrar com aquela comoção toda e chorou.

Não pensem que é só ao nível da tristeza que Jesus tem essa reação, não, Lucas diz-nos que quando Ele se encontra com os discípulos que tinha enviado dois a dois a anunciar a Boa Nova do Evangelho e que vinham cheios de alegria, diz que Ele estremeceu de alegria no Espírito Santo e teve também aí um momento de abertura para com o Pai a quem agradeceu aquela alegria, manifestada na alegria daqueles pequeninos, daqueles pobres, digamos assim, que eram os bons dos apóstolos. Não; os discípulos nunca tinham tido nenhuma valorização pela vida e tinham feito coisas extraordinárias, até os demónios desapareciam à sua voz e estavam maravilhados com o que tinham feito e isso deu-lhes uma grande alegria que o Senhor sentiu também, viveu com ela, e estremeceu no Espírito Santo por causa disso e agradeceu ao Pai.

Aqui também há um momento de comunhão com a tristeza de toda esta gente. Nada do que é humano Lhe é indiferente. Só isso explica que de facto, tendo a certeza que o vai ressuscitar, aquela comoção das pessoas, o choro de Maria, o choro dos judeus não ficou fora, entrou-Lhe dentro e mexeu com Ele, mexeu profundamente com Ele. Nada de humano Lhe fica indiferente. Tudo aquilo que é diminuição, tristeza, tudo aquilo que é inimigo da vida humana e da alegria, tudo aquilo que o pecado gera nas nossas vidas em termos de sombra, tristeza, morte, tudo isso o ataca a Ele profundamente, Ele quer acabar com isso em nós, Ele quer libertar-nos disso tudo em nós.

É por isso, de facto, que quer que nós participemos dessa Ressurreição que Ele viveu numa manhã de Páscoa e recebamos o mesmo Espírito que chegou até nós, para que nós também participemos da Ressurreição, como explica Paulo.

Jesus é infinitamente humano. Mais humano do que nós, pois nós podemos fazer abstração do sofrimento alheio, nós podemos não querer ligar e não ligar mesmo às coisas que à nossa volta acontecem, a tudo aquilo que há de triste, de injusto, de desumano na nossa sociedade, no nosso mundo. Mas Jesus não, Jesus não fica indiferente a nada disso e dá-Se até ao fundo, dá-Se até ao fim, dá-Se até à morte para acabar com isso.

É esta a nossa fé em Jesus e na Ressurreição e acho que esta página do Evangelho segundo S. João, de facto mostra isso mesmo, (mostra isso mesmo), a Sua vontade de dar tudo; quando é levantado na Cruz Ele diz que a Ele vai atrair todos os seres humanos, vai chamá-los a Ele, tudo aquilo que é sofrimento vai morrer com Ele, ou pode morrer com Ele para Ressuscitar na Páscoa.

Demos graças a Deus por termos um Salvador assim. E ponhamos toda a nossa esperança neste sacrifício d’Ele. É o chefe, foi à frente, abriu-nos as portas, arrombou as portas do inferno, para n’Ele sacar todos aqueles justos que estavam à espera da salvação desde a sua própria morte. Esta é a imagem que a Igreja Oriental dá da Ressurreição: Jesus pisando as portas do inferno e estendendo as mãos a Adão, a Eva, a todos os que os precederam na morte.

Demos Graças a Deus por isso e ponhamos a nossa esperança, de facto, nesse Herói que simpatiza sempre, que tem compaixão por tudo aquilo que nós sofremos, muitas vezes por culpa própria, mas nem sempre, Ele não se interessa muito com isso, estende a mão a todos, a todos sem exceção, todos os homens, todas as mulheres estão dentro do radar desta misericórdia, desta compaixão.

Demos Graças a Deus por isso.

Frei Mateus o.p.

IV DOMINGO DA QUARESMA – 26.03.2017

LEITURA I: Sam. 16, 1b. 6-7. 10-13a

LEITURA II: Ef. 5, 8-14
EVANGELHO: Jo. 9, 1-41

 

Há uma certa semelhança, um certo paralelismo entre esta narrativa e a do Capítulo IV que lemos há oito dias, a história do encontro de Jesus com a Samaritana junto ao poço de Jacob, em que a partir de uma conversa aparentemente banal ela é levada a acreditar que Ele é realmente o Messias e não só acredita como transmite essa sua fé às pessoas da sua cidade. Aqui, na cura do cego de nascença, também há uma caminhada de uma situação muito concreta até à fé em Jesus Cristo como Salvador do Mundo.

Tudo começa por uma pergunta dos Apóstolos, "como é possível que ele seja cego de nascença?”. Eles acreditavam, pois era uma ideia muito espalhada no seu tempo, que as doenças eram como castigos de Deus pelos pecados cometidos. Mas este já tinha nascido cego, portanto quem é que tinha pecado, não ele que já tinha nascido cego, teriam sido os pais? Então não seria muito justo que pelos pecados dos pais sofresse o filho, não é? E Jesus, tal como noutras ocasiões, disse que não tínhamos o direito de atribuir a Deus a causa dessas doenças, dessas enfermidades e deficiências como castigo, não pode dizer-se que tinha essa deficiência porque eventualmente tivesse pecado, foi para que se manifestasse nele a glória de Deus. É esta a perspetiva nova que Jesus impõe, neste caso, tal como numa outra conversa que fala o Evangelho, é a mesma coisa, não haveria, não há motivo para pensar que quando uma pessoa nasce com um defeito ou tem alguma deficiência que isso é castigo de Deus. Isso fica inteiramente de lado e nós deveríamos também por de lado. Mas tudo se passa a partir daí, o homem é cego de nascença e Jesus cura-o. E não só o cura, esse é apenas o primeiro momento da caminhada dele, como depois o leva à fé. Começa a ver, começa a ver como todos nós, mas depois é confrontado com Jesus e Jesus leva-o a acreditar n’Ele como Messias, como Salvador do Mundo.

Nós somos confrontados com Jesus nós também, isto evoca a nossa própria caminhada e esta ideia de que Jesus é a Luz do Mundo e de que através da água se recupera a vida e a luz, tudo isso evoca, evidentemente, o batismo. Estamos a caminho da Páscoa e é na Páscoa de Jesus que fomos batizados, portanto isto evoca o nosso próprio batismo. Vamos ser convidados na Vigília Pascal a renovar as promessas que em nosso nome fizeram, no momento do nosso batismo, portanto de certa maneira, a assumir essas promessas e a comprometermo-nos com Jesus.

Mas Jesus é ao mesmo tempo ocasião da salvação para este homem que se mostra capaz de enfrentar a perseguição e a má vontade de alguns fariseus, (não todos, o Evangelista diz cuidadosamente que eles estavam divididos a respeito deste facto), mas ele é de certa maneira para nós um exemplo na caminhada seguinte. Nós graças a Deus não estamos numa situação de ponto de partida como ele, cego de nascença, mas também temos que fazer uma caminhada, ou refazer, ou atualizar a caminhada feita no sentido de passar da visão natural das coisas para a fé em Jesus Cristo. Talvez se possa dizer que o Senhor o levou à fé, mas antes disso curou-o e daí tirar a ilação de que, de facto, não tenhamos muita pressa em levar à fé sobrenatural as pessoas sem antes lhes ter feito bem, sem antes lhes proporcionar a aquisição daquilo que lhes falta na vida, neste caso era a vista, muitos há que não recebem a luz da fé talvez porque ninguém se aproxima deles na sua miséria, na sua deficiência, nos seus problemas e lhes estende uma mão como Jesus fez com o cego de nascença.

Mas a ideia é clara, Jesus é Aquele que traz a fé e ajuda a ver as coisas com os olhos de Deus, se assim se pode dizer. Na primeira leitura via-se claramente, dizia-se abertamente, Deus não vê os homens como nós, Deus olha ao coração, nós vemos de uma maneira superficial e julgamos também de uma maneira superficial, mas somos chamados pela fé em Jesus Cristo a ver à maneira de Deus, a vermos no fundo de nós mesmos e dos outros, através desta Luz da Fé e da Esperança, qualquer coisa que de outra maneira nos escapa. Jesus é, de facto, o sinal de contradição porque ao mesmo tempo que leva à fé o cego e que para nós também, de certa maneira, é Aquele que está na meta da nossa caminhada, é Ele é o nosso pastor com Ele nada nos faltará, assim também é ocasião para o endurecimento da recusa por parte de alguns fariseus e esse endurecimento na recusa a Jesus Cristo é de facto uma situação de risco terrível para a salvação. Simeão no momento em que o Menino Jesus foi levado ao templo para a sua Apresentação como filho primogénito, disse, predisse a Maria que esse Menino seria sinal de contradição e aqui vemos claramente como é sinal de contradição. Para uns, para o cego, é de facto a luz do Mundo e é n’Ele que se põe a esperança, para outros é ocasião de queda, esperemos que não seja definitiva mas de qualquer maneira é manifesto que n’Ele as opiniões se dividem, n’Ele os campos se extremam e há uma oposição muito clara entre uns e outros.

Nós somos aqueles que acreditamos, estamos aqui porque acreditamos em Jesus Cristo, temos fé n’Ele. Na Sua Páscoa pusemos a nossa esperança. A Sua passagem por este Mundo, o Seu sacrifício, a doação de si mesmo à morte para salvar o Mundo inteiro, n’Ele pomos a nossa esperança. Pode parecer uma loucura aos olhos de toda a gente, mas nós realmente pensamos que dessa morte na Cruz nos vem a Vida e a Luz. E por isso mesmo somos convidados a viver como filhos da luz como dizia a Epístola aos Efésios "Ele é a luz e nós passámos das trevas para a luz”; é-nos proposto portanto que vivamos na prática da bondade e da justiça e da verdade. É bonita esta trilogia bondade, justiça, verdade, é isso que devia nortear as nossas ações e é dessa forma que nós realmente crescemos na Fé e amadurecemos a Esperança. Este tempo da Quaresma é para isso mesmo, é para nós amadurecermos a Esperança e caminharmos na Fé. Nós somos aqueles a quem O Senhor pergunta "Acreditas?” e diz "Já o viste; Sou Eu que falo convosco”, é Ele que nos fala na Igreja, é Ele que através destes meios de transmissão tão limitados que são os ministros da Palavra, é Ele que fala connosco e que nos acorda para a Fé.

Pois bem, façamos deste tempo que nos falta para a Páscoa, uma caminhada séria neste sentido. Visto que somos filhos da Luz, na linha da bondade, da justiça e da verdade e isso vai-nos ajudar a reencontrar a força da Ressurreição do Senhor no coração da nossa vida.

Frei Mateus o.p.

III DOMINGO DA QUARESMA – 19.03.2017

LEITURA I: Ex 17, 3-7

LEITURA II: Rom 5, 1-2. 5-8
EVANGELHO: Jo 4, 5-42

 

Meus Irmãos, Minhas Irmãs

Talvez não seja evidente, mas compreende-se facilmente que haja um certo nexo nas leituras dos Evangelhos da Quaresma. Os Domingos estão construídos de uma forma a nos levarem por uma certa linha lógica e de fé.

No primeiro Domingo tivemos as tentações do Senhor, que esteve no deserto 40 dias e que foi tentado porque teve fome, e esses 40 dias do Senhor no deserto lembram evidentemente a caminhada do Povo Santo do Egipto até à Terra Prometida peregrinando e com muitas dificuldades e muitas revoltas pelo meio dessa caminhada.

No segundo Domingo foi o Domingo da Transfiguração e tentávamos fazer perceber que a Transfiguração vem ao encontro das tentações dos discípulos que seriam tentados a largar a Esperança que tinham posto em Jesus nos acontecimentos da Paixão, postos em cheque pela Paixão do Senhor, pelo Seu sofrimento, muitos fugiram, muitos se afastaram e de facto é a tentação que está ainda presente na caminhada da Igreja. Sim, a Igreja faz uma caminhada nestes dias, que relembra a caminhada do Senhor até à Páscoa e relembra também a caminhada do Povo Santo do Egipto para a Terra Prometida.

Aqui nós encontramos este episódio chamado "da Samaritana” e a ligação que tem com os outros anteriores é também evocar essa caminhada e as dificuldades dessa caminhada. Jesus tem uma conversa muito aberta, muito respeitosa com esta mulher, que não era evidentemente nenhuma figura com grande santidade nem isso interessava, mas foi ela que foi depois apóstola da sua terra, da cidade de Sicar, e trouxe à fé, ao encontro de Jesus muitos dos seus habitantes. Essa conversa muito franca e muito respeitosa, repito, de Jesus com a mulher, ensina coisas muito importantes, ensina que a Água Viva é Ele que a dá a quem a pedir e que essa Água Viva jorra para a Vida Eterna.

O que é a Água Viva? A que é que se faz referência quando se diz que o Senhor dá a Água Viva àqueles que lha pedem? Eu penso que é manifestamente a experiência do Espírito Santo que os discípulos do Senhor fizeram, porque em S. Lucas diz-se a certa altura que "pedi e recebereis”, "batei e abrir-se-á”, "insisti porque se vós que sois maus sabereis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai lhes dará àqueles que lhe pedirem o Espírito Santo”. A expressão em S. Mateus não é exatamente igual "o Pai dará as coisas boas àqueles que lhas pedirem”. Mas as coisas boas são as do Espírito Santo e através do Espírito Santo serão todas as outras coisas boas. Portanto aqui sim o Senhor está a dizer que faz dom aos que n’Ele acreditam e confiadamente Lhe pedem, faz dom do Próprio Espírito Santo. E diz mais, diz que vai chegar a hora em que a relação com Deus muda, não é aquelas velhas dificuldades que havia entre os samaritanos e os judeus, não é perpetuando esses desentendimentos, é ultrapassando tudo isso se entra na caminhada para a Páscoa. Deus quer ser adorado em Espírito porque é Espírito, é Espírito e é Verdade. Eu penso que dizer que Deus quer ser adorado em Espírito todos nós percebemos, é preciso que o nosso espírito seja realmente posto na adoração a Deus e a nossa adoração a Deus não seja só o desempenhar um papel num rito qualquer, é realmente que o nosso espírito se aproxime de Deus e o adore. E em verdade, quer dizer que isso seja de tal maneira verdadeiro que a nossa vida fique diferente, como ficará se da adoração a Deus nós passarmos ao serviço do próximo, ao amor do próximo. Não se pode amar a Deus que não se vê, sem amar o próximo que se vê e precisa de nós, que está à nossa beira. E este ensinamento marca exatamente a nossa caminhada, não só da Quaresma mas de toda a nossa vida, nós devemos viver pela Graça do Espírito Santo adorando a Deus em espírito e praticando a verdade dessa adoração a Deus no amor que temos pelo próximo.

Mas é verdade também que como os outros nossos antepassados, os que caminhavam atrás de Moisés, nós somos tentados a não acreditar muito nisto. Os dons do Senhor são ainda semente de qualquer transformação, nós podemos dizer que já estão connosco mas ainda falta uma grande realização desses dons para que nós os tenhamos na sua verdade mesmo. É por isso que somos tentados.

Mas aqui intervém a palavra de S. Paulo aos Romanos, que era a nossa segunda Leitura: a Esperança não engana. Nós que somos tentados devemos pensar que esta Esperança que temos connosco está certa e a prova disso está exatamente se descobrirmos em nós o Amor de Deus. Paulo fez essa experiência e fala dela muitas vezes nos seus escritos, ele descobriu-se como filho de Deus, ele que tinha um temor reverencial em relação a Deus, marcado por toda a sua formação de fariseu, sentiu-se de repente em casa com o Espírito Santo capaz de falar com Deus como com um Pai, com ternura e com confiança, que para ele foi a prova que a Esperança estava certa. Todos nós podemos fazer isso, todos nós pedimos a Deus que encaminhe os nossos passos, nos dê o Espírito Santo para iluminar a nossa caminhada. Nós podemos passar de uma relação de mero conhecimento a uma relação filial, amorosa, confiante com Deus e essa experiência que fazemos é a prova para nós mesmos que não estamos errados. Isto é verdade, o nosso caminho está certo. Por muito que nos pareça que não há nada à nossa volta que confirme a esperança do povo cristão nós sabemos pelo Espírito Santo que de facto essa Esperança está certa. Esta é, de facto, a resposta à nossa condição de pecadores e de discípulos e todas as dificuldades que temos vêm parar aqui. Sim, as dificuldades que se mantêm, temos dificuldade em acreditar, em permanecer fiéis, em fazer essa tal adoração a Deus em verdade, isto é, no amor do próximo, e isso tudo de certa maneira é contrabalançado com o facto de que o Espírito nos diz que adoramos Deus e isto não vem de nós, vem d’Ele. Temos esta prova connosco, é Paulo quem o diz, não sou eu que estou a inventar.

Acho que a nossa caminhada na Quaresma é uma indicação do que deverá ser a nossa vida de cristãos, da nossa condição de cristãos. Tenhamos a humildade de pedir ao Senhor a Água Viva, que esta Água esteja em nós como, de facto, jorrando para a Vida Eterna, levando-nos até à Vida Eterna; muito mais do que o povo no deserto que bebeu da água que saía do rochedo, assim somos nós que bebemos da Água Viva que o Senhor derrama para nós e desde o nosso batismo habita o nosso coração. E pode ser recuperada, pois se cortarmos a relação com Deus podemos sempre arrependermo-nos e, passando pelo sacramento da penitência, recuperar essa filiação. É por isso que esta linguagem de Jesus, ou esta conversa muito fértil e muito profunda com a Samaritana é para nós, de facto, uma luz, ilumina a nossa vida de cristãos, de discípulos.

Não só para a Quaresma mas para tudo o mais, nós somos aqueles em que o Espírito está vivo e nos conduz à vida eterna. E isso, por muitas dificuldades que se tenha, não desaparece. Temos o testemunho dos Santos que nos fala disso mesmo, não é pelas minhas palavras ou de outro qualquer celebrante, é o testemunho dos Santos que nos diz que de facto nós temos razões para acreditar, temos razões para ter Esperança, está connosco o Espírito Santo que nos foi derramado por uma água no nosso coração que nos ensina que Deus nos ama e que nos ama ao ponto de ter morrido por nós em Cristo, apesar de sermos pecadores. É isso que Paulo diz e é isso que de facto muda tudo se formos capazes de acolher com fé estas verdades.

Peçamos ao Senhor com fidelidade e respeito (nós também) que tenha pena da nossa miséria e que nos dê a Água Viva. Que esta Água Viva seja para nós aquela que nos há-de conduzir até à vinda de Deus.

 Frei Mateus o.p.

II DOMINGO DA QUARESMA – 12.03.2017

LEITURA I: Gen 12, 1-4a

LEITURA II: 2 Tim 1, 8b-10
EVANGELHO: Mt 17, 1-9

 

Meus Irmãos, Minhas Irmãs

Na primeira leitura de hoje tirada do Livro do Génesis, nós encontramo-nos com o início da vocação de Abraão, nosso pai. Não é por acaso que se diz de Jesus que era filho de David e filho de Abraão. Com Abraão começa a grande aventura, digamos assim, da fé, Deus pediu a Abraão que saísse, saísse da sua terra, da sua família, da sua cultura e fosse para uma terra que lhe havia de dar. O que é certo é que Abraão obedeceu e o resto da sua vida foi toda ela uma caminhada pela Terra Santa, mas nunca se instalou, nunca chegou à tal terra que lhe tinham prometido, andou por ela mas não se fixou. Aliás a Epístola aos Hebreus, refletindo sobre a figura do nosso pai Abraão diz exatamente que ele buscava uma terra que não existe neste mundo, existe apenas fora deste mundo, é ao fim e ao cabo a Terra dos justos, é a habitação de Deus com os homens, é o Céu.

Abraão é uma figura exemplar para todos nós, viveu à procura daquilo que não se encontra, aqui hoje, e foi digno de ser chamado amigo de Deus ou, se preferirem, preferiu ser chamado aquele de quem Deus era amigo. É bom que a gente realmente tenha consciência da aventura que isto representa e que significou no mundo das religiões qualquer coisa de imensamente inovador, a busca de qualquer coisa que está para lá deste mundo, enquanto as religiões glorificavam coisas deste mundo, as forças que se encontram neste mundo, as belezas que se encontram neste mundo, Abraão aprendeu desta forma a pôr os olhos para lá deste mundo.

Esta caminhada que nós tentamos de certa maneira assumir na caminhada da Quaresma, e durante toda a nossa vida, esta caminhada tem muitas dificuldades com certeza e o Senhor sabia isso quando andava com os Seus apóstolos e osvia tão frágeis, tão fracos, não compreendendo as coisas de Deus e sentiu que eles precisavam de levar uma espécie de injecção de optimismo, de fé, para poderem aguentar o imenso choque da Paixão e da morte. E por isso os levou a três deles, os que estavam mais perto d’Ele mesmo, os dois filhos de Zebedeu e Pedro, os levou a um alto monte onde se realizou esta transfiguração. A transfiguração é um momento absolutamente excecional na vida humana do Senhor, nesse momento a Sua humanidade transparece na glória de Deus, daí o brilho e a luz que eles encontram em Jesus, que os enche de alegria, eles realmente experimentam ali qualquer coisa de divino. Por isso Pedro, sem saber o que dizia, Pedro quer fazer três tendas o que é realmente uma proposta fora de propósito, três tendas para as três figuras, Jesus glorificado, Moisés e Elias, faziam-lhes três tendas e ficavam eles de fora, não faz muito sentido, mas estava como que possuído de qualquer coisa que ultrapassava a sua inteligência e exprimiu-se dessa maneira e assim se compreende. Depois de tudo isso vem a voz do Pai, aquela nuvem que tinha acompanhado o povo de Deus na saída do Egipto para a Terra Prometida, essa nuvem apareceu e da nuvem vem a voz do Pai dizendo, identificando Jesus "Este ó Meu Filho muito amado, n’Ele pus toda a minha complacência. Escutai-O”.

De facto, temos aqui assim uma manifestação de Deus marcada pela misericórdia. Foi a pena que o Senhor tinha dos seus discípulos e do sofrimento por que eles iriam passar com a Paixão e para que eles resistissem e fossem fortes que fez isto acontecer: para que na sua memória ficasse marcada esta manifestação de glória para que a destruição da Sua vida humana não os pusesse de facto fora da Esperança, longe da Esperança. É curioso pensar que numa das Epístolas de S. Pedro (que nós temos na Sagrada Escritura), ele relembra isto, relembra esta transformação do Senhor no Monte Santo, como ele diz. Foi isso, por que eles não se fossem abaixo, por que eles não perdessem a esperança, não desesperassem ao ver Jesus a ser preso e torturado e ostensivamente repelido pela multidão que exigiu a Sua crucificação, para que eles aguentassem tudo isso que seria muito difícil. E possivelmente podemos dizer, que ao longo da nossa caminhada também haverá momentos em que a fé nos parece impensável e o seguimento do Senhor mais difícil do que deveria ser.

Como Paulo escreve a Timóteo, ele exorta-o a manter-se fiel apoiado pela força de Deus, porque Deus nos salvou rumo à santidade: tudo isto apareceu em Cristo Jesus nosso salvador, destruiu a morte, fez brilhar a vida e a imortalidade, aqui há possivelmente uma alusão à Transfiguração, embora Paulo não esteja incluído no grupo dos apóstolos que viram Jesus transfigurado, mas talvez tivesse ouvido falar disso. Jesus destruiu a morte e fez brilhar a vida e a imortalidade.

Meus Irmãos, a Transfiguração é portanto uma manifestação de ternura e de cuidado por nós, pela nossa fragilidade, pelas nossas dificuldades. Foi para aqueles três que assistiram e nós temos que pensar que o Senhor tem esse cuidado com todos nós de certa maneira. Há com certeza na nossa vida momentos em que as coisas se tornam claras e fáceis e que as dúvidas e as hesitações desaparecem porque o Senhor veio até nós. E como com um amigo, nos retirou do desespero ou da dificuldade, através da comunhão dos Santos, através do auxílio que todos nós podemos prestar uns aos outros, através da prática das obras de misericórdia, aqueles que as praticam têm uma experiência de Deus e isso significa que ficam mais firmes na sua fé, mais perto daquele brilho e daquela vida do Senhor Cristo Jesus, Salvador. É isso que a Transfiguração promete-nos uma glória para o futuro, mas de certa maneira está presente esporadicamente na nossa existência de uma forma ou outra. Vivida na caridade fraterna pode ser exatamente o que nos torna mais fácil a rampa que temos que subir, que nos torna mais fácil a vida em constante peregrinação pela Terra à procura de uma cidade que nela não existe, nos torna mais fácil também acreditar, contra toda a evidência às vezes, que o Senhor realmente nos ama e nos ajuda. Nós temos essa obrigação de ser luz para os outros, ajuda, e ajuda neste caminho e nesta dificuldade que é o caminhar nestas circunstâncias.

Que o Senhor nos ajude a todos nós, alimentados pelo Seu Pão e pelo Seu Vinho, pelo Seu Corpo e Sangue, alimentados portanto pelo Seu sacrifício, que o Senhor nos ajude a todos nós a ser uns para os outros ocasião de transfiguração, de robustecer a nossa fé. Nós devíamos ser isso e não escandalizar ninguém. Temos o horror de tornar difícil a fé a alguém. Temos que ter a preocupação de sermos verdadeiramente apoio e ajuda a todos na amizade de Deus.

Vamos pedir que a Eucaristia nos leve aí, a sermos realmente também nós apoio, muleta se quiserem, àqueles que caminham connosco.

Frei Mateus o.p.

I DOMINGO DA QUARESMA – 06.03.2017

LEITURA I: Gen. 2, 7-9 – 3, 1-7

LEITURA II: Rom. 5, 12-19
EVANGELHO: Mt. 4, 1-11

 

Meus Irmãos

Esta associação, se assim se pode dizer, esta aproximação da tentação a Jesus pode fazer confusão, pensar que Jesus que era Deus foi tentado poderá ser mal compreendida por algumas pessoas, ou até nem ser aceite. Ele era verdadeiramente homem e a tentação faz parte da condição humana, faz parte da condição humana como consequência inevitável da liberdade de escolha de que nós somos dotados, esta liberdade que está connosco e que em princípio deve amadurecer com o nosso crescimento, com a maturidade.

É bom também termos presente o contexto em que isto se passa. Jesus foi já batizado no Rio Jordão por João Baptista, mas ainda não iniciou a Sua ação profética, não está a cumprir ainda a missão que lhe está confiada e que recebeu de uma forma muito pública, muito clara, no momento do batismo, o Espírito desceu sobre Ele e foi reconhecido por João Baptista como o Messias diante do povo ali reunido. Não está ainda a realizar-se a obra do Messias e prepara-se para ela, como é normal. Debate-se no seu espírito com as várias possíveis maneiras de fazer e é sobretudo quanto à maneira de fazer que o Senhor se interroga, porque relativamente ao objetivo na Sua fidelidade ao plano de Deus não há hesitações. Portanto é sobre a maneira de fazer que o Senhor se interroga e é a esse respeito que nós encontramos a tentação, Ele é tentado a utilizar os poderes de que está investido em proveito próprio "transformando as pedras em pão” e resiste a essa tentação que o demónio lhe apresenta com a afirmação "nem só de pão vive o homem”, há valores mais altos, uma alimentação mais profunda e mais séria que essa do pão, que é ouvir e acolher a palavra de Deus.

Depois há a rejeição da tentação de fazer de Deus alguma coisa que se utiliza, um instrumento da glória própria como se se atirasse visivelmente do pináculo do templo e fosse agarrado antes de se magoar nas pedras cá em baixo estaria a criar uma falsa fama, uma glória sem fundamento, sem interesse e sobretudo estaria a provocar Deus a servi-lo a ele, Deus o Pai, e isso Jesus recusa, recusa porque de facto não vai instrumentalizar, passe a expressão, a presença de Deus no Seu coração, na Sua vida, nos seus propósitos.

E por último é exatamente a glória de todos os reinos da Terra que Lhe era oferecida se fosse capaz de adorar o tentador e aí Jesus muito claramente diz "a adoração é só para Deus”.

Nós vemos nesta maneira de fazer as coisas a determinação de um caminho, um caminho feito de passos humildes, é uma opção por um apostolado marcado pelos meios pobres, constrói-se aqui uma maneira de estar com os homens e de os ajudar na salvação por meios muito pobres e de uma radicalidade de opção pelo Reino que vai até à morte.

O diabo é vencido nesta altura, mas vai voltar à carga, segundo S. Lucas é ele que está por detrás da tentação de Jesus no horto, a agonia do horto, é o momento em que Ele também se debate com a possibilidade de fazer de outra maneira e até pede que aquele cálice, isto é que aquele sofrimento para o qual avança e que se avezinha, que esse sofrimento lhe seja retirado, mas que se faça a vontade do Pai e não a Sua.

Aliás é ainda a respeito das maneiras de fazer que nós lembramos aquela passagem, aquele momento em que Pedro censura Jesus por estar a falar de ser atraiçoado, entregue aos sumos-sacerdotes e aos escribas que O hão-de condenar e há-de sofrer muito na mão dos pagãos e há-de morrer para ressuscitar ao 3º dia. Pedro repudia totalmente esta maneira de fazer e Jesus diz-lhe "tira-te da Minha frente, és um estorvo satanás, não tens o pensamento de Deus mas dos homens”.

A tentação foi sempre a propósito da maneira de fazer e Jesus manteve-se fiel, com muito sofrimento (na agonia no horto vê-se isso de forma muito clara, muito direta), com muito sofrimento avançou para esse sofrimento, para essa morte, com uma coragem nunca desmentida.

É bom que nós compreendamos que esta opção de Jesus é uma opção de certa maneira constitutiva do Seu agrado legado. Ele deixou-nos isto, Ele disse-nos através dos escritos dos Apóstolos, do testemunho da Igreja, que era assim que a Igreja deveria continuar e testemunhar d’Ele, de forma humilde, pobre, pondo acima de tudo o interesse de Deus, não procurando glórias falsas e passageiras para si mesma, não utilizando os meios do poder, da riqueza, para convencer os homens da Salvação. Nem sempre foi assim na já longa história da Igreja, houve períodos em que, de certa maneira, ela se serviu do seu poder e da sua glória para convencer as pessoas a aderirem a Jesus Cristo. Mas não é isso que está certo. Isso é, aliás, uma tentação constante. A Igreja está assegurada para se manter fiel ao nível da transmissão da mensagem, o Espírito Santo evita que a Igreja caia na traição à Sua mensagem. Mas também tem que ser fiel à maneira de apresentar essa mensagem, muitas vezes a tentação é exatamente servir-se dos meios demasiado humanos do poder, da riqueza, da influência, do prestígio, para passar a mensagem e não foi assim que Jesus fez. Jesus Cristo realmente passou a mensagem de uma maneira perfeita, despojado sem se por acima da mensagem, sem querer de certa maneira servir-se dela para qualquer vantagem pessoal. Isto é, penso eu, bom para nós pensarmos um bocado na Igreja que somos, na Igreja que deveríamos ser, uma Igreja serva, pobre, como alguns já escreveram, nem mais serva nem mais pobre que o Senhor, Aquele a quem nós devemos a obediência do seguimento e da obediência da fé.

Neste princípio da Quaresma pensemos nisto, o nosso caminho para a Páscoa também ele deverá estar marcado pela escolha dos meios pobres, dos passos humilde, sem procurar ser melhor que os outros, ou parecer o que não somos, mas seguindo Jesus Cristo. Assim é que Ele se tornou o princípio de uma nova humanidade, assim é que Ele se tornou a cura do mal que habita na humanidade desde o pecado do primeiro par através do pecado, e se tornou a Salvação para todos nós. No fundo quando se busca a eficácia perde-se, mas quando se busca a verdade deste testemunho alcança-se a eficácia da Salvação em Jesus Cristo, quem perde a sua vida por causa do Evangelho, ou por causa de Jesus, ganha-a, mas quem quer preservar a sua vida do sofrimento, da dificuldade, etc., acaba por se perder no meandro da falsidade.

Neste princípio da Quaresma devemos pensar nisto, nós somos os discípulos d’Aquele que recusou toda a vantagem pessoal, nós somos os discípulos d’Aquele que por fidelidade ao mandamento e missão que o Pai lhe tinha entregue, sofreu até à morte e não podemos ultrapassar isso senão identificando-nos verdadeiramente com Ele, porque aí sim, aí nasce a vida, é no sofrimento, na Cruz propriamente dita, que nasce a vida nova para a humanidade. N’Ele pomos a nossa esperança.

Frei Mateus o.p.

VIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – 26.02.2017

LEITURA I: Is 49, 14-15

LEITURA II: 1 Cor 4, 1-5
EVANGELHO: Mt 6, 24-34

 

Este texto (Evangelho) é tirado também ele do Sermão da Montanha, que é aquele discurso que S. Mateus organizou com os ensinamentos de Jesus sobre a maneira de viver dos seus discípulos. Encontramos coisas muito surpreendentes nesse discurso, as Bem-aventuranças, o amor aos inimigos, o dar a outra face… Todas essas coisas nos parecem à primeira vista pouco realistas há uma certa dose de irrealismo em tudo isto, como também nesta afirmação de que não nos deveríamos preocupar com o que fazemos, como arranjar de comer, de vestir e etc. Mas este irrealismo, é bom que se perceba, tem uma razão de ser, já ouvimos a propósito das outras afirmações do Sermão da Montanha e essa razão de ser tem a ver diretamente com a fé em Cristo e o Evangelho que Ele pregou. Essa razão é que de facto o que o Senhor nos pede não é a irresponsabilidade nem o desleixo, digamos assim, não, nós estamos responsáveis pela nossa vida e temos que a preparar e muitas vezes não é só pela nossa vida, é pela vida do agregado familiar de que somos responsáveis, temos que preparar as coisas para um certo futuro. Mas quem vive angustiado com aquilo que pode acontecer, que pensa a curto e a longo prazo e isso serve para andar angustiado, pois esse realmente não está a perceber aquilo que o Senhor nos pede aqui. O Senhor pede-nos que, sem deixarmos de nos preocupar com os bens deste mundo, antepúnhamos a esses bens e à sua procura a busca do Reino de Deus. O nosso primeiro desejo, a prioridade a nível do desejo que motiva a nossa ação e o nosso trabalho, deve ser o Reino de Deus e a Sua justiça, o resto vem por acréscimo.

Eu penso que, se nos lembrarmos por exemplo, da fábula da formiga e da cigarra, nós não temos aqui assim um convite a pormos de lado a atitude da formiga para sermos como cigarras tontas que não preparam o futuro, mas o futuro que nós devemos preparar é o futuro em Deus, é para lá que nós caminhamos e por isso é bom que os nossos passos de hoje e de amanhã sejam bem orientados para esse encontro com a felicidade, a plena felicidade em Deus e nós estamos, ao nível dos bens deste mundo, muito preocupados com o que poderá acontecer depois de amanhã. A cada dia basta a sua inquietação. Aquilo a que o Senhor nos convida é uma atitude de confiança em Deus, uma confiança que tem o seu fundamento na atitude que Deus tem para connosco e que nos é revelada através da Sua Palavra, muito especialmente através do Evangelho, mas também através dos profetas.

A Palavra do Senhor que ouvíamos na primeira leitura e consta no Livro de Isaías, é bem esclarecedora, Deus ama-nos com um amor maternal, sim maternal, nós estamos mais habituados a ver em Deus um Pai, é chamando-Lhe Pai que muitos de nós rezamos a oração que o Senhor nos transmitiu, mas Ele ama-nos realmente com amor entranhado à maneira de uma mãe que não pode esquecer o Seu Filho, aquele que amamenta e não pode ter senão compaixão do filho das suas entranhas. E mesmo que uma mãe se possa esquecer "Eu não te esquecerei”. É isso, Deus não se esquece ou como cantávamos no versículo do Salmo Responsorial, "Deus tem-nos gravados na palma das mãos”, há qualquer coisa de físico, por isso é que eu dizia de entranhado, no amor que Deus tem por nós porque é a própria natureza de Deus. Essa é de facto a razão, a motivação, desta nossa atitude de não despreocupação completa, mas de dar a prioridade à relação com Deus e se o fizermos tudo o mais nos será dado por acréscimo. Isto parece uma afirmação vazia de sentido, "tudo nos será dado por acréscimo”, mas há muita gente, que eu tenha conhecido, há muita gente que experimenta a possibilidade de isto ser verdade, que dá do que tem a quem de repente bate à porta e precisa e que fica sem nada para si, pois aparece qualquer coisa para si no dia seguinte. Já ouvi testemunhos nessa linha perfeitamente fidedignos e das pessoas que às vezes menos esperaria. Não, se realmente cumpre aquilo que é próprio do Reino que é a capacidade de ir ao encontro do necessitado e de fazer o bem a todo aquele que precisa, esse descobre o que é muito verdade, "Deus cuida dos seus”.

Mas nós, nós não somos chamados a esta liberdade e a esta alegria senão porque é o sentido que a nossa vida toma se dermos a prioridade a Deus, se dermos a prioridade a esse tal Amor Maternal entranhado de Deus por cada um de nós. Aí encontraremos a liberdade e a alegria como dizia, e aí perceberemos que, de facto, a mensagem de Deus é uma Boa Nova, o Evangelho é de facto uma boa notícia.

Eu sei, todos nós sabemos ao fim e ao cabo, que a descoberta de que alguém nos ama é uma coisa que mexe muito profundamente com a nossa alma, com o nosso sentir da vida, é uma experiência muito poderosa, a descoberta de que alguém nos ama e isso é exactamente o que nós somos convidados a fazer. Se Deus nos ama, se nós acreditamos que realmente somos amados por Deus desta maneira, então realmente somos capazes de viver felizes e contentes, sem estarmos acabrunhados e esmagados pela preocupação com o que vai acontecer. É claro que não podemos ser imprevidentes, mas também não podemos estar esmagados pela inquietação com o futuro.

O futuro a Deus pertence e Deus é aquela Mãe Eterna e muito atenta que não se esquece de maneira nenhuma de seus filhos.

 

Frei Mateus o.p.

VII DOMINGO DO TEMPO COMUM – 19.02.2017

LEITURA I: Lev. 19, 1-2. 17-18

LEITURA II: 1 Cor. 3, 16-23
EVANGELHO: Mt. 5, 38-48

 

Esta última frase do trecho do Sermão da Montanha, "sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”, não pode deixar de levantar algumas interrogações, como é? Como é que se pode ser perfeito como Deus? Mas esta expressão é no fundo a reprodução daquilo que ouvíamos na primeira leitura tirada do Livro do Levítico, do 4º Livro da Bíblia, que era "sede santos porque Eu, vosso Deus, sou Santo”. Deus é Santo e pede-nos que sejamos santos também, não que sejamos tão santos como Ele, não é disso que se trata, não é uma questão de quantidade, é uma questão de qualidade, nós temos de entrar no mundo de Deus, temos que aproximarmo-nos da Sua maneira (digamos humanamente) de pensar e de fazer as coisas porque é esse o nosso futuro, nós vamos ser feitos ou refeitos transformados na linha daquilo que Deus é no Seu mistério mais profundo. Como diziam os Padres da Igreja, Deus fez-se homem para fazer que os homens sejam deuses, sejam deificados e nesse sentido, talvez seja fácil dizer que este "sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” é capaz de estar, pelo contexto, melhor traduzido em S. Lucas do que aqui em S. Mateus, o lugar paralelo em S. Lucas diz "sede misericordiosos como o vosso Pai do Céu é misericordioso”, porque o contexto é esse, "faz chover sobre justos e injustos, faz nascer o sol sobre bons e maus”, quer dizer é o fazer bem a todos indiscriminadamente, fazer o bem sem aceção das pessoas, ser misericordioso, é isso que a expressão quer dizer. Nesse sentido já percebemos um pouco mais, embora seja um enorme desafio tentar ser misericordioso com a mesma largueza com a mesma abertura com a mesma profundidade com que Deus o era, não fazer acessão de pessoas, é não escolher os nossos amigos em detrimento dos que nos aborrecem.

E isto está de certa maneira presente na primeira parte deste trecho do Sermão da Montanha em que Jesus opõe ao cumprimento da lei de Talião, "olho por olho, dente por dente”, uma outra maneira de atuar que, realmente a ultrapassa completamente. Quando se cita "olho por olho, dente por dente” está-se a limitar a vingança, é já uma introdução de um certo limite da vingança, porque havia com certeza muita gente que pensava que se eles matam um dos nossos, nós vamos lá e matamo-los a todos, se eles nos prejudicam em qualquer coisa, nós podemos dar cabo deles e eliminá-los, passar a aldeia deles ao fogo. Havia um bocado esta ideia de que a vingança deveria ser radical e exemplar e muito maior do que a ofensa primeira, pois bem, aqui o Senhor a esse limite que é já de certa maneira uma imposição de justiça, a esse limite da lei de Talião o Senhor opõe uma outra maneira de fazer "não resistais ao homem mau” e depois aparece esta frase muito conhecida "se alguém te bater na face direita oferece também a esquerda” ou " se alguém te quiser roubar a túnica, dai-lhe também o manto” ou "se alguém te desafiar para uma milha, anda duas com ele”, quer dizer, ir muito mais longe do que aquilo que nos é exigido e depois "dá a quem te pedir, não voltes as costas a quem te pede emprestado”. Por isso o Senhor diz "Amai os vossos inimigos” e neste contexto, compreende-se que realmente exprime tudo, não é? Responder ao mal que nos fazem com o bem, é isso que está a ser aqui dito. Amai os vossos inimigos não é ter simpatia por eles, gostar deles, isso não é o que o Senhor nos pede e não faria sentido nenhum que fosse, amar é fazer o bem como a parábola do Bom Samaritano nos mostrou. Amar é fazer o bem, portanto o que o Senhor nos pede é que àqueles que nos fazem mal nós não respondamos com o mal, nem mesmo dentro dos limites da lei de Talião, não, pede que nós respondamos com o bem, lhes façamos bem. No fundo fazemos bem a toda a gente, mesmo aos nossos inimigos, quando estiver na situação de precisar de nós e de podermos, nós não deveríamos recuar e dizer "não, a esse não, ainda me lembro, não me esqueci”. Em resumo, fazer o bem a toda a gente, mesmo aos nossos inimigos.

Paulo, numa passagem da Epístola aos Romanos vai dizer que se nós fizermos isso, se nós respondermos ao mal que nos fizeram com o bem, estamos como que a amontoar brasas acesas por de cima da cabeça dele, isso realmente deve incomodar profundamente aquele que nos fez mal e sabe que nos fez mal se nós respondermos fazendo o bem.

Mas nem sempre as pessoas serão capazes de ter esse rebate de consciência e dizer: afinal eu portei-me tão mal com ele e ele agora está a fazer-me este favor, está-me a salvar-me desta situação.

Por isso, isto parece uma loucura, aquilo que o Senhor nos diz no Sermão da Montanha a começar logo nas Bem-aventuranças é de facto uma aparente insensatez e na 1ª Epístola aos Coríntios essa nossa segunda leitura nós vemos exatamente isso, isto parece louco isto parece um disparate não é? "Não tenham ilusões, se alguém de entre vós se julga sábio aos olhos do mundo, faça-se louco”, o caminho do Evangelho é uma aparente loucura, mas não uma loucura, é a verdadeira sabedoria porque nós somos templo do Espírito Santo, o Espírito Santo está em nós inclina-nos esclarece-nos e ilumina a nossa consciência neste sentido de fazer o bem a todas as pessoas. Se nós fizéssemos realmente o bem a todas as pessoas, todos nós, todos nós que nos reclamamos de Cristo, isso haveria de causar um impacto muito diferente daquele que causa a presença das comunidades cristãs.

Eu penso que esta ideia de fazer o bem, não há dúvida nenhuma que foi um grande motor da transformação social gerado pelo cristianismo. O cristianismo não trouxe consigo nenhuma condenação da escravatura, nunca protestou contra a situação tão inferiorizada das mulheres na sociedade do seu tempo, mas o facto de ter dito que nada disso tinha interesse, que o que contava em Cristo é que eramos todos iguais, todos iguais em dignidade, o próprio Paulo também o disse muito claramente, "Em Cristo não há nem homem nem mulher, não há grego nem judeu, nem senhor nem escravo, somos todos iguais em Cristo” - isso deve ter mexido com o coração das pessoas e deve ter sido o que lentamente, através da consciência, levou à transformação de certas relações sociais, melhorou as situações sociais nesse aspeto. Portanto esta aparente loucura que é o Evangelho é a grande sabedoria de Deus e isso significa que nós não temos que nos pautar pela maneira de pensar e maneira de fazer dos outros, como ele diz de uma forma muito clara "não devemos gloriarmo-nos nos homens, eu sou deste grupo, eu sou daquele, tenho como mestre fulano ou sicrano, não, estamos acima de tudo isso, não temos que nos submeter nem aos homens nem aos seus critérios, nós estamos acima de tudo isso, por que "tudo é nosso, o mundo, a vida, a morte, as coisas presentes, as coisas futuras, tudo é nosso, mas nós somos de Cristo e Cristo é de Deus”. E essa enorme liberdade está garantida exatamente pela submissão na fé, no amor a Cristo e por Cristo a Deus. É um grande programa, muito vasto e que nós acabamos de tentar perceber melhor como é que isto na prática se faz, mas, de qualquer maneira, é esta a proposta que o Senhor faz aos Seus discípulos, a todos sem exclusão.

É por isso que o Evangelho é sempre uma Boa Nova, é sempre Bom e Novo. Estas coisas não estão gastas, permanecem ainda como um grande desafio e confortam a alma porque de facto aqui abre-se-nos um caminho, não esqueçamos, é um caminho a trilhar com a ajuda do Espírito Santo que nos esclareça, que nos dá força, e por isso nós agradecemos que o Senhor ilumina de facto, com a Sua Palavra a nossa vida toda.

Frei Mateus o.p.

VI DOMINGO DO TEMPO COMUM – 12.02.2017

LEITURA I: Sir. 15, 16-21 (15-20)

LEITURA II: 1 Cor. 2, 6-10
EVANGELHO: Mt. 5, 17-37

 

Esta é a 3ª leitura que fazemos do Sermão da Montanha (e ainda haverá mais, pelo menos mais uma) e de facto é perturbante nalgumas coisas que foram descritas ou que estão relatadas. Tem a ver com as Bem-Aventuranças, com certeza, tem a ver com a afirmação central do trecho que foi lido no Domingo passado de que nós os discípulos somos como o Sal da Terra e a Luz do Mundo.

Aqui fala-se sobretudo de mandamentos, aliás o tema é introduzido pela 1ª leitura tirada do Ben-Sirá em que se fala dos Mandamentos como qualquer coisa que está ao nosso alcance, que nos interpela exatamente que nós somos capazes de cumprir e não nos obriga de maneira nenhuma a fazer o mal, não, é uma opção, temos possibilidade de escolher o bem como temos a possibilidade de escolher o mal. Vamos pedir essa possibilidade esteja em nós e é muito precisa neste confronto com o texto do Sermão da Montanha que vos li. Deus não mandou a ninguém fazer o mal, não deu a ninguém a licença de cometer o pecado, mas pôs diante de nós as hipóteses de bem e de mal para que nós os escolhamos como devemos escolher.

Vamos de novo para o Evangelho, estas afirmações exigem uma explicação. Por exemplo o Senhor diz "Eu não vim revogar a Lei ou os Profetas, mas completar…” diz esta tradução, de facto o que o Senhor diz é que dá pleno cumprimento e de facto a referencia aos Profetas leva-nos a perceber que não se trata propriamente de mandamentos e preceitos enquanto tais, é a tradição, é aquilo que vem de Moisés com tudo o que isso significa, há mandamentos, há profecias, há toda a herança religiosa que chega até aos dias de Jesus e que Ele respeitou como os Seus Pais respeitaram quando Ele era criança. Mas aí de facto o Senhor diz que Ele não veio pôr isso de lado, vem dar todo o sentido, Paulo afirma isso a propósito daqueles seus compatriotas que não quiseram converter-se a Jesus Cristo, Paulo diz exatamente que eles têm como que um véu, não lhes permite ler o Antigo Testamento como ele é, e só quando se convertem a Cristo é que conseguem perceber. É isso, o Senhor não veio completar no sentido de juntar mais coisas ao que já estava mandado pela Lei de Moisés, não, o Senhor vem dar pleno cumprimento e pleno sentido àquilo que estava dito. De facto revogou muita coisa. Se nós lermos com atenção a Epístola aos Hebreus vemos que tudo o que se liga ao Templo, ao sacerdócio, ao culto do Antigo Testamento, tudo isso foi revogado radicalmente e é curioso pensar que, com a exceção de uma pequena minoria, os judeus dos nossos dias não têm a mínima pretensão de restaurar o templo e de voltar a exercer o culto como estava mandado, não. Tudo isso foi realmente ultrapassado porque o culto perfeito, o sacrifício definitivo, foi Jesus Cristo quem o realizou oferecendo-se a Si mesmo até à morte por todos nós.

O Senhor além disso diz ainda outras coisas para mostrar como a justiça dos seus discípulos tem de ser superior à dos fariseus e dos escribas, e nesse sentido enuncio várias antinomias; diz por exemplo: "Não matarás, foi dito não matarás, mas Eu digo-vos mesmo mais, não deves permitir que a ira se instale no teu coração”. É que para o Senhor é necessário que não só as acções exteriores estejam corretas, é necessário que também o coração seja purificado, seja libertado do mal; o mal está no fundo, está no coração como Ele explicou numa outra passagem e não são as coisas exteriores que nos fazem impuros, são as coisas que nós realizamos a partir do nosso coração e que são más, essas é que nos tornam impuros. E isso a propósito das várias coisas como é essa da ira e depois também a propósito do adultério, não é preciso praticar o adultério para se ser adultero, basta olhar com desejo, desejar praticar o adultério, já é praticar o adultério, o coração é que comanda todas estas coisas. Mas há outras ainda mais difíceis de perceber, esta do olho, aliás o que lá vem é o olho direito, "se o olho direito, for para ti ocasião de pecado, arranca-o e deita-o fora” e a mão direita, tirar a mão direita porque ela é ocasião de pecado, para nós não faz sentido nenhum e não deve ser entendido à letra, é evidente! Muitas vezes porque nós não as devemos entender à letra, estas afirmações assim mais estranhas de Jesus, pensamos que não têm sentido, não são para nós, mas são, o Senhor está aqui a dizer nesta forma imaginada (arrancar o olho, arrancar a mão), que a Sua exigência é muito radical, tão radical como seria o arrancar do olho ou arrancar a mão. Não é que Ele nos peça isso, não, mas pede-nos uma radicalidade na opção por Ele que leve a ser conduzido verdadeiramente pelo Espírito de Deus e isso é o que o Senhor diz nestas comparações. Será que nós damos uma atenção séria a estes pedidos, a estas exortações do Senhor, se a nossa justiça tem que ser superior à dos escribas e fariseus (que eram sérios, os fariseus eram pessoas sérias, cumpriam com muitas coisas, que não têm grande sentido, mas cumpriam-nas muito a sério e achavam esquisito que os discípulos de Jesus não cumprissem).

Nós não temos realmente uma leitura verdadeira do Sermão da Montanha se não pensarmos que o Senhor introduziu uma radicalidade e uma interioridade no nosso cumprimento da Lei de Deus e que doutra forma não somos verdadeiramente Seus discípulos. Dizer que a nossa linguagem seja Sim ou Não e o Sim é mesmo Sim e o Não é mesmo Não e mais nada, que o resto vem do maligno, então tudo o que se escreveu, tudo o que se disse em Concilio Ecuménicos desde a aurora da Igreja até aos nossos dias, todo o trabalho dos Padres da Igreja, todo o trabalho dos grandes teólogos, tudo isso vem do maligno? Não, mas tem que haver uma limpidez de linguagem tal como se fosse só permitido dizer sim ou não e mais nada.

E o juramento, "não jureis”, chegou-se ao ponto de, na Idade Média, conhecer os hereges obrigando-os a jurar e eles que levavam o Evangelho à letra, recusavam-se a jurar e isso era a maneira da Inquisição de os identificar. Não, não se trata de levar isto à letra, mas é preciso levar isto a sério, levar isto a sério. E como é que nós vamos levar isto a sério? Já na Oração da Missa e na Segunda Leitura se fala da sabedoria de Deus. Na oração da Missa fala-se que o Senhor quer habitar em nossos corações e aqui na Segunda Leitura, tirada da Epístola de S. Paulo aos Coríntios, fala-se exatamente de uma sabedoria escondida aos olhos do mundo, oculta e escondida, que o mundo não foi capaz de descobrir nem de conhecer, mas que o Senhor preparou para nós e dela fez-nos dom. É o Espírito Santo que nos ajuda a perceber estas coisas e a praticá-las. É o Espírito Santo de Deus que é a Sua sabedoria e que é, de certa maneira, o princípio da nossa salvação se nós formos fiéis às suas inspirações, se nós entendermos as coisas como Ele nos ensina e se as praticarmos, claro, então sim, então realmente somos discípulos de Jesus. De outra maneira podemos discutir muito estes pormenores mas de facto o que interessa é darmos uma atenção séria a esta exigência de uma vida nova porque renascemos no batismo e o Espírito habita em nós para nos guiar. Não podemos queixar-nos de sermos lançados no confronto terrível para o qual não tenhamos possibilidades, não, somos lançados realmente para um grande desafio, mas temos em nós quem nos ajude, quem nos ilumine, quem nos dê coragem e quem nos dê a sabedoria que nos permitirá vencer as dificuldades.

Peçamos ao Senhor o que já pedimos na Oração, que o Senhor realmente nos faça viver de tal maneira que sejamos verdadeiramente morada de Deus. Deus habite em nós e transforme a nossa vida e faça nascer em nós a liberdade, a alegria, a paz. É isso que o Senhor pretende de cada um de nós nesta vida para depois nos dar o Céu, a participação plena na Sua grandeza, na Sua beleza, na Sua Verdade.

Frei Mateus o.p.

V DOMINGO DO TEMPO COMUM – 05.02.2017

LEITURA I: Is 58, 7-10

LEITURA II: 1 Cor 2, 1-5
EVANGELHO: Mt 5, 13-16

Paulo relembra na segunda leitura o momento da conversão de alguns coríntios à fé em Jesus Cristo e como isso foi, de facto, muito diferente daquilo que se poderia imaginar numa cidade grega: não foi nem com grandes dotes de oratória nem com a explanação de uma sabedoria até aí ignorada, foi de facto, sem méritos pessoais do Apóstolo, uma manifestação do poder do Espírito Santo que levou à fé em Jesus Cristo, Cristo crucificado. Não foi dos méritos de Paulo que decorreu essa conversão, foi da acção do Espírito Santo. Na semana passada nós ouvíamos um outro aspeto da mesma verdade, que era Paulo a lembrar aos coríntios que não havia grandes vedetas entre eles, que não havia ninguém muito sábio, nem muito forte, nem bem-nascido, mas que tinha sido de facto a ralé do mundo que Deus tinha escolhido em Corinto, para levar à fé os outros corintos. Era a fraqueza que iria rebater a força, era o que não prestava, o que não existia, que iria convencer os que estavam convencidos de si mesmos.

A conversão portanto é um ato de Deus que não depende das obras humanas, nem do pregador, nem das pessoas que se convertem. Não são as nossas ações que precedem a conversão que justificam essa conversão. Mas isso não tira que após a adesão a Jesus Cristo a nossa vida tenha que ser fecunda e é este ensinamento do Sermão da Montanha, o bocadinho a seguir às Bem-Aventuranças, que elucida isso: nós somos em Cristo sal da terra e luz do mundo. Nós, temos muitas vezes a tentação de ouvir estas palavras e pensamos que não somos nós, são os outros, cristãos especiais, os membros da hierarquia, os consagrados, mas não, Jesus disse-o a todos os discípulos. O Sermão da Montanha é posto por S. Mateus exactamente como qualquer coisa dirigida a todos os discípulos. Somos nós que somos a luz do mundo e o sal da terra, somos nós que somos os responsáveis para que o mundo tenha sabor e alegria (o sal dá valor às coisas que se comem) e também que haja luz neste mundo e a profecia de Isaías, que ouvimos como primeira leitura de hoje, diz-nos quais são essas boas obras que devemos fazer para que a nossa luz brilhe diante dos homens e depois os homens glorifiquem ao Pai que está nos Céus, "Reparte o teu pão com o faminto, dá pousada aos pobres sem abrigo, leva roupa aos que não têm que vestir, não voltes as costas ao teu semelhante. Então a tua luz despontará como a aurora, …” etc.

Há portanto aqui um convite a pormos de lado a tentação tão frequente entre nós, de culparmos os outros, o mundo, a má sorte, pelas nossas desgraças, "não tive sorte”, "não aconteceu isto”, "não tive aquele apoio que precisava”, o mundo e os outros são maus e por isso é que eu faço coisas más. Nós somos responsáveis pela transformação deste mundo que é mau, nós somos aqueles que vamos dar sabor às coisas e iluminar com a Luz de Cristo esta mesma existência que pode ser criticada.

Em Cristo nós somos dotados de uma fecundidade especial, Ele mesmo disse, "sem Mim nada podeis fazer”, mas também disse que "Eu sou o tronco da vide, vós sois os ramos”. Esta vida que está n’Ele vai fortificar em boas obras. E isso pode transformar a vida à nossa volta, é o mistério da comunhão dos Santos, aquilo que cada um de nós faz ajuda toda a comunidade e ajuda até aqueles que ainda não fazem parte da comunidade cristã ainda não estão em Cristo, a descobrir o mistério e a fecundidade desta presença de Deus em nós. De certeza, para além de todas as explorações mediáticas, o contacto direto com uma mulher como foi a Madre Teresa de Calcutá, pesa muito e mexe muito com as pessoas. Houve um grande jornalista inglês que fazia profissão de ateísmo que foi conhecer a Madre Teresa e depois veio de lá diferente, até escreveu um livro que se chamava "Uma coisa bela para Deus” (fazemos da nossa vida uma coisa bela para Deus) e converteu-se. Não sei explicar nem ele, mas de facto encontrou na Madre Teresa uma luz, um sabor, o sal ao fim e ao cabo, a sua vida ganhou outro sentido. E isto é apenas um exemplo que me veio agora à memória, mas de facto é através do testemunho, da caridade fraterna, do não voltar as costas ao próximo, é através de tudo isso que as pessoas podem ter uma perceção d’Aquele que habita em nossos corações e que guia os nossos passos. E nós não podemos mais se não, tentar ser fiéis ao longo da vida a esse enorme poder de transformar o mundo, que passa por nós sem que nós o mereçamos, são os dons das nossas mãos vazias que realmente ajudam e transformam o mundo à nossa volta. E nós comunicamos uma alegria que às vezes até nem sentimos e uma sabedoria que nos ultrapassa, mas vem com certeza do Espírito Santo que nos une em Cristo com o Seu sacrifício, a fecundidade do sacrifício de Cristo, a fecundidade do dom de Cristo à salvação do mundo está presente na Igreja, está presente em nós, em cada um de nós, e pode realmente fazer alguma coisa à nossa volta.

É bom que nós nos deixemos interpelar por este desafio. Afinal porque é que andamos sempre a queixar dos outros, que são isto, aquilo e aqueloutro, quando está na nossa mão fazermos alguma coisa por eles e se fizermos alguma coisa por eles nós próprios é que acabamos por beneficiar desse bem que fizermos. Cristo está de facto em nós, todos nós estamos em Cristo a receber a força e a sabedoria e o dinamismo da Sua salvação operada no sacrifício da Cruz. E isso é qualquer coisa que está destinada a toda a gente e passa por nós, pelas nossas iniciativas, pela nossa maneira de estarmos no mundo, chega ao coração das pessoas. É bom que tenhamos isto presente, no meio deste mundo nós deveríamos ser de facto tochas acesas em que se pudesse ver a bondade de Deus para que glorifiquem o nosso Pai que está nos Céus, como o Senhor diz aos Seus discípulos nesta passagem do Evangelho.

É uma grande responsabilidade, mas é uma grande alegria ao mesmo tempo. A vida não é inútil, para o que mais interessa as nossas vidas não são inúteis, nós podemos realmente fazer a diferença. Mas não nos vangloriemos disso, não vem realmente de nós, não vem, passa por nós e se tivermos consciência disso devemos agradecer.

Sejamos portanto fiéis a este dom que recebemos no baptismo, está connosco, este dom que é o dom perfeito, é o Espírito Santo, e sejamos capazes de realmente obedecer às Suas interpelações, às Suas sugestões e levar uma vida que possa ser para nós, mas sobretudo para os outros em primeiro lugar, qualquer coisa de saboroso e iluminativo.

Frei Mateus o.p.

IV DOMINGO DO TEMPO COMUM – 29.01.2017

 

LEITURA I: Sof. 2, 3; 3, 12-13

LEITURA II: 1 Cor. 1, 26-31
EVANGELHO: Mt. 5, 1-12a

 

Esta proclamação das Bem-Aventuranças necessita, creio eu, de um certo contexto. No Domingo passado nós não lemos o Evangelho segundo S. Mateus na ordem que está prescrita, porque celebrámos a Festa do Diácono e Mártir S. Vicente, mas se tivéssemos lido teríamos encontrado o início da ação pública de Jesus. Depois de João Baptista ter sido preso, Jesus foi para a Galileia e começou a proclamar o Evangelho do Reino. Que quer isso dizer? Ele começou a anunciar a Boa Nova de que o Reino de Deus estava perto, que as pessoas se podiam converter e entrar n’Ele, como quem diz, o Reino está ao vosso alcance, é a altura de tomar uma decisão e, ao mesmo tempo que fazia isso, ele curava e libertava de doenças e de aflições dos demónios, todos aqueles que vinham ter com Ele. Assim mostrava que o Reino estava realmente perto, estava a acontecer, pois essas curas, essas libertações do mal eram a prova de que o Reino estava ali perto.

Acontece que muita gente veio ter com Ele de muitos lados, nessa parte do Evangelho segundo S. Mateus diz-se mesmo "o povo que andava nas trevas, viu uma grande luz”, é isso, Deus manifestou-se em Jesus Cristo como uma grande luz, uma luz de esperança e muita gente veio ter com Jesus para ser curado ou porque tinha sido curado ou na esperança de ver qualquer coisa de extraordinário e realmente voltaram para Ele o seu desejo e a sua esperança e a essas grandes multidões Jesus começou a ensiná-las. Passa portanto de um certo tipo de Palavra, o anúncio do Evangelho, o anúncio da Boa Nova, para outro tipo de Palavra mais do género de catequese e começou a falar e a explicar aos discípulos as coisas. S. Mateus reunião em cinco grandes discursos os ensinamentos de Jesus e o primeiro deles é o chamado "Sermão da Montanha” e a primeira peça do "Sermão da Montanha” são as "Bem-Aventuranças”, é por isso que as "Bem-Aventuranças” aparecem aqui como aquilo que Jesus diz em primeiro lugar às multidões que se interessaram por Ele, que vieram ter com Ele, que buscam n’Ele uma salvação.

As "Bem-Aventuranças” são muito curiosas, é bom que nós tenhamos uma perceção tão exata quanto possível do que elas representam. Muitos de nós não nos sentimos tocados e interpelados pelas "Bem-Aventuranças”, temos a sensação que isso é só para certas almas divinas. Mas Jesus disse isto às multidões, Jesus proclamou as "Bem-Aventuranças” às multidões e embora seja muito diferente da versão de S. Lucas (em relação às "Bem- Aventuranças”) não há dúvida nenhuma que Jesus não disse isto em especial a um grupinho excluído, não, disse-o em público.

Eu penso que assim como as pessoas se voltaram para Jesus, com um movimento de alegria e de esperança, assim também Jesus olhou para elas com amor e com respeito, talvez se possa dizer que Jesus viu nelas aquilo a que o Profeta Sofonias se refere na nossa primeira leitura de hoje, "os humildes da terra, aqueles que obedecem aos mandamentos do Senhor, procurai a justiça, procurai a humildade e talvez encontrareis proteção no dia da ira do Senhor”, (o dia da ira do Senhor é afinal o dia da misericórdia do Senhor), "só deixarei ficar no meio de ti um povo pobre e humilde…" quem era este povo pobre e humilde que o Senhor via diante de Si e que alegrou o Seu coração. Portanto declarou (as "Bem-Aventuranças” são declarações), declarou este estado de espírito que Ele via na multidão e mostrou-lhes qual era a sequência, qual era o resultado dessa maneira de estar na vida. As Bem-Aventuranças portanto não são propriamente uma exortação ou uma exigência, ainda menos, são uma declaração e eu penso que é uma declaração de constatação, Jesus vê os pobres em espírito diante de Si e o que Ele diz em cada uma das Bem-Aventuranças é isto, estas pessoas são felizes, são bem-aventuradas e estão no caminho de atingir a felicidade total, o Reino, por isso se diz a propósito de cada uma das situações, deles é o Reino dos Céus, ou serão consolados, ou possuíram a Terra (mas a Terra prometida que não é desta terra), os que têm fome e sede de justiça alcançarão e serão saciados, os que choram serão consolados; então é exatamente aquilo que Jesus nos está a dizer é que a felicidade que Ele reconhece no fundo destas pessoas, vai atingir o seu ponto máximo com a Sua entrada no Reino. Essas pessoas são pessoas que, ou em relação ao próximo, ou em relação a Deus, ou em relação a si mesmas, estão numa atitude que é uma porta aberta para acolher e entregar-se no Reino de Deus.

São os mansos, os que não praticam a violência, poem de lado a violência e isso é um sinal de que acabarão por ser trucidados, espezinhados por aqueles que se acotovelam para chegar ao primeiro lugar. Mansos são também aqueles que têm diante das desgraças do próximo, que são capazes de viver e sofrer essa desgraça, são os misericordiosos, ao fim e ao cabo. São também aqueles que fazem, constroem a justiça neste mundo tão injusto, tão desumano, são capazes de construir qualquer coisa de positivo, constroem a Paz.

Relativamente a Deus temos a Bem-Aventurança da pobreza. Quer dizer, aquela liberdade que se encontra em figuras extraordinárias, como por exemplo S. Francisco de Assis, a liberdade de ser pobre e isso lhe trazer uma grande proximidade em relação a Deus. A gente não sabe muito bem se é a proximidade em relação a Deus que liberta da preocupação da riqueza se é pelo contrário uma certa predisposição a não ligar muita importância aos bens deste mundo que abre o coração a Deus. Mas as duas coisas vão juntas, é uma liberdade que se traduz numa aproximação confiante em Deus.

Mas é preciso também uma dose de desejo que está aqui expressa de maneira muito clara, a fome e sede de justiça, não a justiça deste mundo, não é os tribunais a funcionarem bem (também é importante, claro), mas é daquela justiça de que fala a Bíblia: Deus é Aquele que promove a justiça, faz justiça ao povo, é essa justiça que os bem-aventurados pretendem alcançar. E às vezes pode dizer-se que essa maneira de desejar a Deus torna muito difícil viver neste mundo, porque é uma capacidade de ver que todas as propostas, todos os bens deste mundo, são insuficientes para o nosso coração. Santo Agostinho viveu isso muito profundamente e até há aquela frase célebre, que "Deus nos fez para Ele e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Deus”. São os que choram, são aqueles que em tudo veem limites, que os há, e têm uma certa propensão para ver mais o que falta do que tudo aquilo que já está e portanto são pessoas que vivem o tormento de não estar na felicidade perpétua, viver muito pela negativa, mas eles que choram e que se inquietam e que inquietam a sociedade toda com a sua reclamação, eles são de facto também bem-aventurados, estão a caminho da salvação.

Deixei para o fim a outra Bem-Aventurança que é a dos puros de coração. Como sabem, na Bíblia o coração não é a fonte dos afetos, o coração é o órgão do pensamento, da retidão do pensamento é o que está aqui proposto, puros de coração são aqueles que pensam retamente, não misturam o mal com o bem, a verdade com a mentira. Na profecia de Sofonias diz-se claramente, "o resto de Israel não tornará a dizer mentiras”. E aqui, talvez em contraste se perceba melhor, temos de certa maneira o enfado, a crítica, o alarme que Jesus tem diante da hipocrisia dos fariseus, são aqueles que veem o mal dos outros e não o seu, são aqueles que não são retos, não se assumem no seu pecado na sua limitação e portanto mentem-se a si mesmos e querem mentir a toda a gente, vestem-se de santidade e isso é não ter um coração realmente reto e puro. Essa atitude é de facto contrária ao caminho para o Reino de Deus.

Dizia eu que não é propriamente uma exortação nem propriamente uma exigência (muito menos uma exigência), é de facto uma declaração que esclarece este povo que vem ao encontro de Jesus e confirma aquilo que eles são no melhor de si mesmos para que caminhem nessa linha, se são pobres vivam verdadeiramente essa pobreza, vivam verdadeiramente a misericórdia, vivam verdadeiramente a construção da paz e avancem nessa linha, realizem-se cada vez mais nessa linha, porque deles é o Reino dos Céus.

É importante pensar isto como realmente um introito às catequeses de Jesus. Podemos dizer que o "Sermão da Montanha” é todo ele reunido em torno da ideia do que é ser discípulo de Jesus. Aqueles que vieram até Ele e aceitaram a Sua Palavra, pois devem viver de uma maneira diferente, devem viver de uma maneira que respeite valores, os valores do Reino e não propriamente fazer do cumprimento das leis exteriores, dos ritualismos, não, nada disso: é toda uma revolução, se assim se pode dizer. O que na Verdade aquilo que o Senhor nos propõe hoje é muito diferente daquilo que instintivamente as pessoas procuram, isto é, opõe-se em profundidade àquilo que podemos chamar a mentalidade dominante, mesmo nos países como o nosso com uma tradição cristã, as Bem-Aventuranças parecem escandalosas e, como quem diz, impossíveis de praticar, isto é só para certas pessoas muito especiais, não, não é, isto é o caminho do seguimento de Jesus, isto é a verdade do caminho do seguimento de Jesus e teremos todos nós a oportunidade de realizar qualquer coisa disto na nossa vida, não tenhamos dúvidas. O Senhor não nos pede a nós que sejamos exemplos perfeitos de todas as Bem-Aventuranças, os grandes santos são exemplo de uma bem-aventurança ou de outra, não é? Falei há bocado de S. Francisco de Assis para a bem-aventurança da pobreza, também falei de Santo Agostinho para a bem-aventurança dos que choram pela ansia da perfeição total em Deus, poderia falar de muitos outros que amam, que querem construir a paz e que são laços de aproximação e de colaboração na sociedade e no mundo em que vivem.

S. Domingos era sem dúvida nenhuma um grande exemplo de misericórdia e aquilo que mexia com ele e o levava a chorar inclusivamente, era a desgraça dos pecadores. Cada um de nós tem que escolher a sua bem-aventurança e realizá-la é um bom programa, mas sobretudo deve pensar que isto não é para os outros, é para cada um de nós. Ser seguidor de Jesus, ser discípulo, implica tudo isto. Ele é de facto o modelo de todas elas, foi pobre, foi manso, foi apaixonado pela justiça do Pai, Ele foi misericordioso como ninguém, construiu a Paz, Ele é a nossa Paz.

Este desafio aqui vos fica. A vida cristã para ser levada sério não pode passar muito ao lado das Bem-Aventuranças e muito menos pensar que é com cumprimento exterior de regras e ritualismos que nós somos discípulos do Senhor, não, a primeira coisa talvez seja exatamente assumir com retidão aquilo que nos falta e reconhecer os nossos limites e voltar-nos para Aquele que é capaz de os curar, que é Jesus Cristo evidentemente.

Frei Mateus o.p.

 

 

III DOMINGO DO TEMPO COMUM – Solenidade de S. Vicente – 22.01.2017

LEITURA I: Ben-Sirá 51,8-17

LEITURA II: 2ª Cor. 1,3-7
EVANGELHO: Jo. 12, 24-26

 

Disse no início da celebração que hoje celebramos a festa, a Solenidade, do diácono S. Vicente mártir, porque ele é o padroeiro da Igreja de Lisboa e solenidade, sobrepõe-se à celebração de Domingo.

Portanto, S. Vicente, diácono da Igreja de Saragoça, foi martirizado na perseguição de Diocleciano, talvez a última, se não estou em erro, grande perseguição antes da paz entre o Império Romano e os Cristãos no tempo do Imperador Constantino. Foi uma grande perseguição esta porque se espalhou a quase todas as áreas do Império Romano, não foi apenas local, (às vezes havia perseguições dessas que apenas se realizaram numa determinada parte do Império), esta parece que foi por todo o lado e por isso houve muitos mártires. Um dele bastante célebre foi exactamente este diácono da Igreja de Saragoça. Foi torturado e constava que falou durante a tortura com uma voz muito clara e serena aos seus algozes a ponto de parecer que era uma pessoa a que era torturada e outra a que falava. Santo Agostinho que celebrou a festa do diácono Vicente e pregou um sermão sobre ele que chegou até nós, diz nesse sermão que esta ideia de que parecia que era um a falar e outro a ser torturado até era verdade, porque o Senhor diz no Evangelho "que quando fordes perseguidos não vos preocupeis com o que haveis de dizer, o Espírito Santo vos dirá e falará por vós”, portanto era o Espírito Santo que falava e não propriamente o diácono. Mas é claro era porque o diácono tinha dado a sua voz e o seu ser, todo ele, ao Espírito que o animava. Isto mostra de facto que no tempo de Santo Agostinho já se celebrava a festa, na África Cristã pois ela espalhou-se muito rapidamente, um século depois já esta festa era celebrada em toda a parte. Quanto ao resto da história, grandes interrogações vêm ao espírito, é que o seu corpo tinha vindo parar à costa sul de Portugal no extremo ocidental, ao cabo que hoje se chama Cabo de S. Vicente e daí tinha vindo, reconhecido como sendo o corpo do Santo, teria vindo para Lisboa e daí a devoção a S. Vicente cresceu aqui em Lisboa por causa disso. Essa parte de o corpo dar à costa ali e terem identificado milagrosamente que era S. Vicente, essa parte não tenho certezas, mas ficamos por aqui. Ele foi mártir, isso não há a mínima dúvida, e foi mártir com uma grande constância, uma grande firmeza, na altura da perseguição terrível que assolou a Igreja toda.

Aquilo que nós admiramos nos mártires, muitas vezes aparece descrito na Liturgia da Igreja como sendo uma vitória: os mártires são apresentados como vencedores. Ora de facto faz um bocado de espécie pensar que essas pessoas cuja vida é truncada, contra a vontade deles que são destruídos fisicamente e morrem, sejam vencedores, dá impressão que aqueles que os perseguem é que vencem. Mas esses que os perseguem querem obrigá-los a afastar-se da fé, querem forçá-los a pôr de lado a sua fé em Jesus Cristo e não conseguem, e nesse sentido são eles que são derrotados. Os mártires mantêm-se fiéis à sua fé até à morte, dão a sua vida por Jesus Cristo, portanto não são vergados (digamos assim) pelo poder dos torturadores e dos carrascos, não, são eles que permanecem fiéis através dos tormentos terríveis e parece que realmente são eles que vencem afinal de contas; e isso é a razão de ser desta maneira de falar dos mártires na Igreja como vencedores, a vitória sobre a perseguição, etc.

Chamo a vossa atenção para a oração coleta da missa que li há pouco a seguir ao Glória, a qual nos diz que a fonte desta felicidade e desta coragem tem sentido. Foi o seu amor a Jesus Cristo e entre eles, e foi aí que encontraram a coragem e a fidelidade para não se dobrar à vontade dos seus perseguidores. Amavam Jesus Cristo e não eram capazes portanto de renunciar publicamente a Ele, de o atraiçoar, se assim se pode dizer, através de uma apostasia, negaram-se a isso, permaneceram fiéis e foram realmente vencedores nesse aspeto.

Acho muito importante pensarmos nisso. Eles são para nós um grande exemplo. No meio das dificuldades, das tribulações, eles encontraram aquilo que lhes está prometido, encontraram a força que o Espírito Santo representa e é, e essa força traduz-se no amor a Jesus Cristo. É um grande exemplo para nós. Nós teríamos que pensar nisso através das nossas vidas. Nas nossas vidas também há tribulações, também há problemas, também há dificuldades, mas deveríamos ser capazes de passar através de tudo isso seguros de que Deus nos ama e que queremos mantermo-nos na presença desse amor por nós. O amor de Deus por nós é que nos dá a coragem de amarmos a Jesus Cristo até onde for preciso, nestes casos até dar a vida. Nós também pudemos dar a vida, uma vida, vamos lá, sem nada de extraordinário, sem perseguições abertas, mas através da fidelidade no dia-a-dia, no quotidiano da nossa insistência, somos chamados a dar um testemunho da alegria de acreditarmos, um testemunho de esperarmos um mundo de fraternidade e de amizade, de justiça no meio de nós e que o Senhor realmente brilhe através do nosso testemunho para que os outros descubram a razão de ser da nossa esperança.

Com esta imagem no coração, do amor de Cristo ser a força dos mártires, peçamos que o Senhor realmente nos ajude a termos esse amor para lá de todas as dificuldades

Frei Mateus o.p.

II DOMINGO DO TEMPO COMUM – 15.01.2017

LEITURA I: Is. 49, 3. 5-6

LEITURA II: 1 Cor. 1, 1-3
EVANGELHO: Jo. 1, 29-34

 

Este encontro de João Baptista com Jesus (este encontro reciproco, visto que Jesus encontra-se com João Baptista também, claro) foi o momento mais alto da vida de João. Ele tinha vindo, obedecendo à voz do Espírito tinha vindo do deserto para o Jordão, tinha iniciado um movimento penitencial, o baptismo em água, e sabia que esse movimento era necessário para preparar o caminho ao Outro que havia de vir e que embora viesse depois passava à frente porque era mais que ele. Foi portanto a realização de tudo aquilo que ele sabia, ou adivinhava, para que ele se inclinava desde sempre, desde que tinha consciência da sua missão própria no mundo. Ele encontrou-se com aquilo que vinha fazer, identificou Jesus como o Cordeiro de Deus, o Filho de Deus. E encontrou nisso, com certeza, uma grande alegria, ele próprio disse que a sua grande alegria estava em ele desaparecer, dar lugar a Jesus. Jesus prestou-lhe uma grande homenagem também, quando disse aos Seus discípulos que não havia ninguém maior que João Baptista nascido de mulher.

Um grande momento de verdade, ele identifica Jesus, apresenta-O à multidão que ali estava que assistia ao baptismo e de certa maneira encontra-se consigo mesmo na grande verdade, Jesus é de facto o Cordeiro que tira o pecado do mundo e que santifica os Seus fiéis, que santifica o próprio mundo, Ele é o salvador do mundo. É isso que João diz à sua maneira "Ele vem batizar no Espírito Santo”.

A Igreja teve consciência de que uma grande novidade tinha acontecido com João Baptista, o perdão. Tinha acontecido, introduzida por João Baptista mas que realizada em Jesus. Tinha consciência disso e por isso mesmo havia uma linguagem que falava dos discípulos como sendo santos (ouvimos isso à pouco no inicio da Epístola de S. Paulo aos Coríntios: Paulo dirige a carta aos que foram santificados, chamados à santidade, são os cristãos); os que receberam o baptismo do Espírito são santificados e são chamados à santidade. Esta santificação está connosco e deverá produzir os seus frutos de santidade a nosso favor. É ela que nos encaminha para o Senhor, para Deus e é isso mesmo que nos guia é a luz dos nossos passos, portanto há aqui uma grande verdade relativamente a todo o mundo e muito especialmente àqueles que reconhecem Jesus Cristo, os que evocam em qualquer lugar o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso.

De facto nós fomos santificados no Batismo e nós somos chamados à santidade. A santidade não é fazer milagres, se fizerem tudo bem ninguém se vai opor a isso, mas não é isso que conta, é dar prioridade na nossa vida ao Espírito Santo, à inclinação que o Espírito Santo nos dá para fazermos o bem e construirmos a paz, de realmente fazer avançar a salvação de Deus no meio em que vivemos, salvação que é para todos os seres humanos e que o Senhor põe nas nossas mãos, nós é que vamos dar testemunho disso, nós é que vamos realizar isso como testemunho para que todos acreditem que Jesus é de facto o Cordeiro de Deus, o Filho de Deus.

Esta celebração do II Domingo do Tempo Comum, (praticamente o primeiro, visto que o primeiro Domingo é sempre ligado à Epifania) esta celebração dá-nos uma orientação para todo o ano do Tempo Comum. Nós somos aqueles que fomos santificados e vamos caminhar, à luz do Evangelho, vamos caminhar para a realização desta santidade em nós mesmos e à nossa volta. E a melhor maneira de realizarmos esta vocação à santidade em nós mesmo é, seguramente, pormo-nos ao serviço uns dos outros, esquecendo um bocado o que somos e para o que viemos, e pensarmos naquilo que os outros podem receber de nós em termos de verdade, de autenticidade, de reconhecimento, as pessoas à nossa volta se calhar precisam de ser reconhecidas como pessoas, não como objetos, como coisas, são capazes de precisar que haja alguém que lhes dê atenção, que lhes dê um pouco do seu tempo ou muito, conforme a necessidade e isso é a nossa caminhada para a santidade, é de facto essa atenção aos outros. Como vemos com a figura de João e com a figura de Jesus sobretudo, foi na dedicação total à causa da salvação do mundo que Ele se fez o Cordeiro Pascal, o Cordeiro que tira o pecado do mundo e é n’Ele que de facto nós temos essa vida nova, a vida para Deus, esquecendo o passado do pecado.

Vamos pedir nesta Eucaristia por todos os cristãos, membros da Igreja, porque realmente sejamos mais coerentes com os dons recebidos e desses dons recebidos façamos em primeiro lugar uma festa e um agradecimento sincero, mas também ponhamos isso em prática. Aquilo em que acreditamos e recebemos, somos chamados a vivê-lo e isso é que conta, a nossa capacidade de viver esses dons, a nossa capacidade que é dom do Espírito Santo, nunca o esqueçamos, de viver esses dons. Se nós fossemos ao encontro deste chamamento, se nós nos deixássemos levar por Deus ao encontro da nossa própria vocação de santidade, a nossa vida era diferente e o mundo também, o mundo seria bem diferente. E não pensem que há orgulho em pensar que nós podemos mudar alguma coisa na sorte do mundo, não há, fomos chamados para isso, fomos feitos para isso, não é orgulho nenhum, não vem de nós, é dom, e isso é que é importante reconhecer. Nós somos chamados a fazer qualquer coisa para a salvação do mundo e aí é que nós realizamos a nossa santidade.

Frei Mateus o.p.

DOMINGO DA EPIFANIA – 08.01.2017

LEITURA I: Is 60, 1-6

LEITURA II: Ef 3, 2-3a. 5-6
EVANGELHO: Mt 2, 1-12

 

Estamos a celebrar a festa da Epifania, epifania é uma palavra tirada do grego que significa revelação, e a Epifania é o complemento do Natal. No Natal celebramos o nascimento de Deus feito homem e Ele veio até nós em forma humana pra revelar o próprio Deus e os Seus desígnios e essa revelação é, evidentemente, a Epifania. É por isso que, de certa maneira, nesta festa da Epifania nós encontramos vários atos de revelação da parte de Jesus. Ele revelou-se neste episódio dos Magos que vieram do Oriente e O descobriram em Belém e também se revelou no Baptismo que recebeu de João, quando João Baptista o identificou perante o povo de Israel dizendo, "Este é que é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do Mundo”. Como também Se manifestou, e revelou a glória de Deus, quando fez o primeiro milagre perante os Seus discípulos e foi de facto um momento chave, passou a ser outra coisa a relação d’Ele com os discípulos quando realizou esse primeiro milagre, que sabem muito bem, foi nas bodas de Caná transformando a água em vinho. Tudo isto é Epifania e haverá muitas outras manifestações que são reveladoras de Deus.

A Revelação é um processo longo, lento, que vai percorrer toda a história do Povo Santo, começa com os Patriarcas, os Profetas e vem até Jesus Cristo, culmina em Jesus Cristo. E este culminar tem dois significados, quer dizer, a partir do momento em que Deus está presente em Jesus Cristo não há mais revelações, pelo menos não há mais revelações significativas, as chamadas revelações privadas nada acrescentam ao Evangelho e considera-se que a revelação ficou concluída com a morte dos Apóstolos. E o outro aspeto é que nesta última, derradeira fase, da revelação, ela é dirigida a todos os povos. A universalidade da mensagem está muito presente nestas festas da Epifania. De facto os gentios, os que não são judeus, como dizia Paulo na Epístola aos Efésios que ouviram, eles são herdeiros, tal como o são os judeus, da glória de Deus é isso que é a marca, a abertura a todos os homens, a toda a humanidade, deste Dom de Deus, o Filho, revelação perfeita a revelação total.

Há de facto nesta Festa da Epifania um atingir do máximo, há um grau mais elevado de toda a revelação e torna-se muito claro que em Cristo somos todos nós filhos adotivos de Deus, e herdeiros também, e se somos todos filhos adotivos de Deus, e herdeiros também pela mesma razão somos todos irmãos uns dos outros, irmãs e irmãos e a mensagem tem uma dimensão de fraternidade, de reconciliação, de paz, que os Apóstolos não deixaram de sublinhar fortemente.

Meus irmãos, isto é um bocadinho difícil de considerar, esta mensagem de reconciliação de paz e a alegria que isso traz ao coração dos homens, quando se tem um bocado de experiência humana e estamos relativamente atentos ao que se passa à nossa volta, comparar esta mensagem com aquilo que experimentamos todos os dias através das notícias é de facto um contraste brutal. Nós vivemos num tempo em que raramente acontece passar-se uma semana sem explosões de violência e ódio e aquele projeto de fraternidade, de reconciliação e de paz que gera uma alegria de coração, não parece estar ao nosso alcance. Mas faz parte da mensagem, é realmente elemento fundamental desta mensagem que se reduz a isto: Jesus Cristo é o Filho de Deus e vem realizar e pôr ao nosso alcance a salvação do universo. A salvação implica isso mesmo, não pensemos numa salvação só da alma, só para depois, não, é isso Ele quis de facto um Tempo Messiânico e um Tempo Messiânico seria de reconciliação, de fraternidade. Como é que isto é tão diferente da nossa experiência.

Eu acho que temos que fazer aqui um certo malabarismo e entender as coisas à luz da revelação mesmo. Nós temos em Jesus Cristo a revelação total, mas estamos muito longe dela, ainda estamos muito longe dela. Quem é que se poderá responsabilizar por esta transformação do mundo que se chama salvação? Nós muitas vezes caímos no aspeto negativo da nossa experiência social e cultural, caímos no erro de pensar que são os outros, se todos pensassem como nós estava certo, mas são os outros, os outros não obedecem ao império da verdade, não colhem o dom de Deus, são os outros sempre e portanto o fundamental é que nós não sejamos como eles. Depois há a multiplicação das ideologias dizendo que não, o problema são os ricos que retiram aquilo que é a base necessária da vida humana a tanta gente. Sim porque no intervalo dessas explosões de ódio e violência, temos que constatar, a situação geral é uma situação de opressão, de exploração mesmo. Não é de forma alguma uma situação de fraternidade e de reconhecimento entre as pessoas, há sim umas manifestações, mas não chega a ser nada.

Eu acho que nós temos que ter uma atitude muito verdadeira face a este problema. O Senhor disse-nos a nós que éramos a luz do mundo, no sermão da montanha é uma afirmação clara aos seus discípulos, logo a seguir às bem-aventuranças o Senhor diz "Vós sois o sal da terra, vós sois a luz do mundo” e a luz do mundo é como uma cidade posta no alto dum monte, não pode ser escondida, vós sendo a luz do mundo tendes de ser reconhecido como tais. Se calhar é isso, a mudança não é a mudança de passar de uma ideologia a outra ideologia, todas elas se revelaram incapazes de resolver os problemas dos homens, todos os sistemas propostos no Ocidente se revelaram ineficazes, é preciso realmente uma outra maneira de olhar, uma outra maneira de ver, uma outra maneira de produzir um outro tipo de coração e a gente lembra-se do profeta, o Profeta Ezequiel, a dizer "Vou tirar-vos o coração de pedra e dar-vos um coração de carne” e a mesma ideia aparece quando se diz "Vou por o Meu espírito em vós, conhecereis a Minha Lei” diz o Profeta Jeremias.

Nós temos que aceitar a transformação que o Senhor nos propõe para sermos de facto a luz do mundo. Nós somos os responsáveis pela crise em que mundo vive sempre. A nós foi-nos dado o segredo, um novo coração, uma nova mentalidade, um novo espírito e depois dar testemunho disso, os cristãos e as comunidades cristãs devem dar testemunho do Evangelho que Jesus Cristo veio mostrar. N’Ele a presença da revelação é perfeita e completa, mas depois transmitiu-nos essa responsabilidade. Na Epifania encontramos a raiz do Espírito Missionário da Igreja, nós somos aqueles que temos que ir junto dos outros, anunciar e demonstrar, (anunciar e demonstrar), a verdade da revelação em Jesus Cristo. É isso que a festa nos diz, de certa maneira responsabiliza-nos pela sorte do mundo. Passamos a vida a dizer que são os outros, não, somos nós, (somos nós), de certa forma nós teremos que dar um testemunho que não damos. As comunidades cristãs, os cristãos em geral não são santos, devíamos todos ser santos, no sentido exato da Palavra, devíamos todos ser espelho da graça de Deus que se instalou em Jesus Cristo.

Nós e eles participamos da mesma promessa em Cristo Jesus por meio do Evangelho e isso, participamos desta promessa, ela está em nós como uma promessa de eficácia, de alegria, de fraternidade. Uma das coisas que se opõe dramaticamente a esta influência do Evangelho na sociedade moderna é a divisão dos cristãos, vai começar o oitavário de oração pela unidade visível dos cristãos, andamos nisto a rezar por essa intenção, a falar de ecumenismo, a tentar a perceber melhor as nossas divergências teológicas e, de facto, nada mudou ainda, nada mudou ainda e ainda não houve uma fusão das igrejas numa única Igreja: essa é a vontade de Cristo que rezou pela unidade dos cristãos e a deseja. Não, nós temos que assumir a responsabilidade com alegria, o Senhor está connosco, não é para ficarmos acabrunhados e desfeitos por esta situação do mundo, não, é irmos para a frente com o testemunho. Poderá ser difícil, a palavra grega de testemunho é martírio não é? Poderá ser difícil, mas não há dúvida nenhuma que para ser séria temos que aceitar que nós somos interpelados por este mandato de dar testemunho da revelação, porque não há pessoa humana excluída do projeto de Deus e, se isso é assim, desde já deveríamos ser irmãos uns para os outros de braços abertos a acolhermo-nos, perdoar-nos,  construirmos juntos alguma coisa. Comecemos pelas nossas famílias, pelos lugares onde trabalhamos, comecemos pelo nosso pequenino mundo, darmos aí um testemunho de alegria, de paz e de fraternidade é muito importante, mesmo muito importante.

Vamos rezar por isso mesmo, que a Epifania entre de facto nas nossas perspetivas de cristãos. O Senhor veio, manifestou-se, acreditamos nisso e agora somos nós que O vamos manifestar com verdade e com alegria, porque se a verdade é libertadora não pode deixa de gerar alegria.

Frei Mateus o.p.

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS – 01.01.2017

LEITURA I: Num. 6, 22-27

LEITURA II: Gal. 4, 4-7
EVANGELHO: Lc. 2, 16-21

 

Neste dia 1 de Janeiro, o primeiro do ano civil, nós evocamos a bênção de Deus uns para os outros, esta bênção de que falava a primeira leitura, "O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz”. Esta bênção termina no dom da paz, na menção do dom da paz, o que foi sublinhado isso no cântico responsorial. De facto é um grande desafio nós acreditarmos que Deus nos dá a paz. Onde está essa paz?

Neste mundo tão marcado pela violência, pela estupidez e a brutalidade da violência, em que sem razões válidas, sem motivo quase, se despreza e se liquida a vida humana, como é que nós vamos neste dia 1 dizer que pedimos a paz e acreditamos na paz. Eu penso que há um grande desafio, de facto, à nossa frente, penso que temos que ter a coragem de no seio mesmo da nossa fé em Deus, de acreditar também que a paz há-de vencer o ódio e a violência e que em Deus encontramos uma força de paz que passa através dessa violência mesmo e não é destruída.

É isso que, de certa maneira, está aqui presente na Epístola aos Gálatas. Jesus vem até nós e nasce de uma mulher, nasce sujeito à lei, aliás encontramos essas duas referências no Evangelho ao falar de Maria e de falar da circuncisão do Menino que é um ato de sujeição à lei, Jesus vem até nós e traz-nos a paz. Esta paz é de facto uma semente de paz, "Ele é o príncipe da paz” dizemos nós com a Sagrada Escritura e n’Ele encontramos uma força de paz para o nosso mundo. O desafio é esse, sermos capazes de ser portadores de uma paz em que acreditamos e que não pode ser destruída pela violência e o ódio, portadores e obreiros dessa paz, porque nós não recebemos apenas essa paz, nós acreditamos que somos responsáveis pela criação da paz no mundo, esta paz que resiste, esta paz que não é destruída é aquilo que nós podemos tirar do facto de que somos filhos de Deus, que recebemos o Espírito de Seu Filho e somos filhos adotivos de Deus. Por isso se fazia referência à segunda leitura que tem estes três elementos numa frase muito breve mas cheia de significado.

Somos filhos de Deus e temos que aprender do espírito que está em nós, temos que aprender a construir a paz e a acreditar na paz. Para isso de facto, penso que devíamos aprender com Nossa Senhora, chamamos-Lhe Rainha da Paz também, e de facto Ela é a primeira discípula de Cristo, Seu Filho. Aprendeu com Ele, aliás, o simples facto de O ter acolhido no seu seio e de O dar à luz, já é para Ela uma experiência reveladora do dom de Deus. Acho que quando uma mulher dá à luz descobre no ato mesmo de dar à luz descobre dimensões novas no amor, atinge um estado diferente da experiência do amor. Ela já amava o Senhor antes de Ele nascer claro, mas o facto de O ter depois diante dos olhos e de cuidar d’Ele, dá outra dimensão ao seu amor. E Ela foi de facto a primeira discípula de Jesus, aprendeu muito e talvez nem sempre de uma maneira fácil, aprendeu de Caná ao Calvário o que é ser discípula e para nós é um grande modelo o único perfeito modelo para nós também aprendermos a ser discípulos do Senhor. Ela conservava no seu coração estes episódios todos, refletia e aprofundava-os com amor. E se nós tivermos de facto esse espírito podemos passar através das agruras desta vida sem que à nossa volta as coisas mudem muito, mas com uma confiança que há-de vencer o ódio e a violência, como dizia. Maria ensina-nos isso, certamente não cedeu ao ódio ou ao espírito de vingança, ao medo, à injustiça e crueldade com que Seu Filho foi tratado. Conservou uma esperança contra todo o desespero no momento da morte do Filho e é aí, nessa esperança que nada destrói que nós encontramos uma razão para a paz.

Vamos pedir isso mesmo uns para os outros. No fim da missa vou tentar dar-vos a bênção, está projetada para todo este ano e que do fundo do coração desejamos realmente uns aos outros e é exatamente nesse sentido, sejamos gente de paz. É remar contra a maré é estarmos contra todo este recurso à violência e ao insulto que nos rodeia, mas é de facto aí que a nossa paz se exercita e resiste e com certeza que se todos nós que acreditamos em Jesus fizéssemos isso mesmo, esse finca-pé na paz que recebemos e que está em nós e à qual nós queremos permanecer fiéis ao longo do ano, tenho a impressão que alguma coisa mudaria neste mundo. Pelo menos nós não seríamos levados na onda da violência e da destruição e isso era uma ajuda para o mundo inteiro, nós não sabemos a força que tem uma resistência ativa ao espírito do mundo, mas ele tem de facto muita força porque vem do Espírito de Deus. Maria venceu todas as suas batalhas porque foi pacífica, foi uma fonte de paz, acolheu a paz que lhe vinha de Deus e foi capaz de viver nessa paz e ainda hoje a Igreja recorre a Ela com toda a veemência porque Ela é para nós também a esperança de um mundo em paz.

Frei Mateus o.p.

DIA DE NATAL – MISSA DO DIA – 25.12.2016

LEITURA I: Is. 52, 7-10

LEITURA II: Hebr. 1, 1-6
EVANGELHO: Jo. 1, 1-18

Meus Irmãos, minhas Irmãs,

A grande festa do Natal ultrapassa aquilo que nós podemos perceber deste grande mistério. Celebramos aquilo que honestamente reconhecemos ultrapassa a nossa compreensão, ultrapassa a nossa experiência. É o mistério da encarnação de Deus de que esta passagem do início do Evangelho de S. João fala com muita propriedade e com muita verdade. João diz-nos que o Verbo era a Luz, "N’Ele estava a Vida, a Vida era a Luz dos homens”, S. João Baptista "Veio […] para dar testemunho da luz […]. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz” e depois diz "O Verbo fez-se carne e habitou no meio de nós”.

Esta imagem da luz ajuda-nos talvez a orientar o nosso afeto, orientar a nossa fé no sentido exato. "A Deus nunca ninguém o viu, o Filho Único que está no seio do Pai, Esse é que O deu a conhecer”. Quer dizer que esta luz projetou sobre o mistério de Deus uma força de iluminação que nos faz entender esse mistério de Deus. Em toda a sua vida Jesus foi manifestação do Pai, mesmo no seu nascimento. Há um ensinamento que se pode recolher do nascimento de Jesus, tal como por exemplo S. Lucas o narra, em Belém para cumprimento da ordem de recenseamento vinda do Imperador romano, visto que José era da casa de David, fora de qualquer estalagem, numa manjedoura, numa grande pobreza, mas ao mesmo tempo com manifestações grandes de alegria, que se traduzem muito concretamente no chamamento dos pastores para irem a Belém e encontrarem o Menino deitado numa manjedoura, sua Mãe e através destes sinais vão lá e encontram-No e ficam muito felizes por O terem encontrado.

Jesus nasce numa manjedoura, nasce num estábulo e é deitado numa manjedoura e é esta completa penúria, digamos assim, que é significativa. Não tem nada como nenhum recém-nascido tem, mas em condições mais normais assim que nasce tem tudo, não é? Tem a atenção, tem vestuário, tem alimentação, etc., o Menino Jesus teve de facto as manifestações da ternura de Sua Mãe, da proteção de S. José, com certeza, mas de resto não teve mais nada. Nasceu numa extrema pobreza, não o esqueçamos. E nessa extrema pobreza, nós não vemos tanto essa pobreza como facto de que Ele assim se entregou totalmente nas mãos dos homens, precisa de tudo que lhe façam, como qualquer recém-nascido é dependente de todo o cuidado, de toda a atenção, de todo o carinho daqueles que O acolhem neste Mundo. Assim foi. Quer dizer que a imagem de Deus Pai que Ele transmite através deste tipo de nascimento, é a de um Pai que se entrega, que se dá, que se põe nas nossas mãos, de certa maneira. Não é alguém que está no cume do poder do Mundo e para lá do Mundo que Ele o criou, Ele é alguém que está entre nós na pobreza e na confiança, dando-se. Jesus mostra que Deus faz de Si dom. Jesus ao nascer mostra que Deus é um gesto de confiança em nós. E isso é comovente, é impressionante. A revelação que Jesus dá no seu nascimento do Pai é de alguém que confia em nós, que nos ama.

Como é possível este mistério da encarnação? Como é que é isto? O Todo-poderoso faz-se o mais frágil dos seres humanos e fá-lo com inteira confiança em nós. Dizia (já não sei quem) o Amor tem destas coisas, só o Amor é capaz disto.

Esta luz ilumina também a nossa vida, Ele é para nós a luz que ilumina o nosso caminhar e isso é de tal manira verdadeiro que Ele chegou ao ponto de dizer que era o caminho para nós, o caminho da vida, vida desde já e da vida para sempre na esperança de que depois da morte nós vamos viver então com toda a plenitude e toda a força da Palavra.

Jesus que nos revela o Pai, revela-nos a misericórdia e o perdão. Será talvez abusivo pensar que o Menino que acaba de nascer esteja a revelar todas estas coisas, mas a escolha que foi feita desse modo de nascimento traduz de facto uma opção, a opção de entrar pela "porta baixa”, entrar na pobreza, na dependência mesmo em relação a todos nós. Deus aparece-nos como a figura do carente. É por isso que todos aqueles que são pobres e precisam da nossa ajuda são de certa maneira sacramento de Jesus Cristo, "aquilo que fizeres ao mais pequeno dos Meus irmãos, foi a Mim que o fizeste”.

Pois bem, tudo isto, esta luz sobre o mistério do Pai, esta luz sobre o nosso próprio destino são de facto motivos para nós fazermos deste dia, um dia de alegria e desta época uma época de alegria também. Mas para isso é preciso situarmo-nos na verdade das coisas. Sonhamos muitas coisas esquisitas a respeito dos deuses e de Deus e este mistério do nascimento ajuda-nos a perceber que Deus não é nada disso, há mais verdade n’Aquela criança deitada na manjedoura em Belém, há mais verdade sobre Deus e sobre o homem do que em todas as nossas imaginações, todos os nossos mitos, todas as nossas criações muitas vezes megalómanas. Acho que devíamos ficar de facto um bocado em silêncio a pensar que Ele é para nós essa luz e veio para nós, veio para a nossa salvação e se o acolhermos com o coração e com fé, essa presença d’Ele na nossa vida produz frutos, ilumina-nos também a nós.

Nós que aqui estamos, estamos porque acreditamos nisto (acreditamos nisto). Pois bem, não tenhamos medo de acreditar a sério, a fundo, com todo o nosso ser, pôr a nossa esperança naquele Menino e encararmos a Sua presença no meio de nós com ternura, com agradecimento, com uma profunda gratidão. Alguém, que não é alguém é Deus, fez confiança em nós e entregou-se, a Ele e à Sua vida, nas nossas mãos. O maior Dom possível é esse, foi feito, está connosco.

Demos pois graças a Deus e façamos desses acontecimentos motivo duma festa. Nós dizemos uns aos outros "boas festas”, é preciso que o Natal seja realmente uma festa, seja uma festa porque se nós não somos capazes de reagir festivamente à presença de Deus no meio de nós, à verdade que Ele nos vem trazer sobre nós mesmos, então realmente estamos muito doentes. A festa é essa, é fazer deste momento qualquer coisa no sentido da comunhão fraterna, da reconciliação das famílias, da alegria do reencontro, tudo isso, mas a grande festa é de facto que todos nós sabemos que a partir do nascimento Ele está connosco.

Ponhamos nisso a nossa alegria e aceitemos que esta alegria é uma coisa santa, não é pecaminosa como muitas vezes se pensa, não, não, a alegria é uma coisa santa, a verdadeira alegria vem daqui, vem deste Menino pequeno que veio até nós e que se pôs nas mãos, de certa forma. Entrou confiado a Maria e a José, os quais foram com certeza escolhidos e preparados de longa data como nós sabemos, para esta obra. Mas não foram só eles, muitos outros naquele tempo e em todos os tempos colaboram no acolhimento da luz. A luz não foi recebida, mas houve quem acreditasse e esses que acreditaram tornaram-se filhos de Deus. Como Ele era o Filho de Deus, nós que fazemos d’Ele o nosso caminho também somos Filhos de Deus.

É por isso que com verdade podemos dizer uns aos outros, como eu o faço neste dia e neste momento com muita verdade, com muita sensibilidade, "Boas Festas”, "Boas Festas de Natal”, "Santo Natal para todos” e que isso seja, apesar da nossa idade, também um certo nascimento, para sermos também nós Filhos de Deus.

Frei Mateus o.p.

DIA DE NATAL – MISSA DA MEIA-NOITE – 25.12.2016

LEITURA I: Is. 9, 1-6

LEITURA II: Tito 2, 11-14
EVANGELHO: Lc. 2, 1-14

Minhas Irmãs, Meus Irmãos

Confesso o meu embaraço de retomar ano após ano esta festa e tentar dizer qualquer coisa que nos ajude a vivê-la. Tenho a impressão que quanto menos se disser, mais profundo cala o impacto desta narrativa de S. Lucas. É tudo muito simples, mas o simples escapa-nos também. Há uma criança que nasce em Belém, filho de Maria esposa de José que é da casa de David e nós, como todas as gerações de cristãos, nós reconhecemos nessa criança que nasce nessa altura, reconhecemos Deus feito homem, Deus feito criança, Deus feito bebé.

Acho que nós estamos tão habituados a ver representações desta cena, imaginadas por artistas de todas as idades, estamos tão habituados a isso que, de facto, o texto sugere-nos um espécie de ecran diante dos olhos e nós também vemos o presépio, a criança recém-nascida deitada na manjedoura, a palha, o olhar atento piedoso da Mãe cheia de ternura, a proteção visível de S. José sobre aqueles dois seres, nós vemos tudo isso e também de certa maneira sentimos a alegria que os pastores experimentaram quando lá chegaram, aqui não aparecem só foi anunciado a esses pastores o que tinha acontecido em Belém e eles foram lá.

Diante disto também ouvimos este convite a não ter medo que é a entrar na alegria de Deus, isto dá glória a Deus e isto é o restabelecimento da Paz na terra.

Naquela criança, recém-nascida portanto completamente dependente dos outros, dos Pais, até de certa maneira do estalajadeiro, até mesmo de certa maneira do Imperador de Roma que tinha mandado fazer um recenseamento, completamente à mercê destas influências todas, nós vemos Deus porque é Deus. Mas é um Deus muito especial, porque nós não estamos habituados a ver um Deus que não fala, não sabe falar, que não sabe lutar pelos seus interesses, que está completamente dependente, dependente da atenção, da ternura no amor dos Pais, da compreensão das pessoas à sua volta. É um Deus indefeso, fraco no ponto extremo da fraqueza, é esse que é Deus. E isso diz-nos qualquer coisa, nós pensamos que Deus é o Todo-poderoso, mas entendemo-lo tão mal que para nós esse Deus assim indefeso entregue nas nossas mãos, para o bem e para o mal (foi porque se entregou nas nossas mãos que o puderam matar). Nós não temos muito o hábito de pensar que Deus é assim, mas é a imagem da criança que nasce de Maria, o menino recém-nascido, como diz S. Lucas, é uma imagem autêntica de Deus e as imaginações que nós temos sobre Deus, de um poder arbitrário, superior à nossa compreensão, que nos ameaça e que nos castiga, essa imagem não coincide com isto e não é verdadeira. Deus é esta infinita simplicidade, esta pobreza, esta doação completa. Eu acho que aquilo que nos é pedido hoje é de uma maneira muito especial, sejam quais forem os nossos trajetos, é sermos capazes de em espírito estarmos lá também e em espírito acolhê-Lo com amor e acompanhar José, Maria, os pastores que hão-de aparecer, tudo aquilo que à volta do Menino venha a ocorrer, estar lá de facto numa atitude de acolhimento e de adoração. Ele precisa de nós, da nossa proteção, do nosso amor.

Penso que isto é o mistério da encarnação, um Deus que se faz um de nós, verdadeiramente um de nós, em tudo igual a nós exceto no pecado diz a Bíblia, um mistério que nos ultrapassa completamente e quanto mais explicações se dão mais a gente se afasta da verdade, tenho a impressão. É pura e simplesmente pensar que Deus nos aparece assim, está nas nossas mãos, que é preciso alimentá-Lo, protegê-Lo, lavá-Lo, tudo, é um Deus que se dá. E não é quando se torna mais independente desse apoio exterior que Ele deixa de ser um Dom, não, Ele fica um Dom até à morte e até depois da morte, Ele é de facto um Dom de Deus, um Dom nosso, o Dom da revelação de Deus, o Dom da luz de Deus que vem até nós, Ele é que no-lo deu a conhecer.

É um paradoxo imenso mas é a verdade das coisas, é que a Deus ninguém o viu e foi o Filho que nasceu da Virgem que O deu a conhecer e que o deu a conhecer por toda a sua Vida, portanto que o deu a conhecer na extrema infância.

Vamos pedir ao Deus Menino que nos deixe estar junto d’Ele, que nos deixe estar realmente com afeto, compromisso, com alegria junto d’Ele. Que a nossa vida não seja tão alheia a este mistério e a esta presença inovadora que nós não demos por Ele na nossa existência, não, que Ele nos ajude a vivermos isso mesmo, o Mistério. Eu penso que é isso que nós pedimos a Deus neste dia é que Deus nos ajude a estarmos em Belém no espírito, que o nosso coração fique lá e que de Belém venhamos para a nossa vida e para o nosso empreendimento e para as nossas responsabilidades com alegria, com confiança, porque um Filho nos foi dado, uma criança nos nasceu, a nós, como diz o Profeta.

Peçamos portanto essa Graça d’Ele, que estas coisas sobre as quais é tão difícil elaborar, que estas coisas fiquem connosco como imagens fortes, pois são verdadeiras e nos tocam, para que nós sejamos alterados, como se dizia à bocadinho a cantar, que nós sejamos alterados, mudados, melhorados…

Assim seja.

Frei Mateus, o.p.

IV DOMINGO DO ADVENTO – 18.12.2016

LEITURA I: Is. 7, 10-14

LEITURA II: Rom. 1, 1-7
EVANGELHO: Mt. 1, 18-24

Meus Irmãos, Minhas Irmãs

Por três vezes ouvimos esta profecia de Isaías: na primeira leitura ela aparece, primeira leitura tirada do próprio Livro de Isaías; o versículo do Aleluia é dito o mesmo e depois no sonho que José tem, o Anjo comunica-lhe a mensagem, anuncia-lhe Aquele que vai nascer de Maria é exactamente a realização dessa profecia. Maria é a Virgem que já concebeu e vai dar à luz um filho, será chamado Deus connosco.

Este anúncio que já tinha sido feito a Maria evidentemente, na altura da anunciação, e que será a conceção do Verbo de Deus, este anúncio é dirigido a um homem que estava a pensar coisas muito diferentes. Normalmente um nascimento prepara-se com alegria, mas José estava a encarar uma situação muito difícil; por um lado não queria de forma alguma lesar a reputação da sua noiva, de sua mulher, se a repudiasse publicamente teria que ser por adultério o que era evidentemente difamante, não queria, não queria isso porque era um justo, um homem bom, um homem simples e bom e portanto pensou afastar-se ele e pronto, se houvesse críticas eram mais dirigidas a ele que a ela. Mas o Anjo diz-lhe duas coisas, em primeiro lugar disse uma expressão que vem muito neste tempo do Advento, "não temas, não tenhas medo”, o Anjo já tinha dito isso a Maria "Não tenhas medo”, mais tarde vai dizê-lo aos pastores na noite em que Jesus nasceu "Não tenham medo” (isso é importante para situar a mensagem que se segue e que só se acolhe libertados do medo e, por isso, nós também devíamos dar alguma atenção a esta advertência do Anjo) e depois explica que Aquele que vai nascer d’Ela não é fruto de qualquer tipo de infidelidade, é o cumprimento do projeto de Deus e pede-lhe que receba Esse que vai nascer e ponha-Lhe o nome de Jesus (ao pai competia por o nome ao filho) e o nome Jesus quer dizer isso mesmo, Deus é quem salva. E José com esta advertência mudou a sua maneira de ver as coisas e acolheu Maria e fez exactamente como o Anjo lhe tinha pedido tornou-se a partir deste momento protetor d’Aquele que vai nascer e a partir do nascimento foi mais do que isso, foi o educador, era isso que o pai fazia em relação aos filhos, o educador, o mestre, o amigo, um pai numa palavra.

Uma criança que nasce tem que ser acolhida tem direito a ser acolhida, tem que ser adotada e isso é o que acontece com Jesus também, foi recebido com muito amor por Sua Mãe, foi acolhido, aceitado e integrado na família de David através desse ato por José e é assim que normalmente que as crianças são recebidas neste mundo, são acolhidas, são adotadas (forçando um bocadinho a palavra). Pode ser um enorme transtorno e é, qualquer criança que nasce ou que se anuncia que vai nascer, vai trazer imensas modificações na vida dos que a acolhem, desde financeiras até muitas outras, de espaço para acolher e deixar viver essa criança que nasce, mas é isso que é realmente significativo, foi isso que José fez, Ele acolheu, adotou esta criança, deu-Lhe a integração na descendência de David e por isso mesmo acreditou-O, de certa forma, como o Filho da Promessa.

Ao chegarmos ao Natal também nós somos confrontados com estes dois convites. Em primeiro lugar não tenham medo, não tenham medo de acolher Jesus com a Sua mensagem, com a Sua capacidade de transtornar a nossa vida, é isso que muitas vezes nos faz recuar e aceitem e realmente deixem-se levar por essa presença nova no meio de nós, nova e sempre antiga porque nós somos aqueles que acreditamos em Jesus Cristo e por isso mesmo também é para nós que Ele vem, mas já cá está, já cá está. É preciso é que nós saibamos que o facto de Ele vir solicita em nós um gesto do acolhimento, Ele vem e nós temos que O acolher sem medo. O medo leva à desconfiança, o medo estraga a vida, nós podemos é ultrapassar isso, devemos ultrapassar isso como José fez, mal ele sabia todas as complicações que aquela aceitação lhe ia trazer, a fuga para o Egipto, todos aqueles problemas do início da vida de Jesus ele teve que os enfrentar e resolver, sim, no momento em que ele acolhe Maria, foi de facto um cheque em branco, não podia deixar de ser, tem de ser assim na vida, acolhe Maria e o Seu Filho e isso significou realmente uma grande mudança para ele. Mas portou-se à altura porque era, como diz o Evangelista, era justo, era um homem bom e fê-lo com muita dedicação e simplicidade.

Nós somos convidados a aceitar, a não ter medo e a acolher o dom de Deus que está em nós, habita o nosso coração, a quem nós aderimos na fé e que continuar sempre a aderir, acolhendo-O, ouvindo Sua voz, aceitando as Suas solicitudes. Ele indica-nos o caminho da vida, há gestos que vêm d’Ele que nós temos que realizar, há propostas concretas de abertura aos outros, de perdão, de esperança, tudo isso temos que acolher ao acolher Jesus.

Neste último Domingo antes do Natal, nós vamos pedir exactamente isso a Deus, que purifique a nossa fé e a torne de esperança e faça que cada um de nós realmente seja um pouco como S. José, Patriarca do silêncio como diz Paul Claudel, e seja capaz de avançar na direção do desconhecido, porque colhe Aquele que é Deus connosco.

Frei Mateus, o.p.

III DOMINGO DO ADVENTO – 11.12.2016

LEITURA I: Is. 35, 1-6a. 10

LEITURA II: Tg. 5, 7-10
EVANGELHO: Mt. 11, 2-11

 

Nesta passagem do Evangelho segundo S. Mateus reencontramos a figura de João Baptista, de certa maneira, como já tinha acontecido no Domingo passado. Isto necessita de uma explicação. João Baptista anunciou a vinda do Messias, de que já os judeus tinham uma grande expectativa, uma grande esperança, uma secular ansia relativamente a Ele, os profetas tinham falado e nós encontramos ao longo deste Advento encontramos muitas referências à obra de Isaías que no Século VIII a.C. já tinha falado com muita clareza da vinda do Messias. Mas não foi só isso João Baptista, porque quando Jesus se apresentou ao baptismo de penitência que ele pregava como preparação para a vinda do Messias. João não quis batizá-Lo, mas depois cedeu perante a insistência de Jesus e batizou-O e reconheceu n’Ele o Messias; Jesus de Nazaré que veio ao batismo, foi apresentado à multidão como sendo o Messias por João Baptista. Jesus não fez nada dentro da linha da sua missão profética até à prisão de João Baptista, mas depois de João ter sido preso, começou a exercer a Sua missão própria e andava por cidades e aldeias, pregava nas sinagogas anunciando a proximidade do Reino dos Céus e curava a todos aqueles que vinham ter com Ele. E João Baptista na cadeia ouvia falar disso e ficou um bocado em dúvida digamos, entrou de certa maneira em interrogação, a interrogação que aqui diz "És Tu aquele que devia vir ou ainda esperamos outro?”, é porque João Baptista aquilo que lhe contavam de Jesus não reconhecia a imagem que ele tinha do Messias. Se se lembrarem, há oito dias ouvíamos essa imagem de uma forma muito clara, há oito dias no Evangelho de Mateus no capítulo III, encontrávamos estas expressões de João Baptista, aos fariseus e saduceus que vinham ao seu baptismo João disse-lhes "raça de víboras”, "quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir?”, "praticai ações que se conformem com o arrependimento que manifestais”. E depois dizia mais, "o machado já está posto à raiz das árvores, por isso toda a árvore que não dá fruto será cortada e lançada ao fogo”, "Eu batizo-vos com água, mas Aquele que vem depois de mim, que é mais forte do que eu, vai batizar-vos no Espírito Santo e no fogo”. E ainda dizia isto, "Ele tem na mão a pá e vai limpar a eira e recolher o trigo e queimar a palha”. Estas imagens são de uma grande violência e apresentam realmente um Messias justiceiro que vai trazer o castigo aos maus e a recompensa aos bons. E aquilo que João ouvia na sua prisão, pobre João lá no calabouço, não correspondia a esta imagem de castigo dos maus, porque Jesus não veio castigar os maus.

Jesus não fez aceção de pessoas, não dividiu a humanidade em os bons que merecem recompensa e os maus que merecem castigo. Ele veio, não com uma acção de justiceiro, veio trazer a Misericórdia. O Papa Francisco escreveu um texto afirmando que o verdadeiro rosto da Misericórdia de Deus é Cristo. Foi isso que Ele fez e por isso curou os cegos, e os coxos, e os leprosos e todas estas coisas que aqui se mencionam e que no fundo correspondem às profecias, como ouvíamos na primeira leitura, aquela ideia de que o deserto se transforma e depois os coxos saltam como veados, os cegos vêm, os surdos ouvem, etc. Há um desfasamento muito grande entre essa imagem justiceira e aquilo que Jesus realmente fez. Ele veio, Ele é que era o Messias, só que a ideia que as pessoas tinham desenvolvido ao longo dos séculos do Messias, tinha que ser ultrapassada, tinha que ser corrigida, digamos assim.

De certa maneira pode dizer-se que só à Luz de Jesus Cristo é que nós entendemos verdadeiramente bem o Antigo Testamento e as profecias a Ele relativas. Ele é que projeta uma luz sobre o passado de Israel e faz ver realmente aquilo que Deus quis que se visse. Mas é normal, aquelas profecias eram vividas no espirito e na cultura de séculos anteriores e era muito difícil para eles distinguir estes aspetos.

Por isso Jesus faz o grande elogio de João Baptista, não houve maior do que ele, foi o maior de todos, mas diz também duas coisas, "Bem-aventurado aquele que não encontrar em mim nenhuma ocasião de escândalo”, bem-aventurado aquele que não escandalizar por Ele ser misericordioso, procurar os que precisam, ir ao encontro de todos e receber de braços abertos os pecadores. Bem-aventurado. Isso sim realmente é a salvação, encontrar o verdadeiro Deus em carne humana que é Jesus Cristo. E depois também diz que o menor do Reino dos Céus é maior que João Baptista. Isto é uma outra ordem de ideias, não estamos já no ajuste de contas, não estamos já a tirar partido de um momento de vantagem para satisfazer os nossos egoísmos, como era o grande sonho voltar à grandeza do reino de David e Salomão.

É importante que pensemos nisto, há aqui como um contributo realmente importante, porque de outra forma passa-se ao lado do Amor de Deus, passa-se ao lado deste Amor de Deus que diante da miséria dos homens se torna Misericórdia.

Nós vamos ao encontro de que deus? Um deus que nos venha trazer uma vitória sobre todos aqueles que em certa altura da vida nos ultrapassaram? Uma vingança? Não, esse deus não existe. Nós vamos ao encontro da Misericórdia, da simplicidade, da ternura de Deus em Jesus Cristo e bem-aventurados seremos nós se aceitarmos que aquela fraqueza, aquela disponibilidade, aquele acolhimento, são realmente divinos, aquilo é que é Deus, essa maneira de ser e de fazer e de estar com as pessoas. Não é no meio de relâmpagos e trovões, castigando os maus do mundo, porque todos nós, de certa maneira precisaríamos de castigo e todos nós ansiamos por um momento de perdão e de misericórdia. Não, Deus não faz aceção de pessoas e a todos trata da mesma forma de misericórdia. Só aqueles que não a querem porque se consideram perfeitos é que passam ao lado disto. É por isso que algumas pessoas se perguntam se haverá realmente castigo ou será tudo perdoado. Talvez… pelo menos a pergunta pode-se pôr diante deste testemunho. Pensemos nisso, pensemos que realmente esta simplicidade, este trato fácil e cheio de misericórdia, … uma misericórdia muito efetiva, que cura realmente aqueles que precisam de cura que somos todos nós de uma forma ou de outra. Isto é aquilo que o Senhor vem trazer ao mundo e é disso que nós nos alimentamos na nossa caminhada.

Vamos portanto pensar se estamos realmente a preparar para o Natal nesta linha, da simplicidade, do acolhimento. É preciso paciência para isso e paciência uns com os outros. S. Tiago na Epístola diz "não vos queixeis uns dos outros a fim de não serdes julgados”, quem se queixa, condena aquele de quem se queixa e se nós julgamos e condenamos, também seremos julgados: não dá, não pode ser por aí. "O Juiz está à porta … tomai como modelos de sofrimento e de paciência os profetas que falaram em nome do Senhor” e esperaram teimosamente, século após século, que o Senhor havia de vir e que, pela Graça de Deus reconheceram em Jesus Cristo, esse Messias que esperavam e amavam sem saber.

Nós vamos ao encontro do Senhor e portanto é nesse espírito que me parece que se não nos aproximamos d’Ele, se vamos para o outro lado passamos ao lado do Natal e não temos Natal este ano. Não quero isso, não desejo isso a ninguém. Queremos ter Natal, pois bem então aprendamos, a porta é esta, é este o caminho.

Frei Mateus, o.p.

FESTA DA IMACULADA CONCEIÇÃO da VIRGEM SANTA MARIA – 08.12.2016

LEITURA I: Gen. 3, 9-15. 20

LEITURA II: Ef. 1, 3-6. 11-12
EVANGELHO: Lc. 1, 26-38

Meus Irmãos

Como sabem, celebramos hoje a Festa (a Solenidade) da Imaculada Conceição da Virgem Maria, proclamada Padroeira Principal de Portugal. Esta festa, curiosamente, tem a ver com certeza com a tendência que houve na história do Ocidente cristão a dar uma grande importância aos aspectos dramáticos da história da salvação, a sublinhar com força a queda dos primeiros pais e o que isso representou para toda a humanidade, a dar uma grande importância aos temas do pecado e do afastamento de Deus, que ensombrou a espécie humana. Para isso contribuiu a experiência e o génio de um homem como Santo Agostinho, que marcou muito profundamente, com esses aspectos dramáticos, a percepção que o Ocidente tem da Boa Nova, digamos assim. Talvez por isso Deus quis que nós tivéssemos, descobríssemos, outro aspecto das coisas e é nesse outro aspecto das coisas que a Imaculada Conceição se insere.

Este diálogo do Anjo com a Virgem é o anúncio, realmente, de uma outra maneira ver as coisas que tem muita importância. A segunda Leitura, aliás, insiste, retoma toda essa perspectiva e insiste nela, Deus antes da criação do mundo predestinou-nos para sermos felizes da Sua presença, santos e irrepreensíveis em caridade da sua presença, sem qualquer temor, mas cheios de alegria na Sua presença. Foi para isso que Ele nos predestinou, pela benevolência da Sua vontade e depois diz até que fomos constituídos herdeiros em Cristo, filhos adotivos, etc. Esse é o plano de Deus. Que as coisas não tenham corrido historicamente nessa linha, não retira que esse plano de Deus vá triunfar, mas para isso é importante descobrir, na figura da Virgem, um recomeço das coisas, uma nova etapa, Deus retoma a criação do mundo, de certa maneira, e recomeça o Seu projeto com a Virgem Maria. Aliás nunca tinha abandonado esse projeto, preparou longamente o povo de Israel para ele e depois preparou a Virgem também para colaborar nesse projeto. É isso, a Virgem foi preparada para ser a Mãe do Messias e o que está aqui neste diálogo é exactamente o princípio do triunfo de Deus, do plano de Deus, sobre os disparates humanos.

Esta ideia apareceu tardiamente no Ocidente, mas foi sobretudo um grande teólogo Franciscano, João Duns Escoto, que sistematizou e propagou e depois a Ordem Franciscana nos Séculos XIII, XIV, XV, desenvolveu por todo o mundo em que estava presente esta festa e propagou esta invocação da Virgem como Imaculada. Os Dominicanos iniciaram uma grande guerra a esta propaganda Franciscana, é verdade ficámos do lado mau, do lado das trevas neste debate, mas tínhamos uma certa razão, quer dizer, havia o facto de que esta maneira muito simples (ou simplória) de proclamar a Virgem como Imaculada, sem pecado, pode ser entendida no sentido de dizer que Ela nem sequer podia pecar, o que é um exagero, Ela retomou a condição que Eva tinha antes do pecado dos primeiros Pais e sobretudo perguntava-se mas se Ela então não pecou, não podia pecar, Ela ficou à margem da Salvação operada pelo Seu Filho Jesus Cristo. Esta é uma objeção muito difícil, que nos pareceu realmente que tirava todo o valor a essa festa e a essa fé na Imaculada Conceição da Virgem. Foi preciso essa oposição, (aliás, de certa maneira, fomos vencidos no combate entre uma coisa e outra), mas tem uma certa importância, atrasámos durante séculos a proclamação do dogma, porque não se via como é que a Virgem tinha sido salva também? Ela e, se não fosse salva por Cristo, que condição era essa? Cristo não foi o Salvador de todas as gerações, de todos os tempos?

Chegou-se à conclusão. Depois de muito refletir e muito discutir (e de muito se insultarem, também), chegou-se à conclusão que a Virgem foi salva por Cristo seu Filho em antevisão daquilo que haveria de conseguir através da Sua Páscoa, da Sua morte e ressurreição. Ele na Sua morte e ressurreição salvou todas as gerações e no caso concreto d’Aquela que foi Sua Mãe deu-lhe também esse privilégio, trouxe para Ela esse privilégio de poder estar livre da mancha do pecado original.

Já no Concilio Ecuménico de Basileia, em meados do Século XV, se censurou aqueles que andavam a pregar contra a Imaculada Conceição, (eram os Dominicanos), mas também se obrigou em toda a parte a celebrar a festa litúrgica, portanto já em mil quatrocentos e tal, o Concilio Ecuménico achava que tinha de se celebrar esta festa em toda a parte.

Eu acho que realmente há qualquer coisa aqui de muito são e muito belo, pensar que existiu uma criatura humana, verdadeiramente humana, (até mais verdadeiramente humana que todos nós que estamos de certa forma doentes por causa da participação no pecado),  verdadeiramente humana e muito jovem - a sua situação de desposada por José aponta para uma idade entre os doze e os quinze, que se perturbou com aquela mensagem e quis perceber bem de que é que se tratava e foi esclarecida, o Anjo dobrou-se a esta interrogação e esta curiosidade e forneceu-lhe elementos para que Ela tomasse uma resolução, que tomou com enorme generosidade e muita alegria. Nós vemos logo a seguir a Virgem vir apressadamente para casa de Isabel ajudá-la durante três meses e chega a casa de Isabel e tem uma explosão de alegria que é o Magnificat, realmente é um texto muito belo este capítulo I de Lucas, a Virgem aceitou ser a Mãe do Messias, aceitou e comprometeu-se com isso, nesta altura e para sempre, Ela é para todos nós a Mãe da Salvação, a Mãe do Redentor. Isso é de facto qualquer coisa que nós pudemos louvar e agradecer, temos uma dívida para com Ela por causa disso. Deus arranjaria outra maneira de fazer se Ela dissesse "Ah! Não posso, não sou capaz”, temos uma dívida para com Ela porque Ela não disse assim, aceitou, acolheu o desconhecido. O que é que isto representaria para Ela? Desposada com José e de repente encontra-se na situação de gravidez, como é que José vai aceitar uma coisa destas, como é que as coisas vão decorrer? Mas Ela não podia dizer não a Deus, não era capaz de dizer não a Deus na integridade do Seu ser tinha que dizer que sim, faça-se a Tua vontade, estou de acordo.

Isto é para nós também uma certa lição não é só um motivo de agradecimento, é também uma certa lição. Também nós fomos destinados a ser santos e irrepreensíveis na presença de Deus, também nós quando viemos ao mundo viemos com a possibilidade de realizarmos uma missão que o Senhor nos propõe e também nós podemos dizer sim a essa missão, uma missão de fraternidade, uma missão de beleza, uma missão de entendimento das coisas. Também nós podemos dizer "Sim”, não somos obrigados a dizer sempre "Não” a Deus, um Sim sincero, cada vez mais sincero e mais profundo, cada vez mais empenhativo.

É nesse sentido que a festa nos move, nos coloca diante deste apelo de também nós dizermos um "Sim” à vontade de Deus a nosso respeito, seja ela qual for. Mas seja ela qual for será para nosso bem e para o bem dos outros, sem dúvida nenhuma. Por isso celebremos esta festa com um sentimento de gratidão e também com uma vontade de aprendermos com Ela alguma coisa.

As mães ensinam, a Virgem Maria também nos ensina isso mesmo, a dizer "Sim, faço”.

Frei Mateus, o.p.

II DOMINGO DO ADVENTO – 04.12.2016

LEITURA I: Is. 11, 1-10

LEITURA II: Rom. 15, 4-9
EVANGELHO: Mt. 3, 1-12

Como acabaram de ouvir, o Evangelho fala-nos de João Baptista que é uma das figuras cimeiras, digamos assim, do tempo do Advento. Ele é aquela figura que, de certa maneira, vindo do Antigo Testamento, baseado nas Escrituras anuncia o Novo Testamento ao anunciar o Messias.

João era um marginal, vinha do deserto, não tinha nada a ver com a sociedade de Jerusalém, ou as estruturas do templo, ou mesmo até as seitas dos fariseus, vinha de fora, vinha com uma mensagem nova, diferente. Mas foi ouvido, até Ele acorreu muita gente, de toda a parte, digamos assim, do mundo em que a fé em Deus vigorava, da Judeia vinham do Jordão, de Jerusalém, etc. Ele vinha realizar a profecia de Isaías, "Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas”. Preparai o caminho do Senhor porque o Senhor vem até nós, Ele vinha anunciar, é o percursor, vinha anunciar Aquele que é mais forte do que Ele, que Ele nem sequer é digno de lhe desatar as sandálias e que é o Messias (numa palavra), é o enviado de Deus que vai realizar a obra de Deus. E este anúncio do Messias é sempre acompanhado, indissoluvelmente, é sempre acompanhado do anúncio do Reino que o Messias vem trazer, a paz e a justiça.

Na primeira leitura tirada da Profecia de Isaías, nós encontramos essa novidade, essa mudança do mundo, traduzida em termos de uma paz que se estende até às criaturas irracionais, o lobo que habita com o cordeiro, a pantera com o cabrito, enfim há uma paz que vai transformar a própria natureza. Claro que isto é uma maneira de dizer a imensa extensão e a profundidade desta paz, talvez o mais digno de nota seja que não se praticará o mal nem a destruição em todo o Meu Santo Monte, diz o Profeta Isaías, "o conhecimento do Senhor encherá o país, como a água do mar enche o seu leito”.

Esta ideia de que esperando o Messias espera-se sempre qualquer coisa de novo, diferente, um mundo melhor, digamos assim, está presente nos três textos.

Na Epistola aos Romanos Paulo explica aos cristãos de Roma que assim como Cristo os acolheu, eles também têm que acolher-se uns aos outros. A vida não pode ser igual, tem de ser diferente, quer dizer, feita numa base de fraternidade que é de facto a construção da paz. No Profeta Isaías, naquelas imagens um pouco "hiperbólicas”, há a mesma dimensão da paz e da justiça; o Messias reveste-as de justiça e dessa presença, da acção da justiça é que nasce a paz de que Ele fala.

Encontramos a mesma ideia no Evangelho. Aos fariseus e aos saduceus, João Baptista que não se deixava enganar por eles, propunha um batismo de penitência, de arrependimento, de conversão para se preparar a vinda do Senhor, pois João Baptista chama-lhes "raça de víboras”, não tinha assim muita diplomacia na sua linguagem, era mesmo um selvagem,  não perdia tempo com "salamaleques” nem cortesias, era rude, direto, verdadeiro. "Eu batizo-vos com água para vos levar ao arrependimento”, mas vós tendes de provar esse arrependimento pela vossa maneira de viver. Não chega dizer "sou filho de Abraão”, "até fui ao Jordão ser batizado por João Baptista”, não basta, isso não chega, "é preciso que a vossa vida seja diferente, seja conforme ao arrependimento que manifestais neste acto do baptismo”. Mas João Baptista no entanto, na sua rudeza não imaginava o que seria esse Reino do Messias, ele diz, "quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir?”, ele imaginava o dia do Messias como um dia de ira, e não foi só ele, muitos profetas do Antigo Testamento falaram do Dia do Senhor como um dia de ajuste de contas em que os exploradores dos pobres, em que os opressores, em que todos aqueles que não praticavam a justiça, seriam castigados radicalmente. E aqui, João Baptista diz-nos o mesmo "toda a árvore que não dá fruto será cortada e lançada ao fogo.” e também diz que o Messias tem a pá na mão para limpar a eira, vai fazer uma limpeza geral, quem diz a eira diz o templo, diz Jerusalém, diz Israel inteiro, vai limpar isso. João Baptista acreditava nisto e ficou muito perturbado, como se lembram, quando já preso lhe vieram dizer o que Cristo andava a fazer, que curava os cegos, devolvia os ouvidos aos surdos, que curava todas as doenças, que acolhia todas as pessoas, que limpava os leprosos, há uma série de manifestações da Misericórdia de Deus e da ternura de Deus que Jesus realiza, põe em prática, nas quais João Baptista não via a ação da ira de Deus e Jesus tem uma palavra de grande apreço por João Baptista nessa ocasião, quando vieram alguns discípulos de João perguntar-Lhe "Tu é que és o Messias ou ainda temos que esperar outro?”. João manda perguntar, João estava baralhado, não entendia aquilo, não era aquilo, não se enquadrava no esquema de dureza e de castigo em que ele se tinha colocado. E Jesus mostra através da Sua ação que as profecias estão a ser cumpridas e de facto Ele é Aquele que João disse que era, o Messias. Só que o Reino ultrapassava em compreensão, em bondade, em transformação, muito daquilo que uma simples imagem, uma justiça dura e do castigo merecido traduzem. O Reino é muito mais do que isso, é a reconciliação com Deus e portanto a reconciliação entre os homens, é a Paz no Amor, a Justiça e a Paz no Amor. O Reino é a presença transformante de Deus que mesmo é capaz de fazer das pedras filhos de Abraão como João Baptista dizia, mas também é capaz de fazer, desta raça pecadora que nós somos, Filhos de Deus. O batismo no Espírito Santo é isso mesmo, faz de nós outra coisa, nós todos que fomos batizados, assim fossemos nós fiéis à Graça Batismal.

Mas enfim, a ideia é temos que preparar-nos, temos que fazer qualquer coisa na nossa vida, à nossa volta para nos prepararmos para a vinda do Messias e portanto somos desafiados, nós os que aqui estamos, nós neste Século XXI, nós no ano de 2016, nós somos interpelados por João Baptista, que não perdeu nada do seu vigor e da sua força, a preparar a vinda do Senhor na nossa vida. E isso faz-se, fazendo como Paulo dizia, já que fomos acolhidos por Cristo, saibamos acolhermo-nos uns aos outros e onde não há acolhimento, construi-lo se possível. Se queremos realmente viver na onda de Graça, de favor e de amizade que Jesus Cristo veio trazer ao mundo, temos que vivê-la concretamente naquilo que somos, na nossa vida concreta, com os nossos vizinhos, com os nossos parentes, com os nossos colegas de trabalho, temos que fazer isso. A gente queixa-se do natal por ele não ser todo o ano natal, pois é pena que nós não sejamos capazes de fazer do Natal qualquer coisa para todos os dias, todos os dias, para todas as relações, para todos os nossos problemas.

Trazer a ternura de Deus, a presença de Deus, para a nossa vida, está nas nossas mãos. Também nós somos de facto interpelados por João Baptista "preparai os caminhos do Senhor, endireitai as suas veredas”, para que o Senhor chegue ao nosso coração é preciso limpar o caminho, é preciso endireitar as veredas.

Vamos pedir que esta celebração nos aproxime mais ainda do Natal, vamos pedir que o Senhor nos ajude a caminhar ao Seu encontro através desta conversão de abertura aos outros, de acolhimento, de perdão, de reconciliação se necessário. Vamos-Lhe pedir com toda a fé, antecipando para já a alegria de um Mundo transformado.

Frei Mateus, o.p.

I DOMINGO DO ADVENTO – 27.11.2016

LEITURA I: Is. 2, 1-5

LEITURA II: Rom. 13, 11-14
EVANGELHO: Mt. 24, 37-44

Estamos a começar um novo Ano Litúrgico e começa, como sabem, sempre pelo ciclo do Advento, Natal, Epifania, centrado, ao fim e ao cabo, sobre a Encarnação de Deus, o nascimento de Jesus Cristo. Vamos pedir a Deus que nos liberte das nossas faltas e também nos liberte das nossas rotinas, é difícil começar uma coisa nova quando já somos velhos e achar interesse numa história tantas vezes reconhecida e repetida, já não temos aquele entusiasmo que tínhamos quando eramos crianças… Mas isso é, até certo ponto, um pecado e faz-nos falta no sentido etimológico de falta. Vamos pedir que o Senhor nos perdoe e nos ajude.

Estamos portanto no Advento e a Liturgia serve para nos prepararmos para a celebração da Festa do Natal, essa é a vinda histórica do Senhor ao mundo, nasceu em Belém da Virgem Maria, assumiu a nossa condição humana em tudo igual a nós exceto no pecado e é para nós uma fonte de consolação e de coragem para levarmos a vida, porque Ele está connosco, estará connosco até ao fim dos tempos, nunca nos vai abandonar.

Mas os fins dos tempos também, de certa maneira, são uma vinda, pois o Senhor virá na Sua glória, virá apresentar o Reino de que nos falou e disse que já estava entre nós, estava a crescer como um grão de mostarda que se há-de transformar no maior dos arbustos da horta, assim também esta presença latente, escondida, real e autêntica do Reino de Deus, acabará por passar a uma manifestação que é uma outra vida. Com isso inaugurar-se-ão os novos Céus e a nova Terra e reinará a justiça. Isaías falava disso na primeira leitura, falando do fim das guerras, de que forma os instrumentos de guerra têm que ser readaptados para terem alguma utilidade, as espadas serão transformadas em relhas de arado, as lanças em foices, já não haverá guerra entre as nações e todas elas estarão unidas no mesmo culto a Deus.

Mas nós adormecemos facilmente nesta espera e por isso o grito de S. Paulo tem a sua razão de ser. Ele diz "já é tempo de sair do sono”, e apresenta esta nossa vida como uma espécie de ante-manhã, a noite já está quase a acabar, vamos levantar da cama, vamos despertar, vamos fazer aquilo que é preciso para apressar a vinda do Senhor. Se Ele vem trazer a paz e o entendimento, tudo o que nós fizermos neste tempo para a paz e entendimento entre as famílias, entre as pessoas, entre as nações, tudo isso será contado como construção do Reino. É isso que interessa. É que nós, realmente, temos muito pouca preceção do tempo em que estamos, como no tempo de Noé, não percebemos o que está a passar-se, o que está a preparar-se, não damos por isso. Mas não quer dizer que não seja, de facto real, esta aproximação do Reino que vem até nós. Como Paulo dizia que a salvação está mais perto de nós do que quando abraçámos a fé, isto é indiscutível, no fim dos tempos a salvação manifestar-se-á e todos participarão dela.

Vamos aproveitar este tempo para realmente despertar em nós sentimentos de esperança e de confiança. Não nos deixemos anquilosar, não nos deixemos fechar numa resignada velhice, não, nós estamos a caminho do renascimento do mundo, o mundo vai renascer da Palavra de Deus, com justiça e com paz e isso de certa maneira pode estar presente nas nossas relações se nós nos aplicarmos a esse trabalho.

Peçamos ao Senhor que de facto nos prepare e nos dê uma confiança viva para irmos ao encontro da Sua vinda, para estarmos presentes em Belém, para podermos ver naquela Criança recém-nascida a promessa de um mundo novo na justiça, na paz. Vamos pedir tudo isso nesta eucaristia, mas vamos pedi-lo por nós e por todos, pelos que não estão aqui e acreditam nisso, mas também por todos aqueles que já não têm esperança, não há nada mais triste que não ter esperança, não ter esperança de melhoras, de transformação, de que há alguma coisa de muito nova e muito viva vem ao nosso encontro, não ter esperança é um pecado contra uma virtude teologal.

Vamos portanto pedir a Deus que realmente desperte esta humanidade cansada e cética, e a faça abrir os olhos e o coração para O que vem, para Aquele que vem.

 

Frei Mateus, o.p.

DOMINGO DE CRISTO REI DO UNIVERSO – 20.11.2106

LEITURA I: 2 Sam 5, 1-3

LEITURA II: Col 1, 12-20
EVANGELHO: Lc 23, 35-43

Meus Irmãos

Esta festa recorda em nós muitas referências, muitas memórias. Eu sou da geração, (como dizer?), que teve o descaramento de encontrar algumas ambiguidades no estabelecimento desta festa. Passado o entusiasmo inicial, juvenil, pareceu-nos que esta festa era uma maneira de voltar à ambição de um certo poder temporal sobre a sociedade, poder esse que, nas leituras dos saudosistas, a Igreja tinha perdido através das convulsões e das tribulações da Idade Moderna, tanto sociopolíticas como culturais e que era preciso restaurar, de certa maneira. A realeza de Cristo era um bocado a maneira de restaurar o poder da Igreja sobre a sociedade. Foi o Papa Pio XI que instaurou a festa em 1925 e ao mesmo tempo foi o grande animador e impulsionador da Acção Católica, o movimento laical de apostolado de acção católica, à qual muitos de nós devemos muito. Na mesma época também se desenvolviam esforços, a partir dos quais altas esferas da Igreja, que levaram ao nascimento dos partidos democrata-cristãos.

Mas é mais complexo que isso, não nego que tenha havido um certo saudosismo por uma Igreja poderosa que já não era da memória de ninguém, se é que alguma vez foi, mas há mais do que isso, nesta proclamação de Jesus Rei do Universo. É curioso que foi exactamente uma das acusações contra Ele, os judeus querendo pôr de seu lado Pilatos, representante do poder régio ou imperial na Palestina, diziam "Ele anda para aí a dizer que é o rei dos judeus”. Isso leva Pilatos a ter com Jesus um diálogo muito sugestivo e muito esclarecedor. "Então Tu és rei?” Diz-lhe Pilatos e Jesus explica que o reino d’Ele não é deste mundo, se fosse deste mundo havia de haver um exército a lutar por Ele naquela altura contra os judeus, não, o reino d’Ele não é deste mundo. E isso dá a possibilidade a Pilatos de dizer "Então Tu és rei?” e a resposta de Jesus é muito curiosa, Jesus não nega que seja rei, é uma maneira própria de dizer, maneira de dizer a Pilatos e a outros, "Tu o dizes, Eu sou rei”. Agora, quando Ele fala de Si, diz outra coisa, diz "Nasci e vim ao mundo para dar testemunho da Verdade e quem anda na Verdade ouve a minha voz”. Pilatos diz "O que é a verdade?” o que é que isso quer dizer? "O que é a verdade?”. No entanto, condena-o por Ele dizer que era o Rei dos Judeus e é por isso que havia um letreiro na Cruz que dizia "Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus”. Eles bem diziam, "não digas que Ele é rei, diz que Ele diz que é rei” e ele diz, "não, o que eu escrevi está escrito”. Nós não temos elementos suficientes para perceber o que vai no fundo daquela alma de Pilatos: era um bocado um oportunista, só para não ter que ouvir mais reclamações dos chefes da sinagoga e do sinédrio, condenou-O á morte, mas reconheceu n’Ele, de facto, alguém diferente.

E de facto, é curioso, é o título de rei que está na Cruz, é nesse momento que Ele é rei. Na Cruz nós temos aparentemente a derrota mais completa de um ser humano, mas, sabendo que Ele tendo poder para se livrar daquele sofrimento, reconhecemos ali o máximo do amor, da doação de Si mesmo e é isso que faz com que Ele seja Rei. Ele vence o mal do mundo, o pecado do mundo, Ele reconcilia tudo em si mesmo no sacrifício da Cruz. É de facto impressionante pensar nisso, é impressionante o bom ladrão reconhecê-lo: "Lembra-te de nós quando vieres na Tua realeza”. O sangue na sua Cruz reconciliou consigo todas as coisas estabelecendo a paz com todas as criaturas na terra e nos céus. É o triunfo pleno, completo, completamente realizado no sofrimento e na cruz, na morte que dá a vida ao mundo inteiro.

É claro que nós temos que reconhecer que este triunfo da realeza de Cristo na Cruz, na nossa fé nós reconhecemos que assim é, como nos dizia a Epístola aos Colossenses, mas ainda falta muita coisa para que isto se manifeste, para que aquele Amor que se manifestou na Cruz se manifeste em todo o Universo, em todas as criaturas, que tudo seja reinstaurado em Cristo, libertado, posto a funcionar como deve ser.

Também reconhecemos que de certa maneira, estamos metidos nisso, nós que temos fé n’Ele e que acreditamos que Ele é realmente o restaurador da criação inteira, do mundo inteiro, nós estamos metidos nisso também. Aliás, segundo a expressão de Orígenes tirada dos Evangelhos (Orígenes foi um Padre num dos primeiro séculos da Igreja, século II ou III), no Evangelho está escrito "O Reino de Deus está no meio de nós”, outros até traduzem "dentro de nós”. Mas se está no meio de nós, o que nós queremos é que esta presença ganhe espaço e que se ocupe todo o espaço que lhe é devido. Se está no interior de nós mesmos, quando nós rezamos o Pai Nosso e dizemos "… venha a nós o Vosso Reino …"… nós estamos a pedir que esse Reino venha a nós que nós vamos a Ele, que nós cresçamos, libertemos o que é mal e sejamos totalmente peças dessa renovação do mundo. Somos ao mesmo tempo beneficiários (desculpem a expressão) e colaboradores deste Reino. É isso que o Senhor nos põe diante dos olhos nesta realeza tão original, tão especial, é a realeza do Crucificado, e a sua coroa é uma coroa de espinhos. Mas em tudo isso nós vemos, na fé, que há uma vitória sobre o mal, é a vitória do Grande Rei, e ali se estabelece o fundamento de uma restauração, de um reino novo. Já está no meio de nós, já está nos nossos corações, mas que ainda tem que crescer muito para chegar a ser aquilo que deve ser, por isso, até ao fim destes tempos, nós diremos todos os dias "Venha a nós o vosso Reino”. Queremos entrar n’Ele, mais diretamente, mais profundamente, embora já esteja em nós, falta ainda muito, falta que cresça e tome posse de todos os nossos sentimentos, de toda a nossa experiência, de toda a nossa esperança.

Nesse sentido, de facto, a festa tem muito significado, tem o significado de que na conclusão e resumo de todo o Ano Litúrgico: de certa maneira, Deus coloca seu Filho, o Filho de Deus, coloca-O na meta dos nossos esforços, da nossa caminhada, e o sentido que as coisas têm vem daí. É bom que nós não caiamos em qualquer tipo de triunfalismo, pretendendo fazer das massas católicas uma força de transformação social, é uma transformação de tal maneira original e diferente que não faz concorrência aos exércitos e aos poderes deste mundo, não se bate contra eles, muda-os, muda-os na medida do possível. É bom que tenhamos isto presente quando celebramos a festa e que saibamos ver que nesta festa há um certo passar pelo sofrimento e pela cruz que não pode deixar de estar presente, não pode porque foi esse o caminho que Ele traçou para si mesmo, subiu ao trono quando o pregaram na Cruz. Pode-se fazer um jogo de palavras a esse respeito mas no fundo, a verdade é essa, é no sofrimento e na morte que Ele inaugura o Seu Reino.

Frei Mateus, o.p.

DOMINGO XXXIII DO TEMPO COMUM – 13.11.2016

LEITURA I: Mal. 3, 19-20a

LEITURA II: 2 Tes. 3, 7-12
EVANGELHO: Lc. 21, 5-19

 

Estamos quase a acabar o ano litúrgico, o próximo Domingo já é o Domingo da Festa do Cristo Rei, que é o último Domingo do Ano Litúrgico. E nestes últimos domingos, a temática do fim dos tempos aparece nos textos da liturgia da Igreja. Mas há um bocado de confusão em volta desta temática, confusão, aliás, que vem dos próprios Evangelhos. Jesus falou de dois fins, um o fim do Templo de Jerusalém, outro o fim dos tempos todos, o Dia do Senhor. Mateus confunde os dois fins no mesmo discurso, mas Lucas não, não é muito claro mas realmente separa uma coisa da outra. Este discurso é sobre o fim de Jerusalém, não propriamente sobre os fins dos tempos, como vamos ver. Mas o facto de estarem os dois muito ligados como que atraiu a esta celebração aquela passagem do Livro de Malaquias em que se fala realmente do Dia do Senhor como uma fornalha ardente em que os maus serão castigados e os justos recompensados.

Mas aqui, portanto, trata-se realmente de outra coisa, o Senhor disse, mais de uma vez (em Lucas aparece pelo menos duas) que Jerusalém seria destruída e até chorou à vista de Jerusalém a pensar nessa destruição, que teria sido possível evitar, mas que não se conseguiu evitar por causa da teimosia, digamos assim, daqueles que se lhe opuseram, lhe fizeram guerra. Repararam que Ele terá falado do Templo, o Templo estava ornado de belas pedras, piedosas ofertas e o Senhor diz "não ficará pedra sobre pedra”. Pois bem assim foi, a revolta do ano 70 da era cristã trouxe a ruína a Jerusalém, mas ainda não foi total, eles tornaram a revoltar-se contra o Império Romano por volta do ano 130 e então aí sim, no tempo do Imperador Adriano, Jerusalém foi arrasada o Templo foi desfeito e eles foram expulsos da Palestina, não podiam lá viver, os judeus foram todos expulsos da Palestina e foi aí, realmente, que se realizou esse fim da Jerusalém, cidade de Deus, que eles conheciam. É disso que o Senhor fala aqui, "não ficará pedra sobre pedra”, "tudo ficará destruído”, e depois avisa os discípulos para não se deixarem levar por esses acontecimentos no sentido de pensar que esse é o fim dos tempos, não, não é, "não vos deixeis enganar, pois muitos virão em meu nome e dirão: ‘Sou eu’;” aquele movimento de grande sofrimento e destruição de tudo aquilo que eles como judeus tanto amavam, isso é o sinal não do fim dos tempos, mas de uma situação nova e que essa situação é, ao fim e ao cabo, a peregrinação da Igreja através dos séculos. E não é caso para alarme "não vos alarmeis, isto tem que acontecer, …, mas não será logo o fim.” As guerras, as revoltas, as epidemias, as fomes, os fenómenos celestes, até, nada disso é o fim, temos é que passar através tudo isso perseverando na Fé. É o tempo do testemunho a dar a Jesus e ao Seu Evangelho. É também o tempo das perseguições que são ocasião desse testemunho, pois o testemunho é dado à Palavra de Deus e à força e vitalidade da Palavra de Deus que incarna numa atitude de serviço, de ajuda, de justiça, de luta pela verdade. Tudo isso está aqui mencionado.

É importante pensarmos, de facto, que a história da Igreja é, muito longe de qualquer leitura triunfalista, esta passagem através das tribulações, das perseguições e do ódio até, ao mundo do Senhor. É através de tudo isso que a Igreja caminha, o que é preciso é que perseveremos para salvar as nossas almas, como diz o Senhor. Estes conselhos são dados exactamente para uma visão de combate, a Igreja terá que combater o bom combate, como dizia S. Paulo, e dar testemunho que o Senhor inspira Verdade, o Senhor está presente, não para livrar dessas fomes, epidemias, perseguições, guerras, etc., não, o Senhor está presente para fornecer, dar a Palavra de resposta às acusações "Eu vos darei língua e sabedoria e nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer”.

É isto que nós temos que assimilar, penso eu, porque é normal que caminhar através dos séculos, seja uma caminhada cheia de dificuldades mas que serão ocasião de darmos testemunho, somos postos à prova e temos que ser aprovados comprovando isto. E isto não é apenas para os clérigos, isto é para toda a Igreja, aliás aqui faz-se menção àqueles a quem será tirada a vida, os mártires, e muitos dos mártires, a grande maioria dos mártires não eram clérigos, era o Povo de Deus, aqueles que têm traço comum, como todos sabemos nenhum batizado escapa a esta vocação de dar o testemunho e portanto enfrentar na fidelidade as perseguições e os problemas. E no entanto, esta caminhada através dos séculos é aquilo que inspira a Oração da nossa missa de hoje (já foi há bocadinho que eu a disse, se calhar já não se lembram): pedia a Deus a graça para todos nós, para mim também, de encontrar a alegria no serviço do Senhor. Primeiro estas dificuldades todas, estas perseguições e testemunho dado contra os inimigos, é aí que nós vamos encontrar a alegria porque é grande e duradoura a felicidade, estar em comunhão com o autor de todos os bens, diz a Oração. Mas não vamos tão longe e fiquemos com esta ideia, nós pedimos encontrar a alegria nesta fidelidade e não encontraremos essa alegria se nos afastarmos da fidelidade ao Senhor, Ele está connosco na provação, é portanto aí que nós O encontramos e Ele é a causa da nossa alegria.

Eu acho que estas coisas em vez de nos assustar deviam-nos dar coragem, é normal, já está previsto que a vida não é fácil para um mundo que não compreende a Boa Nova do Evangelho de Jesus. É normal que tenhamos que dar testemunho e que não sejamos compreendidos e que até interpretem mal, que haja perseguições, que alguns dos nossos irmãos sofram a morte por amor do Senhor e nós sabemos que em todos os séculos houve sempre gente que deu a vida por Jesus Cristo. O Século XX no qual nós vivemos grande parte da nossa vida, quase todos, o Século XX é um século cheio de mártires, coisa impressionante. Há um livro exactamente sobre os mártires do Século XX, que me deixou "de boca aberta”, porque realmente eu conhecia aquelas pessoas, tinha ouvido falar daqueles casos, tinha seguido até nos jornais aquelas perseguições, foram muitos, muitos, na América Latina, em África, por todo o lado.

É normal, é normal que assim seja, mas é bom que nós saibamos que é aí que se encontra a nossa alegria, na fidelidade ao Evangelho e essa fidelidade também leva ao encontro com o Senhor; sejamos fiéis para nos encontrarmos com o Senhor.

Depois há aquela advertência de Paulo na Epístola aos Tessalonicenses em que ele diz que é preciso trabalhar, quem não trabalha não coma. Era a fama de Tessalónica, que era uma cidade onde as pessoas viviam na ociosidade e não se davam muito ao trabalho, lá se arranjavam uns truques para irem comendo, mas não trabalhavam. E Paulo deve ter ficado horrorizado, ele judeu, deve ter ficado horrorizado com o espetáculo daquela gente "à boa vida, a não fazer nada”, ele que trabalhou toda a sua vida de Apóstolo, como sabem fazia tendas, tecia tendas e vendia-as, era o seu trabalho, trabalhava com as suas mãos e deve ter ficado horrorizado com aquilo. Não é que ele precisasse de trabalhar, mas quis-lhes dar um exemplo. Pois bem, também nós até ao momento da aposentação, todos nós tivemos que trabalhar e também encontramos a alegria aí, com certeza.

Mas sobretudo esta ideia de que a Igreja é realmente conduzida através dos tempos, face às intempéries, às perseguições, a todas as dificuldades que aqui foram mencionadas e aí, na fidelidade ao Senhor é que nós encontramos a alegria, esta ideia é que me parece muito rica, deve tocar-nos profundamente e dar-nos força e coragem para o nosso testemunho para toda esta semana.

Frei Mateus, o.p.

DOMINGO XXXII DO TEMPO COMUM – 06.11.2016

LEITURA I: 2 Mac. 7, 1-2. 9-14

LEITURA II: 2 Tes. 2, 16 – 3, 5
EVANGELHO: Lc. 20, 27. 34-38

Meus Irmãos

É bom recordar que a revelação que Deus fez do seu plano de salvação para toda a humanidade, revelação feita através do povo eleito, que essa revelação foi gradual. Deus foi revelando as grandes verdades da fé conforme o povo era capaz de as assimilar e compreender e a verdade da ressurreição dos mortos é talvez a última a ser revelada no Antigo Testamento. Era mais difícil, talvez, de outras que vieram antes. Foi no momento da perseguição dos reis pagãos, dos reis do helenismo, ao povo de Israel, portanto no princípio do Século II antes de Cristo, na altura em que para responder a essa perseguição os Macabeus declaram a sua revolta e acabam por expulsar os pagãos, pois bem, é nesse clima que a ideia da ressurreição vem de novo, apareceu claramente afirmada. E percebe-se porquê, porque se os pobres mártires morriam pela fidelidade à lei de Deus, não mereceriam uma recompensa, mas como poderia Deus dar-lhe uma recompensa se eles já tinham morrido? A ideia de uma vida para lá da morte na qual a recompensa seria plena e justa para cada um deles, nasceu aí.  É por isso que é o 2º Livro dos Macabeus e o Livro do Profeta Daniel que aparecem nesse clima, que mais claro afirmam a fé na ressurreição.

Estas coisas graduais não se comunicam com a mesma velocidade a toda a gente, havia gente que no tempo de Jesus ainda não acreditava na ressurreição, era o partido dos saduceus. Mais conservadores, eram a aristocracia do sacerdócio em Israel, eram mais conservadores e portanto não alinhavam nessas novidades, digamos assim, da ressurreição, como também não acreditavam em espíritos, em anjos, ficavam muito agarrados à fé tradicional, mas realmente a ideia de que Deus é justo e de que não o seria se não praticasse uma justiça evidente ao retribuir alguma coisa àqueles que tinham morrido por amor à lei, acabou por demover barreiras e chegou-se à conclusão que Deus havia de ressuscitar os justos para lhes fazer justiça. Para chegar a isso, muito contribuíram as obras como o Livro de Job e o de Coelet também, que puseram em cheque a ideia tradicional de que aos justos tudo havia de correr bem nesta vida, haviam de ter grande descendência, riqueza, havia de ser realmente uma vida muito feliz. Mas vê-se claramente que isso não acontece, portanto havia aqui um impasse que acabou por ser resolvido a favor de uma vida para lá da morte, uma vida que o Deus justo haveria de dar aos seus. O argumento com que Jesus rebate a malícia dos saduceus nesta pergunta, é que Deus é um Deus dos vivos e aqueles que são de Deus têm acesso à vida, à plenitude da vida. Deus é um Deus dos vivos, não dos mortos, e é muito importante para nós que fiquemos com essa ideia, assim quando nós dizemos no credo que acreditamos na ressurreição dos mortos, nós estamos a dizer que acreditamos num Deus dos vivos. Não seria possível que o Deus dos vivos não desse vida aos seus, não partilhasse com os seus essa Vida que tem. Foi isso aliás, que nós celebrámos na Festa de Todos os Santos há uns dias.

Portanto, desta celebração de hoje, nós somos encaminhados para uma visão de Deus como Aquele que dá a vida e lembra-nos a expressão do Livro do Apocalipse em que Deus diz "faço novas todas as coisas”. Aqueles, como os saduceus, mais agarrados aos seus privilégios sociais e religiosos não querem coisas novas, chocam-se com esta vontade de Deus fazer as coisas todas novas e portanto a vontade que Deus tem de dar o acesso a uma vida nova para lá da morte, em que a justiça será plena e a felicidade também.

É muito bom pensarmos que Deus é um Deus dos vivos, não dos mortos, e que se vamos para Deus, vamos para a vida plena, para lá de tudo aquilo que seja mortal, o Senhor dá-nos a comunhão à Sua própria Vida, somos filhos de Deus porque nascemos na Ressurreição, como o Senhor diz.

Portanto é essa a verdade que está presente neste texto e, ao aproximarmo-nos do fim do ano litúrgico, não é nada de estranhar que esta verdade relativa ao para lá desta vida, nos apareça com tanta firmeza nos textos desta celebração.

Vamos dar graças a Deus por isso e vamos avivar a nossa fé na vida, na plenitude da vida que Deus partilha com os seus.

Frei Mateus, o.p.

 

 

Festa de Todos os Santos – 01.11.2016

LEITURA I: Ap. 7, 2-4.9-14

LEITURA II: 1 Jo. 3, 1-3
EVANGELHO: Mt. 5, 1-12a

 

A Igreja celebra hoje, festivamente e coletivamente, Todos os Santos. Mas talvez se possa dizer que se celebra de uma forma especial aqueles Santos que não têm lugar no calendário litúrgico, não são conhecidos e nomeados nas festas da Igreja mas que são Santos. Nós sabemos, toda a liturgia aponta nesse sentido, que esses são muitos, é "uma multidão que ninguém podia contar”. O vidente do Apocalipse ainda conseguiu contar os 144 mil, mas quando chegou à multidão já não foi capaz, eram tantos que já não podia contar. Isto quer dizer que aqui se insere, de certa maneira, se realiza aquela afirmação do cânone da missa, em que nós celebramos todos os Santos que desde o princípio dos tempos viveram na amizade com Deus. E conhecemo-los, alguns deles conhecemos. Não posso deixar de pensar de certas pessoas da minha família, dos meus amigos, que viveram comigo na Ordem, estão na glória de Deus, seria pecado contra à Fé e contra à Esperança, perante o espetáculo daquelas vidas, às vezes até apenas daquelas mortes, eu não acreditar que eles já estão na glória de Deus. E todos nós podemos fazer isso, pensar em todos aqueles que foram Santos e que são Santos que nós conhecemos pessoalmente, até tratámos por "tu”, ou com quem tínhamos laços de familiaridade, esses mesmos estão no Céu, estão com Deus, estão na Grande Festa de que falava o Apocalipse.

E isto, meus queridos irmãos e irmãs, tem a ver muito connosco, muito mais do que nós à primeira vista pensamos. Às vezes pode-se encarar esta festa dos Santos, de Todos os Santos, pensando "pois esses são os que conseguiram, ora nós, pobres mortais, sabemos lá o que nos vai acontecer”. Não, eu penso que isto é um convite muito profundo, muito interpelante a cada um de nós, a cada um de nós: nós somos chamados para a santidade, nós somos chamados para Deus, desde já somos filhos de Deus e temos alguma consciência disso, mas o que viremos ser a seguir, isso só Deus sabe porque é ser como Deus, ser divinizado, transformado. Eu penso que nós temos uma certa propensão por causa das catequeses que recebemos e do tipo de cristianismo que nos foi inculcado, em pensar mais em Sexta-feira Santo do que em Domingo de Páscoa, a pensar mais na grande tribulação, como diz o ancião do Apocalipse, do que propriamente na festa e na proclamação da Glória. Mas isso é, realmente, um desvio de atenção que não é correto, nós devíamos ter esta fé e esta esperança de que vamos ao encontro de Deus. Claro, não sabemos como é que é, temos uma certa angústia perante a realidade da morte, é a nossa maneira de participarmos na Cruz do Senhor, mas nós somos chamados é o ir para lá disso e entrar na grande Festa de Deus. É para cada um de nós. Nós podemos dizer a nós mesmos, Deus chamou-me e quere-me a mim lá.

Nascemos com um grande desejo de felicidade e Deus é que no-lo pôs no coração, nos trouxe aqui. Desde antes da criação do mundo teve o projeto de, realmente, fazer esta festa de toda a criação em Deus e esse projeto realizou-o com um enorme e grande coragem dando a vida pela salvação do mundo em Cristo Senhor. Isso é bom que nós pensemos que estes Santos que agora festejamos neste dia 1 de Novembro, são o nosso quinhão, é lá que nós vamos também encaixar, é para lá que nós caminhamos, cada um de nós e aqueles de nós que nos desgostaram ao partir antes, já cá não estão, pensemos que estão lá, olham por nós, se interessam por nós. Podemos-lhe pedir tantas coisas, nós estamos, realmente, acompanhados de todos estes: que foram simples, desprendidos, que souberam perdoar, foram sensíveis à justiça, à paz e contribuíram alguma coisa para isso, que souberam perdoar, que sofreram pela sua fidelidade e pela sua consciência a perseguição, às vezes pode ser uma coisa muito simples, são preteridos, são postos de lado, passam-lhes à frente aqueles que não prestam, toda essa gente que soube perdoar, que soube morrer e que soube viver, está em Deus. Demos graças a Deus por isso, antecipadamente demos graças a Deus por isso. É isso que a Igreja nos convida a fazer, é desde já entrarmos no louvor a Deus, como dizem os eleitos "A bênção e a glória, a sabedoria e a ação de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amen!”.Porque em tudo aquilo em que empreendeu realizou o projeto admirável de amor, de reconciliação, de fidelidade.

Demos graças a Deus.

Frei Mateus, o.p.

 

 

DOMINGO XXXI DO TEMPO COMUM – 30.10.2016

LEITURA I: Sab 11, 22 – 12, 2

LEITURA II: 2 Tes 1, 11 – 2, 2
EVANGELHO: Lc 19, 1-10

A primeira leitura tirada do Livro da Sabedoria, tirada portanto do último livro do Antigo Testamento a ser escrito, provavelmente uns 50 anos antes da era cristã, tem realmente uma abordagem de Deus e do pecado, do bem e do mal, muito surpreendente. É uma oração e o autor do Livro dirigindo-se a Deus diz "De todos Vos compadeceis, porque sois omnipotente, e não olhais para os seus pecados, para que se arrependam. Vós amais tudo o que existe e não odiais nada do que fizestes” e depois "Mas a todos perdoais, porque tudo é vosso, Senhor, que amais a vida.

Esta grandeza de Deus no perdão, na misericórdia, está manifestada de uma forma muito clara, muito directa, na passagem do Evangelho segundo S. Lucas, a passagem da conversão de Zaqueu. Zaqueu era rico e era chefe de publicanos, como o publicano já é tido por ladrão e pecador, como chefe devia ser um chefe de ladrões e mais pecador ainda do que os outros todos. Ainda por cima era rico, eles eram considerados desonestos, os publicanos recebiam os impostos e eram considerados desonestos pela maioria do povo porque eles tiravam mais do que deviam tirar, portanto era um homem que pela sua riqueza deveria ser muito criticado, muito mal visto por toda a população da cidade que o conhecia. Não era mau de todo, tinha uma coisa boa, alguma coisa que o impeliu a querer ver Jesus e quis mesmo a sério, como era pequeno, dava uns pulinhos por detrás da multidão, não conseguia ver por cima dos ombros e mais à frente subiu a uma árvore e do cimo da árvore viu realmente o Senhor. Mas o Senhor também o viu e é nesse diálogo muito curto que nós encontramos de facto a confirmação daquilo que deveriam ler da Sabedoria. O Senhor diz a Zaqueu "desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa”. Jesus faz-se convidar para a casa de Zaqueu. Quer dizer, trata-o com um certo respeito e amizade, não é? "Vou ficar em tua casa” e ele ficou muito satisfeito com isso e trouxe-lhe uma grande alegria receber o Senhor em sua casa. De facto um homem criticado por toda a cidade, mal visto, considerado um pecador, que encontrava alguma consolação no facto que era mais rico que os outros, mas isso não enche o coração de ninguém e Jesus, porém, trata-o dessa maneira e quer lá ficar em sua casa e isso enche-lhe as medidas, deu-lhe a volta. É por isso que Zaqueu disse "vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, (com certeza havia de encontrar alguém a quem tivesse prejudicado) restituirei quatro vezes mais”. Quer dizer a atitude de respeito, de amizade, de consideração e de misericórdia (ao fim e ao cabo), para com Zaqueu, foi o que foi preciso para lhe mudar a vida. As críticas, a censura, as calúnias para com ele nunca o corrigiram, mas um gesto de simpatia e de apreço, foi o suficiente para ele mudar completamente a sua vida. E o Senhor diz "hoje entrou a salvação nesta casa”, é isso que, realmente, me parece importante, foi assim através de uma atitude de compaixão, de respeito, de amizade (como eu dizia), que a salvação chegou à vida de Zaqueu. Ele acolheu o Senhor com muita alegria e essa alegria transbordou numa mudança de vida.

Isto é uma verdade que encontramos muitas vezes, de muitas maneiras, nos escritos nos escritos Evangélicos e temos uma certa dificuldade em assimilar. Para nós, Deus em Jesus que vem ao nosso encontro, numa atitude de perdão, de por de lado as nossas faltas, de nos dar a mão choca um bocado com aquela ideia que nós temos que Deus está longe, vê com rigor os nossos atos, nós temos que fazer um grande esforço, temos que nos aproximar do caminho reto e Deus no fim há-de avaliar como é que nós vivemos na nossa vida e, se calhar, vai encontrar muita coisa criticável, muita coisa má na nossa vida. São duas imagens completamente contraditórias, ou Deus vem ao nosso encontro como um amigo que perdoa e compreende e que lhe dá a mão ou Deus está longe e nós é que temos que ir ao seu encontro, fazendo o que pudemos para sermos aceites por Ele. Mas é a primeira imagem que está certa, a outra vem de catequeses infelizes que nós recebemos, vem da tentação constante na Igreja de fazermos as coisas mais difíceis do que elas são, ou de pormos a dificuldade onde ela não está. Nós, realmente, devemos rever a imagem que temos de Deus e não há imagem mais perfeita, mais digna de crédito do que a de Jesus de Nazaré. Ele é o Verbo de Deus, é a expressão humana da ternura de Deus.

Eu acho que esta história de Zaqueu, diz muita coisa que se calhar não vemos à primeira vista, mas lembra outras passagens do Evangelho, particularmente o Evangelho de Lucas, aquela pecadora que entra pela casa de Simão e beija os pés do Senhor lavada em lágrimas;  do mesmo género se passou aqui também o que levou Zaqueu a manifestar de forma tão exuberante o seu arrependimento, a sua mudança de vida.

Eu penso que nós deveríamos fazer um esforço para tentar perceber na nossa própria vida, na nossa caminhada de cristãos, os momentos em que nos encontramos com a misericórdia de Deus, em que a misericórdia de Deus veio até nós em que nós tivemos a perceção que o Senhor tinha sido bom para connosco, tinha depositado em cima de nós um olhar paterno e muito amigo. Com certeza se nós procurarmos bem, vamos encontrar alguns momentos da nossa existência em que de facto Deus nos deitou a mão. E isso deveria encher-nos também a nós de alegria e deveria dar-nos mais coragem para fazermos o que devemos fazer, deveria iluminar a nossa maneira de conviver com os outros. Portanto devíamos procurar realmente a nossa própria vida essas ocasiões de Zaqueu, à maneira de Zaqueu e agradecer profundamente a Deus e tirar daí a conclusão que Deus é Esse que nos deitou a mão naquela altura, não aquele que nós, muitas vezes, temos medo de encarar por causa das nossas faltas. Penso que este nosso irmão, que também era filho de Abraão, nos demonstra exactamente tudo isto.

Vamos portanto pedir ao Senhor isso mesmo, que nos faça encontrar em nós mesmos, na nossa história humana, na nossa caminhada, aqueles momentos em que Deus esteve connosco e nos deitou a mão e nos disse "vá despacha-te, eu preciso de ficar contigo hoje”.

 Frei Mateus, o.p.

 

 

DOMINGO XXX DO TEMPO COMUM – 23.10.2016

LEITURA I: Sir 35, 12-14.16-18

LEITURA II: 2 Tim 4, 6-8. 16-18
EVANGELHO: Lc 18, 9-14

 

Meus Irmãos, Minhas Irmãs

Voltamos a falar de oração. No Domingo passado tínhamos aquela parábola da viúva que importunava o juiz iniquo e tanto o importunava que ele acabou por fazer justiça, e terminava essa passagem do Evangelho de Lucas com a interrogação "Será que o Filho do Homem quando voltar encontrará Fé sobre a terra?”.

Aqui continuamos a falar de oração o que me parece, um bocadinho, o cumprimento daquela insistência do Senhor, é preciso insistir, perseverar na oração e assim também, de certa maneira, o ensino de Jesus e da Igreja insiste nesse tema nestes dois Domingos seguidos. Mas o ensino deste dia é muito diferente do outro. O outro é sobre a perseverança na oração, aqui é um bocado o que é isso de rezar a Deus.

Seria um bocado simplista pensar que o publicano é o bom e que o fariseu é o mau. Não é bem assim, o publicano sabe que é pecador e reconhece que é pecador, o mérito está em ser verdadeiro para consigo mesmo, ao passo que quanto ao fariseu, o mal não está no que ele faz, o mal está na sua relação com Deus, há aí um erro de base que estraga tudo e faz com que ele não regresse do templo justificado. De certa maneira podemos dizer, os fariseus (há fariseus em todas as épocas, em todos os séculos, há fariseus nos dias de hoje no século XXI), o fariseu fecha-se sobre si mesmo e tem comprazimento na sua performance, acha que, realmente, faz qualquer coisa de jeito e por isso mesmo espera que o Deus o reconheça como tal, como justo. Deus é posto à margem como espectador da nossa vida, ou se quiserem, na meta da nossa vida onde será o encontro com Ele como juiz. Mas isto é contra a verdade do Evangelho, porque a verdade do Evangelho é que Deus em Cristo nos salva dos nossos pecados, vem até nós, não está à margem, está bem no coração da vida, na nossa vida como Salvador. O erro do fariseu é de facto uma ilusão, julga que não é pecador, não se descobre como pecador e é por isso que eles têm tanta dificuldade em se situar perante as manifestações da misericórdia de Deus em Cristo. Recordo aquela passagem do mesmo Evangelho de Lucas em que uma mulher pecadora, reconhecida como tal, entra pela casa de Simão fariseu porque sabe que Jesus está lá a almoçar e que rega os pés com lágrimas e os enxuga com os cabelos perante o espanto do dono da casa. Jesus explica a Simão o que é que ele não entendeu e a mulher entendeu, a atitude é exactamente de acolhimento da misericórdia, Deus vem até nós em Jesus para nos perdoar os pecados, está presente na nossa vida com essa porta aberta da misericórdia para que realmente nós sejamos capazes de nos assumir como somos na esperança da Salvação também presente em nós. O fariseu vive na ilusão e a sua oração é fechada sobre si mesmo, de certa maneira é árida, é o deserto, é a solidão, ao passo que a oração do pecador, do que se reconhece pecador (todos nós deveríamos passar por aí), é de certa maneira uma abertura à companhia de Deus, é um aceitar a Sua presença na nossa existência, introduz-nos na comunhão, a oração pela fé leva-nos à comunhão.

Vamos pedir a Deus que realmente nos ajude a entender que Ele não está longe, está perto e está perto como um pai que perdoa, como o amigo que ajuda e acompanha com o Espírito que nos ilumina e faz-nos descobrir o que fazer e que é capaz de elucidar até as nossas interrogações, as nossas fraquezas pôr de lado. Peçamos a Deus exactamente que esse espírito de abertura e de reconhecimento da verdade esteja em toda a nossa vida.

 

 Frei Mateus, o.p.

 

 

DOMINGO XXIX DO TEMPO COMUM – 16.10.2016

LEITURA I: Ex. 17, 8-13
LEITURA II: 2 Tim. 3, 14 – 4, 2
EVANGELHO: Lc. 18, 1-8

Essa interrogação que o Senhor põe no fim da parábola, "Quando voltar o filho do Homem, encontrará fé sobre a terra?", interpela-nos muito profundamente. Como é? Então será possível que não haja fé sobre a terra? A Fé é um Dom de Deus, os Dons de Deus são sem arrependimento, como diz a Epístola aos Romanos, mas os dons são para ser aceites e vividos e se nós não os aceitamos como deve ser, não lhes damos condições de crescimento, pois, pode-se perder talvez. O problema interpela-nos a nós, não põe em causa a fidelidade do Senhor aos seus dons, é a parábola do semeador que me vem ao espírito, o semeador lança a semente para todos os lados e ela produz fruto quando cai em terra boa, mas há terrenos que não a acolhem, mas há uns que a acolhem até com entusiasmo mas acabam por a abafar, não estão preparados para criar condições de crescimento, condições de vida.

Nós somos portanto responsáveis pela nossa fé e neste contexto compreendemos que essa responsabilidade tem alguma coisa a ver com a oração. A persistência, a insistência mesmo, na oração é aquilo que o Senhor nos recomenda e disso depende em grande parte a capacidade de manter a fé, de viver da fé. De facto a fé exercita-se na oração e uma qualidade que nós tenhamos e que não exercitamos, acaba por atrofiar-se, esmorecer, desaparecer da nossa vida, um dom qualquer, uma língua estrangeira que aprendemos se nunca a praticamos ao fim de muitos anos já não sabemos, já não nos estamos à vontade, não somos capazes de a ler, de a compreender e muito menos de a falar. A fé exercita-se na oração. Não é propriamente das "rezas", claro que pode ser através das "rezas" que a fé se exprime na oração, mas é sobretudo no diálogo íntimo com Deus é que nós acolhemos o Dom e nos empenhamos nesse Dom, é aí, de facto, que a fé se exercita e vive e vinga na nossa vida.

Esta interpelação não tem só a ver com a nossa fé pessoal, também pode ser encarada, esta interpelação, em termos de Igreja, digamos. Nós olhando à nossa volta vemos que há tanta gente que foi baptizada e que não pratica, há tanta gente que se afastou da fé e até diz "eu gostava de ter fé mas não tenho, não me acontece ter fé…". Esta situação muito generalizada no ocidente levou, em termos eclesiais a pôr-se o problema de uma nova evangelização, seria preciso evangelizar de novo estes espaços que já foram cristãos, digamos assim. E digamos assim porque nós não sabemos até que ponto ia, a adesão de fé intima e pessoal a Deus, vingou nos Santos com certeza e nos santos há muitos outros que nós não conhecemos de nome, portanto admitimos que sim, mas também havia uma espécie de conformismo social que funcionava a favor nessa altura e que hoje não atua da mesma forma e nem na mesma direção. Mas isso, nova evangelização, não deu grande fruto porque de facto o problema não é ser uma nova evangelização as pessoas nunca foram evangelizadas, portanto a evangelização será sempre nova, o que é preciso é uma evangelização. A Igreja é missionária por natureza, isto é um facto que foi expresso com todo o seu sentido no Concílio Vaticano II e que o Papa Paulo VI desenvolveu numa exortação apostólica muito célebre a "Evangelii Nuntiandi", o Anuncio do Evangelho. A Igreja é essencialmente missionária e não pensemos que quando se diz a Igreja estamos a pensar em frades e padres e freiras, não, é a Igreja toda, todos nós somos sal da terra, todos nós somos luz do mundo e da fé do mundo a nossa fé é responsável. Até se pode dizer mais: a verdade histórica é que as comunidades cresceram muito mais a partir do testemunho dos leigos do que propriamente do exercício do trabalho apostólico dos bispos e padres, eram os leigos que na sua vida de todos os dias contactavam com outras pessoas e atraiam à sua fé aqueles que se deixavam levar pelo Espírito Santo e depois era preciso evangelizá-los, integrá-los através dos sacramentos na Igreja, etc., isso já se sente nos Atos dos Apóstolos foi assim, através desses contactos informais dos leigos que a Igreja cresceu e depois então é que vinha o Apóstolo ou alguém da hierarquia da Igreja dar consistência àqueles novos grupos de cristãos.

Todos nós somos portanto membros da Igreja missionária e depois a nossa fé depende da fé do mundo. E se hoje não há a fé e se amanhã Cristo ao voltar não encontrar fé, isso passa para nossa responsabilidade.

Temos realmente que acreditar de que somos evangelizadores e, nesse sentido, esta primeira leitura tem muita importância. Nos concelhos que Paulo dá a Timóteo vemos como há toda uma lógica. Aquilo que se aprende, é preciso mantê-lo com firmeza, "permanece firme no que aprendeste, naquilo que aceitaste como certo" e faz referência às Sagradas Escrituras, nas quais se pode contar a sabedoria que leva à salvação. É isso, a importância que tem o conhecimento das Sagradas Escrituras para todos nós; todos nós batizados temos aí a Palavra de Deus que nos é dirigida que nos interpela, que nos ajuda a perceber a nossa vida e a vida à nossa volta. E depois há a exortação mais directa a Timóteo "o homem de Deus será perfeito, bem preparado para todas as boas obras. Conjuro-te diante de Deus e de Jesus Cristo, que há-de julgar os vivos e os mortos. … Proclama a palavra, insiste a propósito e fora de propósito..." É uma das palavras da Sagrada Escritura que realmente me enche as medidas, esta "fora de propósito", não está a ver se é altura, se convém ou não convém, não, sermos loucos por Deus é o que é preciso, "… argumenta, ameaça, …" (isto não me parece lá muito bonito) "… exorta,.." mas com paciência e doutrina, em vez de ser condenar é no sentido de chamar à fé, de chamar à aceitação toda a gente.

Esta é uma interpelação que me parece que cala muito fundo. Eu sempre achei que aquela pergunta tinha a ver comigo, talvez isso me tenha feito entrar no grupo de cristãos que têm por essencial consagrar a sua vida à propagação da fé, à defesa da fé e à propagação da fé, os Dominicanos, filhos de S. Domingos.

Mas realmente acho que temos que ter isto a peito, mesmo na vida laical, como dizia, temos que ter isto a peito, dar um testemunho coerente da nossa fé. Coerente, isto é, que as nossas obras chamem a atenção para as nossas motivações e os façam perguntar, porque é que afirmamos assim? Essa é a altura em que podemos testemunhar que realmente acreditamos no Evangelho de Jesus Cristo e que n'Ele colocamos a nossa esperança.

Vamos pedir ao Senhor que realmente purifique as intenções de coração, como dizíamos na Oração, e propósito da nossa vontade, sermos coerentes com aquilo que acreditamos, que as nossas boas obras, as obras de misericórdia em particular, espelhem este desígnio de Deus para a salvação do mundo. Sejamos peças importantes neste xadrez, dando testemunho lá onde é preciso.

 Frei Mateus, o.p.


DOMINGO XXVIII DO TEMPO COMUM – 09.10.2016

LEITURA I: 2 Reis 5, 14-17
LEITURA II: 2 Tim. 2,8-13
EVANGELHO: Lc. 17, 11-19
Minhas Irmãs, meus Irmãos

As leituras que nós fazemos na celebração da Missa, o que nós chamamos a Liturgia da Palavra, serve para avivar em nós a fé. Lemos os Profetas, lemos os sábios, lemos os Apóstolos, lemos os Evangelhos, para despertar em nós um movimento de fé que nos leva a celebrar com mais verdade o Memorial da Paixão e da Ressurreição do Senhor, a Eucaristia enquanto sinal e presença desse mistério e nos conduz à comunhão fraterna, ao agapé em Cristo. E normalmente, este avivar da fé tem duas ligações, por um lado mostra mais profundamente o mistério de Deus presente em Jesus Cristo, a Revelação, aquela verdade oculta e aberta a todos os homens a partir de Cristo na Sua Igreja, por outro ensina-nos como é que se segue Cristo, nós que aceitámos na fé o Senhor, como é que nós o seguimos, como é que nós vivemos essa fé.

Hoje essa primeira parte, a descoberta do mistério, é muito simples vem ao encontro de muitas coisas que já intuímos e que conduzem praticamente à Misericórdia: os pobres dos leprosos, que além de terem aquela doença horrível de estarem com uma sentença de morte em cima deles, eram marginalizados, eram expulsos do convívio social, ficavam à margem das povoações, os pobres dos leprosos pedem compaixão e Jesus tem compaixão deles, perdoa os seus pecados com certeza, mas aqui neste caso poe-os sãos, aos dez. Essa exclusão social era de tal ordem que para que um homem ou uma mulher que tivesse sido leproso pudesse integrar a sociedade, era preciso ser atestado por sacerdotes. É por isso que Cristo diz, "ide mostrar-vos aos sacerdotes" porque sabia que quando chegassem aos sacerdotes, estes tinham que reconhecer que já não tinham lepra e dar-lhes esse atestado.

Só um voltou para agradecer e é aqui que se prende talvez o ensinamento para nós, só um ficou maravilhado com o que tinha acontecido e veio dar glória a Deus pelo caminho e prostrou-se aos pés de Jesus para lhe agradecer. E é um samaritano, é um estrangeiro, alguém que não seguia exactamente a mesma religião (e não era da mesma raça). Somos portanto exortados à gratidão, dir-me-ão, bom está bem, mas o caso dos leprosos é muito especial, percebe-se que alguém que é leproso, que vive essa condenação social e física perca a cabeça da gratidão e venha ter com Jesus. Pois bem, é aqui que eu queria, realmente, concentrar a nossa atenção. É que nós também temos, de uma forma diferente, temos recebido tantos dons, não temos é estado suficientemente atentos a eles, também nós temos muito para agradecer, tudo. Que temos nós, que somos nós, se não foi dom de Deus? Deus deu-nos a existência, a vida, as qualidades que temos, a personalidade, e tudo isto não vem de nós mesmos, tudo isto é de facto dom de Deus. Falou-se na Igreja muito, e com razão, contra o amor-próprio, mas não façamos confusões, amor-próprio é o amor de si mesmo que nos fecha a Deus e ao próximo e, por isso mesmo, é uma espécie de idolatria incompatível com o amor a Deus. Agora, assumirmos o que somos, o que somos na nossa individualidade e agradecer a Deus isso, é realmente uma coisa muito importante. O salmista diz "dou-Vos graças meu Deus porque me fizeste", é isso, assumir-se como se é. Há muita gente que sofre com o que é e não queria ser assim, não aceita o sexo que tem, não aceita a aparência humana que tem, não gosta do seu cabelo, não gosta do seu nariz, gastam-se rios de dinheiro para mudar a aparência, mas se calhar não é o mais importante, o mais importante é isso, é saber que fomos criados porque Deus quis e nos quis bem, que nos amou. Assumirmos isso projeta-nos, penso eu, imediatamente numa relação de gratidão para com Deus. Sim, nós temos muitas qualidades, o mal está em pensarmos que as qualidades vêm de nós mesmos, nós temos muitos dons a agradecer, a família em que nascemos, o acompanhamento que a sociedade, e particularmente a família fez na nossa infância, a formação que recebemos, os nossos mestres, as nossas capacidades, tudo isso é aquilo que somos e o que somos é bom e é para agradecer. E quando eu digo isto, projecta-nos imediatamente numa relação com a Graça de Deus e com a salvação que está para nós em Jesus Cristo.

Aqui cabe, realmente, aquela passagem da Epístola de Paulo a Timóteo em que se situa a nossa relação com Cristo em várias hipóteses, em várias condições, "se morremos com Cristo com Ele viveremos", "se sofremos com Cristo, também com Ele reinaremos", "se o negarmos também Ele nos negará", "se lhe formos infiéis Ele continua a ser fiel". Eu penso que nesse tempo se o negarmos Ele não nos nega, exactamente porque Ele é fiel, nós podemos afastarmo-nos e Ele nunca se afasta de nós, nós podemos esquecermo-nos, fecharmo-nos à relação com Ele e Ele nunca se esquece de nós. Está presente em toda a nossa vida e devemos por isso mesmo libertar-nos de uma visão negativa de nós próprios para assumirmos esta graça de sermos o que somos e no qual está toda a nossa vida. Se nós Lhe formos infiéis, Ele permanece fiel. E isso é motivo para darmos graças.

Pois bem eu gostaria de pedir neste momento, com todo o coração, com toda a capacidade que tenho, que todos nós tivéssemos a graça de perceber isto mesmo, que somos um dom inolvidável que o Senhor nos fez e nós recebemos da mão de Deus. Acolhermos o que somos da mão de Deus e isso nos projeta na gratidão enorme a Ele. Que o Senhor permaneça fiel durante a nossa vida toda e que nós tenhamos a lucidez de vermos as coisas boas que o Senhor pôs ao nosso alcance, em nós próprios e no próximo. E não tenhamos dúvidas, se não nos assumirmos a nós mesmos, se não nos amarmos a nós mesmos, não amamos a Deus que nos fez assim, e não amamos o próximo. Amar o próximo como a nós mesmos, se nós mesmos não nos amamos, se vivemos numa revolta contínua com aquilo que somos, realmente a nossa vida é uma desgraça, é a desgraça. Não, temos que assumir a verdade que somos criaturas de Deus e isso é maravilhoso, como diz o salmista.

Frei Mateus, o.p.


DOMINGO XXI do TEMPO COMUM – 21.08.2016

LEITURA I: Is 66, 18-21 
LEITURA II: Hebr. 12, 5-7. 11-13
EVANGELHO: Luc. 13, 22-30   
Meus Irmãos, Minhas Irmãs

Na primeira leitura tirada do livro de Isaías, é-nos posto diante dos olhos a dimensão do projeto de Deus, esse projeto é universal. Fala-se concretamente que o Senhor vai associar o Seu Povo Santo, homens e mulheres de todas as nações e de todas as línguas e eles hão-de ser incorporados e assumidos em Israel e apresentados como ofertas no Templo do Senhor. Virão de todos os lados de todas as nações, em cavalos, em carros, em liteiras, em burros, em dromedários, chegarão a Jerusalém e conjuntamente com o Povo Santo, trazendo as suas oblações ao Templo do Senhor.

Esta universalidade do plano de Deus, do projeto de Deus, parece posta em cheque com a resposta de Jesus à pergunta que lhe foi feita quando caminhava direito a Jerusalém, "são poucos os que se salvam?" De facto, há aqui expressões que dão um sentido bastante contrário àquela lição de Isaías, "muitos tentarão entrar sem o conseguir", dizia a palavra do Senhor e há mais: "a porta fechar-se-á", "há quem esteja de fora e peça para entrar", e o Senhor dirá "afastai-vos de mim todos os que praticais a iniquidade"; "muitos hão-de vir…"- e aí repete-se o tema de Isaías – "do oriente e do ocidente do norte e do sul", mas outros, de Israel, irão ser postos fora. Este problema preocupou muito os cristãos; serão muitos ou poucos os que se salvam? Durante séculos a cristandade viveu no terror do inferno (está estudado historicamente), a ideia de que poucos se salvavam dominou, acreditava-se em geral que a maioria se perdia. A partir do século XIV, através de sermões, de livros, etc. o pensamento cristão girou à volta do risco da perdição. Mas o Senhor, de facto, nunca diz se são muitos ou se são poucos, temos que reconhecer isso; Ele põe a questão noutros termos, não na quantidade, mas aproveita a pergunta para interpelar os seus discípulos a fazerem alguma coisa pela salvação: "Esforçai-vos por entrar na porta estreita". É esse esforço que o Senhor pede e aproveita a pergunta para acentuar isso e mete a Sua resposta num contexto que repete a profecia de Isaías, um contexto de universalidade. Deus chama todos mas é preciso que aqueles que sabem que o Senhor os chama, se esforcem por isso, façam alguma coisa por isso. E isso que significará? Que esforço será esse? Bem o sabemos, significa viver num estado de vigilância sem se deixar prender e se enlear pelas circunstâncias da vida presente, tendo de facto o nosso coração fixo nos bens eternos, como dizia a oração. De facto, aquela perspetiva de que muitos se perdem nasceu de vários fatores e não é que muitos se perdem, é que a maioria se perderia, o que é bastante mais grave. Vários fatores, dizia eu, por um lado uma interpretação muito restrita da afirmação que vem dos padres da Igreja, de que fora da Igreja não há salvação, se bem que interpretada em termos tão restritivos que acabou por ser condenada pelo Papa Pio XII. Não quer dizer que aqueles que não são membros da Igreja Católica Apostólica Romana se percam, não, não é isso que se quer dizer, é que todos aqueles que se salvam constituem a verdadeira Igreja, fazem a Igreja, e é por isso que fora da igreja não há salvação porque a salvação define a Igreja. Por outro lado, havia um pessimismo profundo que se instalou na cultura e nos hábitos das pessoas e que, em termos cristãos, significava uma hipervalorização do pecado e do perigo de viver, do castigo que estava a pairar sobre as nossas cabeças. Serão muitos ou poucos? O fundamental é que temos de fazer alguma coisa pela nossa salvação, temos de levar isto a sério e querer, lutar e passar pela porta estreita: não é nem mais nem menos que seguir o Senhor que é o caminho e o caminho é Ele que passou por uma porta bem estreita que é a da paixão e a da morte. Uma maneira de estar em comunhão com Ele é suportar a cruz das nossas vidas e caminhar com fidelidade atrás d'Ele. Mas até estas cruzes, as contrariedades, os problemas, as dificuldades que nós temos, os desgostos da vida, tudo isso pode ser visto como ajudas vindas de Deus para a nossa salvação.

É esse o sentido profundo da temática da Epístola aos Hebreus, que vem de trás, do livro de Bem Sirá, e diz que, de facto, um pai atento e que goste dos seus filhos, se esforça por corrigir os seus defeitos, e por isso é que os filhos não podem desprezar a correção de Deus, que é esse Pai atento, atencioso mesmo, e que intervém através dos acontecimentos da vida, dando-nos a oportunidade de fazermos a nossa caminhada para Deus; é a nossa maneira de caminharmos atrás de Jesus, é portanto a nossa maneira de passarmos a porta estreita; essa maneira traduz-se, exatamente, na aceitação voluntária e agradecida das ocasiões que o Senhor põe no nosso caminho. Quer dizer, o projeto de Deus não é apenas um projeto vago, é uma presença constante de Deus na nossa vida, através de acontecimentos, mesmo naqueles que nos parecem negativos há uma ajuda, uma força, uma sabedoria que se comunica; todas essas palavras significam uma Graça de Deus. Nós somos postos à prova e é nos dada a possibilidade da ajuda de Deus para passarmos pela porta estreita.

Mas realmente a curiosidade é muita, nós pensamos nisso, será que serão assim tão poucos os que se salvam? Isso, se fosse realmente verdade, significaria que o projeto de Deus, a sua misericórdia, a sua sabedoria, teriam sido derrotados pelo poder humano, pelos atos humanos, teria sido, de certa maneira, superado pelo nosso mal, e é isso que estava por detrás daquele pessimismo que dominou a consciência cristã do século XIV em diante. O mal dominaria este mundo e agarrar-nos-ia de tal maneira que nós não teríamos a possibilidade de criar um caminho, uma saída para fora. Não, eu isso recuso-me terminantemente a acreditar. Que o projeto de Deus seja por nós derrotado, é porque não pode ser o projeto de Deus. Nós podemos fazer mal a nós mesmos, bem o sabemos, mas isso não quer dizer que Deus seja impossibilitado de nos salvar dos nossos pecados: em Jesus Cristo deu a prova de que há um dispositivo de salvação de valor incalculável, infinito, e nós devemos pôr toda a nossa esperança, de facto, em Jesus Cristo, na Sua paixão, na Sua morte. Não, o projeto de Deus não pode ser aniquilado por nós, mas também não podemos viver como se estas coisas fossem garantidas, nós temos que querer, no fundo é isso, nós temos que querer a salvação, desejá-la, fazer alguma coisa por isso é querê-la a sério e só isso é o que o Senhor nos pede. Por mais fracassos que haja na nossa existência, se no fundo de nós mesmos tivermos este norte, este desejo, a vontade de fazer parte da festa, pois bem, o Senhor agarra nisso leva-nos para o céu. E Deus não é ineficaz, Ele a quem nada é impossível, é bem capaz da nossa fragilidade, das nossas hesitações, dos nossos joelhos que vacilam e tremem, fazer qualquer coisa de mais sólido; a nossa esperança está n'Ele, mas é preciso que esteja, é preciso que esteja mesmo. Não vale a pena perder muito tempo a pensar nessas coisas, será o que Deus quiser, e não conseguimos nada, pois estamos perdidos ou, pelo contrário, começamos a pensar com uma reação, aliás sã, ao pessimismo anterior, a pensar que toda a gente se salva, que não há problema. Nem uma coisa nem outra: temos que fazer alguma coisa por isso e não é mais do que querer, querer mesmo a sério, desejá-lo, preferir isso a outras coisas, ver a superioridade do que Deus nos promete sobre aquilo a que pede que renunciemos, e é o que nos faz mal, pois ao fim e ao cabo o pecado estraga-nos, adoece-nos. Portanto acreditar realmente que em toda a nossa vida, mesmo nos nossos fracassos, Deus está presente e está presente com o seu Amor, com a sua sabedoria, com a sua força. É a misericórdia que salva o mundo. E haverá gente que se perde? O Senhor apenas dá a entender que pode haver gente que se perde. Nós não queremos ser desses, claro, e nenhum dos nossos quer ser desses e por isso pedimos que esta misericórdia seja efetiva. Mas como pode ela ser efetiva no mundo em que estamos se não através de nós, que nesse mundo estamos e que acreditamos nela? A misericórdia de Deus tem-nos a nós como embaixadores e representantes e é através da nossa capacidade de amor fraterno entre nós e nas nossas comunidades, nas nossas famílias, na capacidade de perdão e de entreajuda e também para os de fora, e muito especialmente para os de fora, os mais pobres  e mais esquecidos, os mais marginalizados: é através de tudo isso que realmente o mundo poderá acreditar que a misericórdia de Deus vence e triunfa e voltar-se com esperança para Ele. E isso basta, isso basta, ao poder de Deus nada resiste.

Frei Mateus, o.p.


DOMINGO XX do TEMPO COMUM – 14.08.2016

LEITURA I Jer. 38, 4-6.8-10
LEITURA II Hebr. 12, 1-4
EVANGELHO Luc. 12, 49-53

Estas leituras podem surpreender um pouco, mas há uma ligação muito profunda entre elas. Comecemos exatamente pela primeira que nos conta o fim da vida do profeta Jeremias: é praticamente condenado à morte pela fome, a cidade está cercada pelo exército da Babilónia e não vai durar muito na sua resistência ao cerco, já não há que comer, passa-se fome e isolando o próprio profeta no fundo de um poço, de uma cisterna, é evidente que ele vai perecer. Mas há um estrangeiro, um estrangeiro e não um judeu, que teve pena dele e vai falar com o rei e lá se arranja uma maneira de o tirar da cisterna. Isto que aconteceu com Jeremias, a perseguição ao profeta, de certa maneira aconteceu com muitos outros, muitos deles foram perseguidos, alguns assassinados, Jesus fala mesmo daquele que foi morto entre o altar e o pórtico do templo. Há uma constante má vontade contra a palavra dos profetas porque vêm dizer coisas que desalojam, que perturbam, que não é agradável ouvir, como aquelas que Jeremias, apesar de toda a sua sensibilidade, teve que dizer ao povo por obediência à missão que Deus lhe confiara. Foram muitos os que sofreram, foram muitos os que morreram pelo serviço da Palavra de Deus; ao fim e ao cabo todos os mártires, de uma forma ou de outra passam por aí. Lembro a minha surpresa de ter lido, já não sei há quanto tempo, um livro sobre os mártires do Século XX, os mártires cristãos católicos do Século XX, é uma grande multidão, foi talvez um dos maiores séculos de mártires de toda a história da Igreja, nós estávamos no meio disso e não contávamos, não sabíamos: irmãos e irmãs que morreram na Ásia, na América, em África, por todo o lado.

Há de facto uma grande multidão à nossa volta que morreu por Cristo, morreu pela fidelidade à fé em Jesus Cristo e é por isso que a Epístola aos Hebreus tem razão ao afirmar que estamos rodeados por um grande número de testemunhas e por isso o autor a partir daí faz uma exortação, em primeiro lugar a correr para o combate com coragem, com perseverança, "corramos com perseverança ao combate que se apresenta diante de nós", e depois põe diante dos nossos olhos Aquele que é o guia desta corrida para o combate, que é o próprio Jesus, "guia da nossa fé e autor da sua perfeição." E descreve aquilo que Jesus fez em termos também de um combate: renunciou à alegria que tinha ao seu alcance suportou a Cruz, desprezando a ignomínia e está sentado à direita do Trono de Deus. Pensem n'Ele que suportou contra Si tão grande hostilidade da parte dos pecadores para não nos deixar abater pelo desânimo. Todos nós conhecemos a tentação do desânimo e é por isso que a exortação desta Epístola aos Hebreus é uma exortação à perseverança com os olhos postos em Jesus. E acrescenta aquela palavra que é muito interpeladora, "ainda não resististe até ao sangue na luta contra o pecado". A nós ainda nos falta qualquer coisa, Ele o Senhor passou por tudo isso.

Esta exclamação de Jesus, "veio trazer o fogo à terra", lembra-nos a afirmação de João Baptista que disse "eu batizo-vos em água, depois de mim vem Aquele que veio antes de mim e vos vai batizar no fogo e no Espírito Santo". O fogo purifica, os grandes metais, os metais nobres, são purificados no fogo, o fogo era utilizado nos sacrifícios no templo e há uma associação muito profunda entre este fogo purificador e aquilo que Jesus Cristo realizou; Ele purificou o mundo do pecado e abriu-nos as portas de um mundo em que já não há pecado. Faz confusão dizer que não veio trazer a paz, veio trazer a divisão. Então o Senhor não disse "deixo-vos a Paz, dou-vos a minha Paz", aos seus discípulos? Todas as vezes que celebramos a Eucaristia, antes da comunhão propriamente dita, essa afirmação do Senhor é lembrada, nós lembramos as vezes que Ele disse isso. Não, de facto é preciso perceber as coisas. O Senhor veio propor-se à fé dos homens e das mulheres, a todos de todos os tempos e ao propor-se à fé propõe-se a uma opção pessoal e livre de cada um, o que fará que de dois há um que aceita Jesus Cristo como seu Salvador e outro que não aceita e é isso que traz a divisão, Ele não quer ser causa de divisão, mas acontece que querendo propor-Se à opção livre da fé, acaba por ser causa de divisão. Só que, como todos sabemos, durante este tempo da nossa vida tudo é revisível, tudo pode ser corrigido, aqueles que O recusam podem vir aceitá-Lo, portanto não façamos juízos. O Senhor disse "deixo-vos a Paz, dou-vos a Minha Paz" depois da ressurreição. Isto quer dizer de facto que a Paz de que o Senhor fala não é uma paz com ausência de combate ou uma fuga, ainda pior, a uma fuga ao combate. Essa paz não interessa. O Senhor foi valoroso, triunfador do combate em que esteve implicado e é por ter chegado ao outo lado do seu "mergulho", que o Senhor pode distribuir a paz aos seus discípulos. Digo isto do seu mergulho (batismo quer dizer mergulho, como sabem) pois Ele anseia por ser mergulhado nesse sofrimento que é duro, como nós sabemos, desde Quinta-feira Santa à tarde, durante toda a noite, até morrer na Sexta, mergulha ainda mais profundamente até, ao seio da morte se assim se pode dizer, para libertar os antepassados das correntes que apanhavam e só no Domingo de madrugada é que veio ao de cima desse mergulho, ressuscitado e livre.

A Paz não é uma ausência de combate, a Paz vem após o combate, como um prémio do combate e todos aqueles que deram a vida por Cristo de certa maneira ajudam para que a paz cresça no mundo e que um mundo de justiça e de paz apareça, pois novos céus e nova terra vêm do combate corajoso dos discípulos de Cristo e sobretudo do combate de Cristo que também é corajoso. Podemos ficar um bocado impressionados com isto, até particularmente lendo isto em S. Lucas que foi descrito como sendo o escriba da mansidão de Cristo. O Senhor é infinitamente manso, mas também amava infinitamente a justiça. N'Ele estas coisas não têm a mínima contradição, este grito, que quer Ele se não que se acenda, o fogo que veio trazer à terra é um grito apaixonado, o Senhor aproxima-se desse sofrimento, deste mergulho no sofrimento e aproxima-se com uma coragem inaudita, com paixão, porque realmente avançar nesse sentido, não que não Lhe custasse, sabemos bem que desde a oração no horto até à morte, tudo isso Lhe custou, mas na realidade avançou, tinha a certeza absoluta, ilimitada, na justiça, na sabedoria, no amor do Pai, sabia que ia passar para o outro lado, o mergulho não era um equívoco, o mergulho era realmente uma passagem.

Nós somos, portanto, convidados a combater o bom combate da fé e exortados nesse sentido. Peçamos a Deus que todos nós tenhamos consciência disso, sejamos capazes de sermos fiéis nas dificuldades, nas perseguições, nas calúnias, nas dificuldades que nos surgem à nossa volta e muitas vezes por que nos desesperamos, mais perto de nós está. Nós temos que ser fiéis nisso porque o Senhor foi fiel até ao fim e é o exemplo que nos é proposto. Esta divisão será superada, a divisão de dois contra três e de três contra dois, nas mesmas casas, nas mesmas nações, nas mesmas sociedades, esta divisão em torno da figura de Jesus será superada e será superada através do testemunho e da fidelidade no Senhor. Peçamos isso mesmo, que sejamos capazes de nos mantermos na fidelidade nas piores condições, já que temos que seguir Aquele que sofreu por nós.

Frei Mateus, o.p.


DOMINGO XIX do TEMPO COMUM – 07.08.2016

LEITURA I Sab. 18, 6-9
LEITURA II Hebr. 11, 1-2.8-19
EVANGELHO Luc. 12, 32-48

Irmãos e Irmãs

Esta passagem do Evangelho segundo São Lucas é claramente uma exortação à vigilância que é uma das atitudes de fundo da nossa existência de cristãos. Constantemente encontramos nos textos bíblicos que a liturgia usa, a referência ao facto de que no nosso batismo estamos já de certa maneira inseridos em Cristo, participamos até certo ponto da sua morte e participamos da sua Vida. É esta participação na vida de Cristo que deve orientar os nossos passos e os nossos trabalhos e isso significa estar vigilante. Não é de forma alguma fazer abstração do tempo presente à espera de um céu que virá depois. Seria uma alienação, justamente acusada pelos inimigos da fé cristã que viam nisso um desfazer-se de si mesmo em função de um ideal futuro que não teria fundamento. Não, é viver o tempo presente como quem sabe que esse tempo presente nos conduz, nos vai aproximar daquele acontecimento que nós não dominamos, que nós não conhecemos perfeitamente, mas no qual pomos a nossa esperança. De facto, nós estamos inseridos num processo de crescimento, a Igreja peregrina toda ela, peregrina exatamente em ordem ao Reino e o como sejam as passagens dessa caminhada, não se sabe. Sabemos que há, para lá do esforço diário, há um reino que nos espera, o Senhor vem ao nosso encontro.

Isto encaixa perfeitamente com a segunda leitura, porque a base desta vigilância é a fé de que fala aquele trecho do Capítulo 11 da Epístola aos Hebreus. Nós encontramos aí uma referência muito explícita à fé dos patriarcas, e muito especialmente à fé de Abraão, o patriarca dos patriarcas, e chama-se a atenção dos leitores, a todos nós que acreditamos que isto é a Palavra de Deus, para o facto de que Abraão viveu a sua fé como uma caminhada, em busca de uma cidade que não se encontra em parte nenhuma, que não era certamente aquela de onde ele tinha saído, como também grande parte da sua vida passou-a em busca de uma descendência que nem ele nem Sara poderiam assegurar. Mas isso é o que caracteriza exatamente o movimento da fé, é o ir para o desconhecido, avançar para o que não se conhece, fazendo confiança naquele que promete.

É curioso pensar que um certo sector da cultura do ocidente que se diz pós-cristão, nomeadamente o escritor James Joyce, fez da figura de Ulisses o modelo, o herói ao qual nos devíamos comparar e imitar. Mas Ulisses é extraordinário; o Ulisses, o herói da Odisseia, porque regressa ao ponto de partida, todo o seu esforço, todo o seu trabalho, todas as suas penas e sofrimentos, são para regressar ao sítio de onde tinha partido, a Ítaca que o espera ansiosamente. Pensamos, também no filósofo Nietzsche, decididamente pós-cristão que, talvez para ultrapassar o vazio que nasce da rejeição da fé e da sua aventura, nos propôs o mito do "eterno retorno", isto é uma visão do universo como fechado sobre si mesmo eternamente repetindo-se e buscando o já vivido. O velho e não o novo. E a gente lembra-se da dedução de Deus: "Eis que faço novas todas as coisas" (Apoc. 21,5). Nós, de facto, temos num modelo Alguém que não regressa, vai em frente, em busca do desconhecido e avança para ele, como é o caso de Abraão. E isso é importante para percebermos que a fé nos põe, de uma certa maneira, numa condição de aventura. A fé é uma aventura, não é uma certeza de voltar ao já conhecido, de recuperar o que todos nós lembramos, não, é um ir para o que não se conhece, se se acredita na Palavra de Deus. Nós somos filhos de Abraão e nesse sentido mesmo que tenha dito um certo poeta francês do século XVI "feliz aquele que como Ulisses fez uma bela viagem de regresso à terra de partida", mais felizes somos nós que como Abraão fizemos a viagem para lá do conhecido, confiando em Deus e na sua Palavra.

A fé é uma aventura, é um bocado difícil admitir isto, mas não é uma aventura no sentido de uma alienação do presente, encaixa exatamente numa caminhada para o futuro e isso dá sentido ao tempo presente ao dia-a-dia, às coisas simples, às coisas corriqueiras nas quais nós temos a nossa vida inserida, é aí que nós damos passos em frente em relação ao Senhor.

E também não é um refúgio no passado, víamos na primeira leitura que a recordação dos grandes acontecimentos da salvação do povo eleito, como a saída do Egipto, levou os que se lembravam disso a uma lei divina, a de partilhar de comum acordo os bens e os perigos e cantar os hinos dos antepassados, mas há-de ser exatamente para orientar o presente. Como é que é possível viver uma vida de aventura? Nicodemos também perguntava como é que é possível nascer de novo quando já se é velho? Como é possível nós na terceira e quarta idade fazermos uma vida de aventura? Eu penso que aqui se prende a exortação do Senhor, que está de certa maneira presente na oração da missa, o Senhor dizia que era preciso ser como crianças para entrar no Reino dos Céus, é preciso que o nosso coração mantenha um espaço de expectativa de confiança e de interesse por aquilo que não conhecemos mas que o Senhor nos promete. De outra maneira, estamos agarrados ao nosso sossego, à nossa rotina, detestamos que as coisas se mudem, que as nossas coisas mudem e fugimos de tudo isso. Mas o Senhor não nos pede que nós nos agarremos ao que já conhecemos, ainda que aquilo que já conhecemos seja a fé cristã.  O Senhor pede que nós sejamos capazes à luz da sua palavra, caminharmos para o desconhecido, sermos crianças como o Evangelho nos diz que devemos ser. É Isso que fala a oração da missa que, fala exatamente, pede que Deus nos inspire uma devoção filial, uma confiança filial, na Sua Palavra, na Sua Pessoa.

Frei Mateus, o.p.


DOMINGO XVIII do TEMPO COMUM – 31.07.2016

LEITURA I Ecle. 1, 2; 2, 21-23
LEITURA II Col. 3, 1-5.9-11
EVANGELHO Luc. 12, 13-21

Sabemos que a segunda parte do Evangelho segundo S. Lucas é toda ela norteada pela caminhada para Jerusalém onde o Senhor vai dar a Sua vida pela Salvação do Mundo. E é nesse contexto da caminhada para Jerusalém que Jesus insiste mais concretamente nos valores do Reino, nele centra a Sua Palavra, vai partilhando pelas pessoas que o querem ouvir, sobre o Reino que está perto, o Reino que está próximo. Mas acontece que as pessoas não ficam muito presas àquilo que Jesus está a dizer, têm os seus problemas e querem que Jesus os resolva. Alguém, do meio da multidão, com certeza que Jesus não estava a falar dessas coisas, alguém pediu-lhe que Jesus dissesse ao irmão que partilhe os bens, que faça as partilhas e Jesus aproveita essa deixa, das partilhas, para dar um ensinamento a respeito do Reino, evidentemente. E disse, guardai-vos de toda a avareza, a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens, a vida de uma pessoa não depende disso.

E aqui, vendo as coisas pelo lado positivo, podemos recorrer à segunda leitura: O que a Epístola aos Colossensses nos diz, (já nos vinha a falar disso há dois domingos) é que nós, os que acreditamos da presença do Reino e a Ele aderimos através do gesto do Baptismo, nós ressuscitámos com Cristo e podemos e devemos aspirar às coisas do Alto onde Cristo está e morremos, de certa maneira, para a vida anterior, participamos na morte e na ressurreição de Jesus, o mistério pascal está presente no nosso baptismo e é reactivado sempre que nós fazemos as pazes com Deus se tivermos pecado.

É isso que norteia a nossa vida, a nossa vida estrutura-se em torno desta vida com Deus escondida em Cristo e de uma morte para as outras coisas que nos preocupavam e nos ocupavam o coração e a mente. Pois ele diz a respeito disso, Paulo ensina, que é preciso que aquilo que é passageiro, efémero, passe por essa morte, a nossa participação na morte de Cristo, "fazei morrer em vós o que é terreno, imoralidade, impureza, paixões, maus desejos…, a avareza que é uma idolatria". E isso, todos esses valores que são bens, se forem postos no primeiro lugar da nossa vida, da nossa preocupação, do nosso desejo, levam-nos a uma grande insensatez como a parábola explica, o homem que pôs toda a sua alegria nos muitos bens que tinha não sabia onde os meter, é interpelado por Deus com a palavra "insensato", "esta noite hás-de entregar a tua alma". Mas mesmo que não seja nessa noite, de uma forma ou de outra, aquilo em que ele pôs a esperança, não o pode satisfazer. É importante pensarmos nisto, de facto. Os bens deste mundo, que são verdadeiramente bens, os bens deste mundo são efémeros e o nosso desejo é mais vasto que isso, que esses bens, mais profundo, não se sacia de facto com essas coisas e é portanto uma insensatez pôr a esperança naquilo que, se formos a ver, não pode trazer-nos a felicidade, não pode, pode fazer parte da nossa vida e é útil utilizá-los, mas não satisfaz, não é suficiente. Pode verificar de várias maneiras, mas nós chegamos lá pela fé em Cristo que nos faz perceber que, de facto, Cristo deve ocupar o lugar no mundo, lugar no nosso coração, no nosso projecto de vida, na apreciação que fazemos das coisas e se nós não O pusermos em primeiro lugar, pomos alguma coisa em primeiro lugar e isso acaba por ser, de facto, uma grande loucura. É o que acontece tantas vezes à nossa volta, há pessoas que deixam de ter esta relação vital, ou nunca a tiveram, com a Páscoa do Senhor, com a morte e ressurreição do Senhor, passam ao lado disso ou isso passa-lhes ao lado e não implica nada, mudança nenhuma na sua vida e por isso mesmo acabam por se voltar para valores que não são, pelo menos não são, tão válidos como o desejo deles os faz crer.

Acontece isso por trás da experiência que leva ao hino de Coelet. O hino de Coelet é um hino de um sábio do Antigo Testamento que se apresenta como sendo o máximo dos sábios, o Rei Salomão. De facto, não era de Salomão e a relação com Salomão é apenas de que utiliza um género literário que Salomão também cultivou, e no qual teve grande fama. A experiência de que as coisas são vazias, vaidade aqui quer dizer isso mesmo, são vãs, são vazias, tudo aquilo que as pessoas se afadigam com o qual se sacrificam, acaba por não ter valor, não tem peso, não corresponde realmente àquilo que nós esperamos delas. O Coelet escreve num momento em que ainda não estava muito claro no pensamento dos filhos de Deus, do povo santo, a ideia da ressurreição e, portanto, a recompensa para lá desta vida; portanto, olhando apenas para esta vida, o espaço habitual dela, verificávamos que era tudo um grande vazio, um enorme e grande vazio. Com a esperança nesses valores leva de facto ao fracasso, à tristeza e nesse sentido podemos dizer que pôr a esperança em Jesus Cristo, viver numa esperança, numa partilha ainda que muito fraca e muito difícil de nos satisfazer para já, é melhor do que o resto. Nós não somos votados ao fracasso, seríamos se puséssemos a nossa esperança em coisas que são em si mesmas passageiras e não satisfazem. A nossa fé está de facto num morto que ressuscitou e partilhamos na vida, se queremos vivê-la em coerência, partilhamos essa morte e essa ressurreição. Sim, essa ressurreição está connosco, ajuda-nos na nossa caminhada, orienta os nossos passos e ilumina o nosso caminho. E isso é a grande lição que hoje a Palavra de Deus nos traz: Ele é para nós a sensatez, o bom senso, a esperança e a liberdade, porque quem se sacrifica a valores secundários, acaba por ser prisioneiro deles e não é livre. Nós podemos usar todas essas coisas e usá-las bem, desde que não sejamos escravos delas, mas que sejamos senhores delas. O Senhor é que é o nosso Senhor, o Seu projeto é o nosso projeto. Tudo o que se desvia daí, ou tudo o que contradiz esse projeto, acaba por entrar em conflito connosco, pois pedimos uma felicidade sólida, que fique, que aguente e não coisas que passam com a força do vento.

Vamos pedir ao Senhor que realmente nos dê uma fé esclarecida, uma fé que se empenhe, como Paulo dá a entender que deve acontecer, "vós que vos despojastes do homem velho com as suas ações e vos revestistes do homem novo, que, para alcançar a verdadeira ciência, se vai renovando à imagem do seu Criador" e aqui já não há as categorias antigas, tudo isso desapareceu, nem grego nem judeu, nem circunciso ou incircunciso, nem bárbaro ou cita, escravo ou livre, nem branco ou negro, nem homem nem mulher. Estes binários são apresentados negativamente por S. Paulo várias vezes. Nós somos todos irmãos em Cristo, mas se vivendo em Cristo, temos que O ter a Ele como nossa luz, nossa força, nossa esperança. É isso que pedimos que nosso Senhor fortaleça em nós.

Frei Mateus o.p.


DOMINGO XVII do TEMPO COMUM – 24.07.2016

LEITURA I – Gen. 18, 20-32
LEITURA II-Col. 2, 12-14
EVANGELHO - Luc. 11,1-13

Meus Irmãos, Minhas Irmãs

Este pedido do discípulo "Senhor ensina-nos a orar" tem um certo eco na nossa vida. Com certeza que todos nós já passámos pela descoberta que não sabemos rezar, pedimos que o Senhor nos ensine a rezar. A resposta de Jesus é o "Pai Nosso" como viram. Esta versão do Pai Nosso, a versão de S. Lucas, é um bocado diferente daquela a que estamos habituados que é tirada do Evangelho segundo S. Mateus. Mateus desenvolve duas das petições: quando diz "venha a nós o Vosso Reino" ele acrescenta "a Vossa vontade seja feita assim na terra como no Céu", mas isso é a vinda do Reino, claro; a outra petição que S. Mateus desdobra é a última que na versão habitual se refere à tentação e ao mal. No fundo S. Mateus não traz nada de novo naquelas sete petições, diz exatamente o mesmo que S. Lucas.

A primeira coisa que me parece importante, é exactamente a primeira palavra "Pai". A primeira geração cristã viveu esta descoberta, Deus é nosso Pai. Viveu com espanto, com alegria. Há passagens em S. Paulo em que se refere exactamente como para ele foi uma descoberta extraordinária, porque pelo Espírito Santo podia voltar-se para o Deus dos seus antepassados, o Deus sem nome e sem presença e sem face e chamar-lhe Pai. E até não era Pai era "Abba", "Paizinho". A Igreja mantém um bocadinho desse respeito, dessa descoberta reverente, da Paternidade de Deus, nas introduções ao "Pai Nosso". É de facto uma audácia especial e em todas as introduções litúrgicas ao Pai Nosso, essa nota da ousadia de lhe chamar "Pai" reaparece (como já aparecia antes da reforma litúrgica). Nós podemos aproximar de Deus na confiança de filhos, porque Ele é nosso Pai. Isso já é um grande ensinamento sobre a oração, reza-se como filhos de Deus. Os pedidos são, evidentemente, os que nós já conhecemos de S. Mateus e estão todos estruturados em volta da vinda do Reino. É isso que nós pedimos, aliás os exemplos que o Senhor dá depois, daqueles pais que sendo maus não vão dar coisas más aos filhos, assim também o Pai do Céu há-de dar o Espírito Santo. É nesse Espírito Santo que nós somos realmente filhos e sendo filhos de Deus, somos todos nós irmãos e irmãs. Esta ideia da fraternidade universal, que em qualquer lugar, em qualquer tempo, aquele que se encontra connosco é nosso irmão, é nossa irmã, essa ideia realmente podia ser absorvida com muito mais força na nossa vida contemporânea. Então podíamos pedir coisas que não sejam o Espírito Santo, que não sejam a vinda do Reino? Claro que podemos pedir tudo, podemos pedir tudo, estamos à vontade com Deus para O abordar e pedir todas aquelas coisas que queremos, só que, é normal, todos esses pedidos devem estar submetidos ao pedido máximo que é o melhor para nós, que é o da vinda do Reino ao nosso coração, a vinda do Reino à nossa vida. Na oração da missa pedíamos que esta relação que nós temos com os bens que normalmente pedimos, não venha estragar a nossa relação com os bens futuros, com os bens eternos. É isso que o Senhor nos pede a nós, que concentremos o nosso coração no mais importante.

Na segunda leitura, Paulo descreve a situação dos cristãos, sepultados no baptismo ressuscitaram e têm acesso na fé ao poder de Deus. Deus ressuscitou Jesus e de certa maneira esse poder de ressurreição está em nós pela fé. E a fé tem muito a ver com a oração, a oração afinal não é mais do que a expressão da fé, como que a respiração da fé. Diante de Deus estamos numa atitude de fé ativa, real, concreta, e isso é que é oração. Peçamos muitas coisas, não peçamos nada, fazendo confiança em Deus, peçamos que o Senhor nos dê a mão, nos faça passar através das dificuldades, de qualquer maneira o essencial da oração é a atitude de fundo, a atitude de fé. É isso que me parece que o Senhor nos ensina neste simples ensinamento, Jesus não é só um modelo de oração, Jesus é também mestre de oração. Mas acrescenta uma outra dimensão ao seu ensino, a da perseverança, nós devemos perseverar na oração, como o que está a porta e bate e quer os três pães e não se vai embora enquanto o outro não lhe dá ou como, noutra passagem praticamente paralela a esta, a pobre viúva que andava à volta de um juiz que lhe fizesse justiça, insistia constantemente com ele que lhe fizesse justiça, até que o juiz, que não era "boa peça", ficou de tal maneira farto de a ouvir que lhe deu aquilo que ela pedia, fez-lhe a justiça que ela pedia. A oração perseverante é eficaz e é, desde já, uma relação com Deus, um diálogo se quiserem, parece-me que podemos também dizer que este diálogo é um diálogo desigual, nós pensamos que temos que dizer muitas coisas, o Senhor também corrige isso no seu ensinamento, temos que dizer muitas coisas para ver se o Senhor nos atende aos nossos pedidos, mas não, antes de nós sabermos já Deus sabe aquilo de que nós precisamos, o que é preciso é que peçamos com fé. Não é dizer coisas, não é dizer "rezas", é estar numa atitude acolhedora, de entrega ao plano de Deus na fé. E neste diálogo, que aqui fazia referência, parece-me que há um progresso a fazer, que é falarmos cada vez menos e darmos cada vez mais espaço a Deus. Não necessita de grandes elaborações, não, é a porta aberta para O acolher e essa porta é que nos vai estruturar na nossa caminhada de cristãos e é por essa porta que Ele nos vai estruturar na nossa caminhada de cristãos. É um diálogo, sim, mas é um diálogo em que da nossa parte não é preciso dizer nada, é preciso estar atento, escutar, no sentido profundo de estar atento e obedecer. A oração é um grande desafio para todos nós e quem realmente tenta viver na oração sabe que tem que voltar constantemente ao principio, tem que voltar constantemente ao "ensina-nos a rezar". Porque não somos perseverantes e por isso acabamos por desistir da eficácia a oração.

Vamos pedir ao Senhor que nos ajude, nos ajude a realmente a sermos perseverantes. A perseverança de Abraão é magnífica, é realmente uma grande lição; ele regateia com o seu amigo, que é o Senhor, a salvação de Sodoma, não tem coragem de ir até ao zero, mas desce de cinquenta até dez, o que já é bastante significativo e o mais bonito disso é que nós sentimos que nesse diálogo em que Abraão insiste e pede, transparece uma grande amizade, uma grande confiança. Por isso se diz que Abraão foi amigo de Deus e Deus foi amigo de Abraão e é amigo de Abraão.

Rezemos para sermos também caminhantes neste mundo pela mão dada com o nosso Amigo, o nosso Amigo que é o Senhor.

Frei Mateus o.p.


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